com amor, Alice

Foto de Carla Ramos

Foto de Carla Ramos

desde sua última carta, Anna, eu não mudei de ideia. sinto muito. mas você não pode ser egoísta comigo. não percebe seu pensamento limitado sobre o suicídio? Sobre o meu suicídio?

já está certo. será breve. silêncio é minha vocação. me parece algo bastante digno comigo depois de tudo. até mesmo depois do sonho que vivemos.

dignidade para deixar de ser isso que sou, um espectro selvagem. uma casca de cujo olhar todos desviam. um ser de língua roxa das amoras da nossa infância, língua de morto é pesada demais para os vivos, não acha? eles já me consideram morta. eu também.

você é tão linda, Anna. depois de pulamos teus muros nos deparamos com tanta delicadeza e perspicácia. é como se estivesse diante de um animal mitológico. Anna, minha mulher alada de olhos de coruja. a amo demais.

portanto não apresente argumentos indignos do teu talento. não se desespere, preciso que me solte. a vida humana, minha vida, é completamente desnecessária para qualquer coisa relevante neste planeta ou universo. todos somos desnecessários e pior, ainda somos prejudiciais ao planeta e um aos outros, assim como para outros seres vivos. e mesmo o amor, a beleza que somos capazes de produzir, a razão que podemos atingir e toda arte não me interessa. nem as estrelas. nem sua vida me interessa, Anna.

e  absolutamente em  mim não existe a vaidade que vejo em você. vaidade e insistência, você quer amor demais. para mim bastou o teu. você pode até dizer o contrário, mas é otimista sim. acredita na humanidade. há em você amor fati. nada disso existe em mim. como você diz, vejo sol exatamente como ele é sem cor: aquele que dá e tira a vida. nada para nós existe além do sol.

você se encanta com as coisas mais singelas e eu, sou incapaz de me sensibilizar por uma estrela cadente. você tem alguma teoria para meu desencantamento?

quando éramos pequenas, você gostava de invetar histórias para mim, lembra? peço um último favor, não fique rodeando meu túmulo com açúcar como fez com o de Adele, para que as tais formigas aladas penetrem e devorem minha carne e um teco de mim voe com elas e seja mais outras vidas… não perca seu tempo sentada no meu túmulo para me contar histórias, desde já, e é o que vale, acho isso inútil. desnecessário com você. então quero te pedir o seguinte:

conte nossas histórias para os outros. não tenha medo de nos ver, de se ver. não tenha medo das palavras e do que elas significam e vão significar. não tenha medo de nada, Anna. deixe todas as palavras nuas, todas os segredos expostos como fraturas em auto estrada, não tema imaginar o inimaginável. ouse com toda a arrogância que puder. nada digno é feito por covardes.

se agora chego ao fim dessa coisa que sou, parto sem saudade. nem mesmo de você. portanto não fique abraçando drama, compreende? você não precisa disso. precisa escrever. escrever até achar o seu ponto final.

quero o silêncio de mim mesma para sempre. e até que tudo isso seja fato, sim, aceito trocarmos cartas.

com amor,

Alice.

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Sobre alesafra

.Autora de DEDOS NÃO BROCHAM, ed Draco e do blogue com mesmo nome

  1. Aline Viana

    Nossa, adorei! Inclusive, admiro tamanho desapego da sua Alice, uma coisa quase budista e super libertadora.

  2. Um adeus com todas as letras – e que letras! Parabéns querida

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