Juntinhos

Foto:  mr.beave

Foto: mr.beave

Aqui dentro é muito gostoso. Às vezes chacoalha e me acorda. Mas não é igual ao corredor sujo e molhado. Sinto falta do cheiro da mamãe. De sua língua me lambendo. Meus irmãos ainda dormem. É que eles têm sono pesado. Só acordam pra mamar. Estamos juntinhos. Os três. Como mamãe ensinou pra não sentir frio. Nem precisava. Tá quentinho. Hmmm. Deu vontade. Uma mamadinha agora seria ótimo. Gostei dessa música. Vou dormir mais um pouco. Quando acordar mamãe estará aqui. Aí vou mamar um montão. Aaai! O que aconteceu? Que frio! Cadê mamãe? Quanto barulho. Quanta fumaça. Espero que mamãe apareça logo. Até que enfim meus irmãos acordaram. Isso. Chorem alto. Ela deve ter ido pra longe. Não está Juntinhos escutando. Mesmo encostados o frio tá ganhando de nós. Acho melhor procurar ela. Dá pra sair daqui. A tampa abriu. Este lado é baixo. Venham. Ah, o frio piorou. O barulho. A fumaça também. As luzes não me deixam enxergar. Vamos se esconder no mato. Quero mamãe. Ela vai nos levar pra um lugar bem quente. Sempre faz isso. Até quando chove no corredor gelado ela nos deixa aquecidos. Debaixo dela nenhuma gota me molha. Precisamos ficar juntinhos. Os três. Chorem mais alto. Já sei latir. Mas ela vem mais rápido quando choro. É, esse mato tá cheio de formiga. Também tô com medo do rato. Ele parece louco de fome. No corredor gelado mamãe não deixa nenhum rato se aproximar. Do outro lado não deve ter formiga. Nem rato com cara de louco de fome. Mas temos de passar pelas luzes barulhentas. E pelo vento que empurra. Aaai! Aquela coisa caiu queimando em mim. Seria melhor se ela viesse nos buscar! Por que ela não escuta nosso choro? Venham pra cá. Precisamos ficar juntos. Os três. Dois? Cadê ele? Será que encontrou mamãe? Ou se perdeu? É, ela tá do outro lado. Espera aí. Eu também vou. E essas luzes. Os meus olhos doem. Assim não enxergo. É melhor voltar pro mato. Ei, cadê você? Não se afaste de mim. Lembra que mamãe, antes de sair, sempre recomenda: fiquem juntinhos pra se protegerem? Onde você está? Mamãe levou eles. Por que me deixou aqui? Não quero ficar sozinho. Ela vai vir me buscar. Já, já. Tenho certeza. Igual no dia que o garoto bobo nos levou pro alto da escada. Depois de mostrar seus dentes pro garoto bobo, ela resgatou um por um. Já, já será a minha vez. Venha logo. Agora! Quero mamar. Tá frio. Barulhento. Muita fumaça. Vou correr. Não gosto de fumaça. Nem dessa luz vindo cada vez mais forte. Mamãe. Ma…

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Gláuber que texto ágil, imagético,contagiante! Li numa tacada só. Valeu! Tadinho…cadê mamãe?

  2. Fatima Barbosa

    Nossa Glauber como diz a amiga, li nunca tacada só… Muito bom mesmo, mas tadinho cadê mamãe…

  3. Aline Viana

    Nossa! O clima de tensão que você construiu é muito bom!

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