Rafeiro

ElivertoScherer

Quatro patas peludas nunca fizeram parte da rotina até ancorarmos a vida na casa de nossos avós maternos. Na verdade, existiu um filhote de cão que compartilhou alguns dias de sua existência conosco, o chinelo voador de minha mãe encontrando por acaso sua cabeça, abreviando nossa alegria e a pequena vida. Sobreviveu em uma fotografia, certamente sob a guarda de meu irmão mais novo – sempre acredito que ele é o guardião das imagens dos bichos que tivemos.

E tivemos muitos. Muitos para a contabilidade de quem não é fã de cães e gatos, as quatro patas um atentado à moral e aos bons costumes dos móveis da casa, poucos para quem acredita que a vida povoada de animais é mais sadia em comparação à assepsia que reina nos lares desprovidos de bichos de estimação. Se o falecimento de meu pai nos trouxe alguma espécie de compensação – é difícil encarar qualquer tipo de morte com um benefício de contrapartida – talvez tenha sido a possibilidade de conviver com animais na casa de meus avós, os três cães e muitos gatos marcando nossa entrada na adolescência com seus pelos, humores e companhia.

A rainha-mãe de cães e gatos atendia por um diminutivo humano, emprestado de uma cadela que minha mãe teve na infância: Olguinha. Recolhida da rua ainda filhote pelo meu irmão mais novo – talvez por isso eu acredite que ele seja o fiel depositário das imagens dos bichos que tivemos – ela inaugurou a era dos animais de estimação no lar dos Iser, minha avó cedendo aos caprichos do neto preferido, a condição de caçula-que-perdeu-o-pai batendo forte na condição de avó-que-faz-tudo-pelos-netos.

Vira-lata, pelo curto branco misturado de preto e marrom, era Olguinha quem comandava as saídas diárias de Muide, a caramelinha, e Amigo, o cão manco, os dois vira-latas agregados à trupe nos tempos seguintes, o trio batendo calçada todos os dias, a casa sem muro na frente de meus avós tornando a liberdade de ir e vir uma realidade. Mansos, os três eram conhecidos na vizinhança, certamente invejados pelos demais cães, cuja diversão diária se resumia a coçar pulgas, roer um osso ou latir no portão.

Era Olguinha quem liderava a comitiva que seguia minha avó na ida diária ao minimercado, Muide e Amigo respectivamente a segunda e o terceiro da fila, o único gato que tínhamos à época fechando o cortejo, a procissão transformando minha avó numa versão Terceira Idade do Flautista de Hemelin – o que rendia desaforos por parte dela durante todo o percurso e o retorno.

Também era na casinha de Olguinha que os cães se esquentavam no frio do inverno, uma grande caixa de papelão fazendo às vezes de aquecedor, até mesmo o gato era admitido na confusão de pelos e patas. E era Olguinha quem liderava o desfile de cães quando eu tarde da noite chegava da escola onde lecionava, as patas riscando o trilho de pedra ladeado de grama, os rabos esfuziantes quase entrando na van que me deixava na porta de casa, as narigadas de satisfação resfolegando no ar frio das noites de junho.

Mas era meu irmão quem tinha as rédeas da mãe-de-todos-os-bichos, suas orelhas caíam quando ele ralhava com ela, a cachorra adulta e senhora de si passando novamente à condição de tímido filhote, não é um retorno à infância o que vivemos quando alguém nos acusa, briga, recrimina? Era assim com Olguinha, e nem mesmo na condição de sua nova dona, título adquirido ao vencer meu irmão em um jogo infantil qualquer, eu conquistaria sua obediência, a lição respeito-canino-não-se-conquista-sem-esforço compreendida logo cedo.

Foi numa tarde de calor que Olguinha abandonou seu posto de fêmea-rainha. O único momento em que ela permanecia presa era na ida de minha mãe, também professora, até à escola onde lecionava, o trajeto a pé acompanhando um membro da família sempre uma tentação para uma cachorra cuja casa também era a rua. Um descuido nosso, um descuido do ônibus dobrando a esquina, e Olguinha ficou rodeada de crianças, a morte nem sempre senhora discreta, seu ego infantil às vezes exigindo plateia, o corpo inerte do cão da professora Vera um acontecimento a ser contado na chegada à sala de aula.

Não lembro se meu choro por nossa cachorra foi tão sentido quanto o de hoje, escrevendo essa crônica. Não recordo quantos dias meu irmão ficou deprimido pela perda. Não contabilizo o nível de consternação dos meus avós, da minha tia ou minha mãe. Só sei que, para os três adolescentes que éramos, a morte mais uma vez entrava sorrateira em nossa vida colhendo, em rápida braçada, depois do falecimento de meu pai, de uma nada tranquila convivência na casa de meus avós, o minguado estoque de inocência e fragilidade que ainda nos restava.

Imagem: Eliverto Scherer

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Setubal!!! Belo texto!!! Obrigado!

  2. fernanda

    Lulu, vc é incrível…perfeito

  3. maria thereza simões cordeiro

    Lu, me acabei!!! Lindo e delicado este texto! continue sempre!!!

    • lsetubal

      Certamente continuarei nessa estrada de escrivinhar, Tetê. Valeu pela leitura e por teu feedback. Sodades! 🙂

  4. Lu, querida! Crônica perfeita!!

  5. Ana Paula Knak

    Lu, voltei no temo contigo…
    Um beijo

  6. Ana Paula Knak

    Lu, voltei no tempo contigo…
    Um beijo

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