Lembrança

Imagem: "True Love", de "The Doctr"

Imagem: “True Love”, de “The Doctr”

Mesmo no nervosismo que foi a coisa toda, Antônio cuidou para que o tiro atingisse o coração. Ele não se perdoaria se estragasse o rosto de Helena. E agora ela jazia ao seu lado no carro, presa pelo cinto e coberta com a jaqueta jeans preta dele.

Não era caso de terminar, ele insistiu o quanto pôde. Ele podia largar a mulher. Que não era ruim, era verdade. Ainda nova, a Marlene, estudada também. Mãe dos filhos dele e tal. Aquela história toda.

E Helena não tinha mais o que fazer com aquele maridinho. Que nem marido era. Tinham começado a dividir apartamento pra economizar pra faculdade e passaram a dividir também a cama numa noite dessas, ela contou a ele uma vez. O sujeito cursava contabilidade, ia ser um nada a vida toda. Ela merecia mais. Como ele, professor universitário, advogado. Juiz um dia.

Ele seguia dirigindo meio sem rumo, à procura de um lugar onde pudesse parar por alguns instantes, ou até algumas horas sem chamar a atenção.  Seriam seus últimos momentos. Iria se entregar, estava decidido.

Só que antes ele precisava fazer uma coisa. Pela última vez. E por culpa da Helena. Culpa dela.

Desligou o motor sob uma árvore em uma rua só com terrenos à venda. Antônio virou delicadamente o rosto dela pra si. E olhou. Fechou os olhos e tentou lembrar. Dos olhos, do cabelo teimando em cair sobre eles.

Abriu os olhos. Havia esquecido da pinta, quase imperceptível, na bochecha esquerda. Passou os dedos de leve sobre ela e sentiu a pele ainda morna.

─Não precisava ser assim. A gente podia nunca ter que passar por isso. Você nunca me deu uma chance de…

Imaginou os dois velhinhos, dividindo um café com silêncio em alguma padaria que não conseguiu identificar. Mãos entrelaçadas e o olhar pra dentro. Sonhava sem ter acordado.

─Você não vê? A gente tinha isso tão fácil e você ia… Eu ainda não acredito, você ia desistir da nossa vida!

Com os olhos fixos para além dele sob os óculos escuros, ela não esboçou reação. Ele ainda esperou. Que ela se reanimasse. A viver.  A história deles.

A passagem de um vulto, uma esquina adiante, o sobressaltou. Era apenas a sombra de um mendigo. Um sujeito que lhe pareceu velho, cansado e sujo a ponto de um vira-lata ter trocado de calçada para não o acompanhar. O homem poderia voltar, querer saber que carro era aquele parado no meio do nada ou pedir uma ajudinha pra pinga… Se ele voltasse, Antônio estava preparado.

─Ninguém vai sentir sua falta mais do que eu, você sabe, né?

E aspirou profundamente, tentando gravar as notas do perfume de Helena. Um cheiro rosa que ficava na roupa dele, no assento do carro e até nos livros que ela trazia. Era estranho que Marlene nunca tivesse reparado. Ele podia captar aquela emanação em meio a uma sala cheia de outros alunos.

Ao longe, o mato de algum lote pronto para venda era queimado. Ficou difícil respirar ali. Antônio deu partida, mas, de novo, não sabia bem aonde ia. Ligou o rádio e tocava Neil Young. Sem se dar conta de que dizia aquilo pela enésima vez, contou-lhe como aquela canção o emocionava e pediu pra ela prestar atenção à letra. Helena com seu inglês de cursinho, que mal pegava uma ou outra palavra e culpava a dicção do cantor.

A delegacia ficava pro outro lado, mas ele poderia ir lá mais tarde. Não faltaria tempo para isso. A única prioridade era continuar junto dela o mais que pudesse. O celular dela tocou. Encostou o carro, procurou pela bolsa no assoalho do veículo, abriu-a. Era a Michele chamando. Quem seria aquela Michele de quem ela nunca lhe falou? O que mais ele não saberia?

Ela também não sabia tanto sobre ele. Não deu tempo. Primeiro foram as dúvidas que ele lhe tirava todas as tardes. Depois o receio. A culpa. A vida.

Quis voltar a ver. Contemplou-a novamente quase em êxtase. Afastou os fios, apenas para vê-los caírem outra vez. A pele morena. Os lábios ainda úmidos de sal.  De uma lágrima que ele não viu.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Helenas, Antonios… Muitas histórias!

  2. Caraaaaammmmbbbaaaaaaaa!! Amei esse história Aline! Uau!!! Parabéns!

  3. Luciane

    Amei o texto. Literaturapura! Só um comentário: Xô Antônios!!!Psico total…. kkkkk .beijocas

  4. Lindo, lindo, Aline! Tem aquela cadência que a vida obriga ter, mesmo que o assunto seja a morte da Helena. Vida e Morte entrelaçadas. Lindo mesmo!

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