Memória de Menina IV

mulher_sobretudo

Foto: Peter Tandlund

Já contei como eu quase me tornei uma empresária do ramo joalheiro?

Na multinacional de produtos químicos, o Sérgio era diretor de vendas. Ele ganhava comissão sobre todos os vendedores, ou seja, metas e mais metas alcançadas pela plebe deixavam seu salário bem polpudo. Faturava mais que o presidente. Entre uma e outra trufa de chocolate deixada sobre a minha mesa, o sacana começou a me elogiar, a me convidar pra sair. Mas com ele não ia deixar barato. Tanto investimento com academia, dieta, massagem linfática, cremes, perfumes importados, depilação, bronzeamento artificial, entre outros milhares de gastos, pra entregar tudo assim de graça? Não mesmo.

Ele vinha com aqueles xavecos bobos, sabe?, e eu logo lhe dava o fora.

– Por que você não sai comigo, hein?!
– …
– Parece que eu tenho uma doença grave.
– Olha só, preciso desligar, o doutor Gustavo está me chamando. Tchau, um beijo.

“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”, era o meu lema.

Numa terça-feira, ainda pela manhã, a recepcionista ligou dizendo que havia chegado um buquê de flores para mim. Fui buscar. No cartão um poema muito do juvenil. Não estava assinado, mas eu sabia quem o escreveu.

O meu ramal tocou. Claro, era o Sérgio:
– Gostou das flores?
– Não gosto de rosas amarelas, muito menos murchas.

Ele soltou um palavrão e bateu o telefone. Será que dessa vez eu exagerei? Fiquei assustada. Não precisava pisar com tanta força. Ele logo surgiu no corredor com sua pança e gravata, balançavam em direção de minha baia. Me ajeitei na cadeira.

– Quero que antes das três estes contratos estejam na minha mesa com firma reconhecida. Ouviu?
– Que eu saiba sou secretaria da presidência. Ainda não fui promovida para o setor de vendas.

Ele jogou os contratos sobre a minha mesa e foi embora.

Cretino!

No primeiro instante pensei em ligar para o meu chefinho e contar tudo, mas contei apenas até dois e comecei a rir de sua cara engraçada quando bravo. Dava vontade de apertar as bochechas.

Pedi para o boy reconhecer as assinaturas e retornar rápido. Faltavam quinze minutos para as três quando deixei os contratos na mesa dele, acompanhados do post it: leve a vida mais na esportiva senão você enfarta. Beijinho pra relaxar!

Ele me ligou, pediu desculpas pelo tom grosseiro e me agradeceu pela rapidez.

– Nem sempre sou rápida. Tem algumas coisas que faço bem devagar…
– Ah é?! O quê?
– Tchau, o doutor Gustavo está me chamando.

Alguns dias depois, logo após o almoço, ele deixou sobre a minha mesa um envelope. Disse para eu abrir sem ninguém por perto.

Fiquei imaginando o que seria. Uma bomba? Fiz as unhas ontem, sei não, ao abrir pode decepar minhas mãos. Mas nos casos de atentados, pelo que ouço na tevê, os envelopes não são entregues diretamente pelo remetente ao destinatário, apenas os suicidas. Ainda assim não abri. Ele a todo o momento passava por perto. Deve ter perdido muitas vendas naquele dia. Eu fingia não o ver. Faltava meia-hora para terminar o expediente quando, enfim, comecei a abrir o envelope. Com cuidado. A hipótese da bomba voltou. Parei. Peguei a régua. Continuei abrindo devagar. Com a régua trouxe o que havia no fundo: outro envelope. Este de plástico e colorido. Olhei para os lados. Ninguém me observava. Coloquei o pequeno envelope sobre a mesa. Soltei o laço. Ao abrir os brilhantes reluziram. Imediatamente deixei escorregar o objeto platinado na palma da minha mão. Era a coisa mais linda a meia aliança de ouro branco cravejada de brilhantes.

Imediatamente liguei para o ramal dele:
– Amei o presente!
– Gostou?
– Muito, demais, pra caramba!
– Que bom! É difícil te agradar.
– Mas agora você acertou e em cheio. Amo muito ganhar jóias.
– Não sei se acertei o número do aro. Coube no seu dedo?
– Parece que foi feito sob medida para mim.
– Almoça comigo amanhã? Quero te beijar todinha.
– O quê?
– Você sabe, Daiane, que estou muito a fim. Ninguém aqui é criança. Sai comigo, vai?

Ainda sou uma menininha, pensei em dizer.

– Olha só, eu vou, mas, você sabe, sou casada e não quero ter amante. Entendeu? Será só essa vez.
– Tudo bem.
– Promete que depois não vai me importunar?
– Fique tranquila. Não vou te perturbar. A gente vai amanhã na hora do almoço?
– Não. Vamos no sábado de manhã.
– Sábado de manhã? Poxa, não aguento mais esperar, minha mesa, inclusive, está levitando.
– Deixe de graça. Hoje é quinta, quase final do expediente, vá dormir cedo, amanhã trabalhe bastante e durma cedo novamente que o sábado logo chega. Me pegue aqui na portaria às nove.

Detesto fast food. Uma horinha de almoço passa rápido, precisava de mais tempo pra deixar ele completamente caidinho por mim.
Disse ao meu querido marido que ia participar de uma palestra. Saí de casa toda no social. Com o meu melhor salto. No cabelo fiz um rabo de cavalo mais alto – os homens não resistem a uma nuca perfumada. Caprichei na lingerie… Cheguei as nove na portaria do prédio. Uma buzina.

– O que é isso?

Ele vestia camiseta regata, shorte e tênis.

– Tive de dizer em casa que ia jogar bola.

Foi um contraste ao abrir a porta da suíte. Eu entrando de saia, meia-calça, blusa social e o Sérgio de shorte e regata. Mas logo nos despimos de nossas fantasias.

Primeiro deixei ele se deleitar. Matar a fome de predador. Sempre gosto dessa parte. É quando o homem mais se assemelha com um animal selvagem. Sou sua presa indefesa. Depois, com calma, viro o jogo. Sem nos tocarmos com as mãos, mostro o quanto ele pode sentir prazer. Nenhum homem resiste ao roçar os bicos dos meus seios sobre ele, agora o indefeso. Querem logo enfiar a mão, não deixo. Roço na barriga, tórax, rosto. Após ouvir muitas suplicas coloco um biquinho na boca, o outro. Desço roçando com suavidade, só as pontinhas. Como é bom ouvi-lo gemer. Engulo seu mastro, saboreio, saboreio, saboreio e, com eu ainda por cima, nos encaixamos: o sacana foi às nuvens.

Na segunda recebi um buquê de rosas vermelhas. Ele escreveu no bilhete que não conseguia esquecer o nosso sábado.
Nos corredores, café, almoço, na saída, eu o evitei durante a semana. Na quinta me ligou.

– Vamos sair de novo.
– Olha, Sérgio, eu disse que não queria ter amante.
– Por favor.
– Não!
– Só mais uma vez, vai?
– Não posso.
– Mais uma, só essa, eu prometo.
– Aquele nosso encontro foi tudo de bom, maravilhoso, mas não posso sair novamente com você. Eu avisei, não foi?

Na semana seguinte outro envelope. Um solitário de ouro com brilhante.

– Ai, amei, amei, amei, é lindo demais!
– Vamos amanhã?
– Vamos. Mas, você sabe, só mais essa vez, tá?

Minha coleção de jóias teve um crescimento vertiginoso. Ganhei meias alianças, solitários, gargantilhas, anéis, brincos, pulseiras. Mas ele me surpreendeu com um presente e mais ainda com o convite.

– Vamos sair hoje à noite pra jantar?
– Hoje?
– Isso mesmo, hoje. E vá com o sobretudo que eu te dei, só ele, sem nada por baixo. Entendeu?
– Você tá maluco.
– Conheço uma cantina na mooca que os banheiros são enormes. Eu quero ficar com você lá.
– Que isso? Endoidou de vez?
– Dá um perdido no seu marido e vai com o sobretudo sem nada por baixo.
– Nem está tão friozinho assim…
– Se você tiver coragem te pago mil reais…
– Peraí, Sérgio! O que é isso, meu!? Você me considera uma puta, né?
– Desculpe, Daiane, não era isso…
– Era isso, sim.
– Esquece, vai. Me desculpe. Foi mal.
– Se eu fosse uma puta até aceitaria os mil reais, como não sou, por cinco mil eu encaro essa.
– Pago dois. No máximo.
– Fechado.

Disse para o Adalberto que precisava me encontrar com a minha irmã. Ela quer conversar sobre a sua separação, essas coisas. O único questionamento foi o por quê me fantasiei de Matrix.

– Vai rolar uma festa a fantasia… Que isso, seu bobo, quando eu voltar vou te mostrar a Matrix, ele sorriu.

O Adalberto acabou me inspirando. Voltei ao quarto, peguei meus óculos escuros estilo Trinity e troquei os saltos pelas botas.
Depois da dificuldade para sentar no banco do carro vestida naquele sobretudo, na cantina o garçom me pediu o casaco.

– Aqui nós temos aquecedor. A senhora vai sentir calor.
– Obrigada, mas eu estou com um pouco de febre, morrendo de frio.

O garçom foi buscar as bebidas.

– Você me fez mentir muito hoje. Precisava dobrar esses dois mil reais. Ficou barato.
– E aí, você está como eu pedi, sem nadinha por baixo?
– Por baixo deste sobretudo não tem nem um pelo, só tem a minha pele lisinha.
– Hmmm, daqui a pouco vou conferir se está toda lisinha mesmo.
– Vamos para um motel.
– Não. Vai rolar no banheiro masculino.
– Masculino? Por que não no feminino?
– E se me pegam no banheiro feminino?
– E eu no masculino?
– Ah, mulher o pessoal releva. Agora, se me pegam lá vão achar que sou tarado.
– E é mesmo.
– Quando eu for você me acompanhe, fique ao lado da entrada. Se não tiver ninguém lá dentro eu te chamo.

Tenho certeza que toda a cantina me viu entrar no banheiro dos homens. Ele gostou quando tirei os óculos do bolso e coloquei no meu rosto. “Uau, tá parecendo a Trinity!” Ficamos no máximo uns quinze minutos. Tempo para o Sérgio me conferir, reconferir, passar as mãos, a língua, sentar no vaso, eu sobre ele, “me chama de Neo, vai” e assim o animal selvagem logo se satisfez. Ele saiu primeiro. Ligou para o meu celular e então saí. De cabeça baixa segui direto para o estacionamento.

– Cadê o meu dinheiro?
– Calma, delícia.
– Já fiz a minha parte, agora faça a sua. Preciso pagar o meu cartão amanhã.
– Foi melhor do que eu imaginei, gata.
– Todo o pessoal da cantina me viu entrar naquele banheiro.
– Ah foi?
– Espero que aí não tenha nenhum conhecido.

As aventuras com o Sérgio terminaram. No mês seguinte ele foi transferido para Salvador. Responsável pelas vendas de todo o Nordeste. Mais alguns meses e eu teria o estoque suficiente para abrir uma joalheria. Em nossa despedida, entre lágrimas, ele disse que iria me enviar as passagens para eu visitá-lo ao menos uma vez por mês, que me deixaria num hotel cinco estrelas de frente para o mar, mas o sacana nunca me ligou nem ao menos respondeu meus e-mails. Deve ter conhecido alguma Gabriela.

 

Leia também: Memória de Menina I
Leia também: Memória de Menina II
Leia também: Memória de Menina III

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Muito bom , queridão!!! Já deu samba!!!

  2. Gláuber amigo, esse menina é das minhas! No bom sentido é claro! kkk Adorei o enredo, as fantasias e sua condução de toda a história. Imagina nossas “meninas” se encontrando para um programa heim? Já pensou?

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