Gozo mortal

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A decoração, típica de quarto de hotel barato. A parede, de um rosa pálido. Na janela, aparentando nunca ter sido lavada, uma cortina amarrotada com estampas florais desbotadas pelo uso e pela luz do sol. No centro, uma cama antiga de madeira estilo provençal com uma colcha da mesma estampa da cortina. No lençol, uma esgarçadura dos inúmeros corpos que por ali já rolaram. Ao lado da cama, um criado-mudo com o verniz fosco e desgastado nas extremidades. Um velho abajur com grossa camada de poeira. De cada lado do leito, um tapete surrado cuja cor original já não é sequer perceptível. Os tacos, que um dia receberam uma camada de cascolac, hoje, não passam de um chão riscado pelas inúmeras arrastadas de móveis. A porta que dá acesso ao quarto traz a tinta descascada e estufada em várias partes.
Na antiga poltrona, no canto direito do quarto, um homem com um ar ansioso e nervoso. Acendeu seu terceiro cigarro e já tomou uma dose de uísque que trouxe consigo. Ao lado da garrafa, um copo ainda vazio e limpo aguarda pacientemente alguém para compartilhar. O homem olha pela enésima vez o relógio de pulso e, num impulso, levanta e passa a caminhar pelo minúsculo e abafado quarto. Mais uma vez abre a cortina e olha para fora numa tentativa de avistar alguém. Ninguém.
Caminha mais um pouco e para em frente ao espelho, que quase já não reflete nada, e verifica sua imagem.
De repente seus aguçados ouvidos ouvem um toc-toc inconfundível de saltos altos femininos atravessando o corredor. Os passos são firmes, cadenciados, sonoros. Param, e uma leve batida ressoa no quarto.

– É ela! – pensa o homem. Respira fundo, passa as mãos um tanto trêmulas no rosto e percebe que está suando frio. Olha novamente no espelho e, na própria manga da camisa, limpa o suor do rosto. Sorri para si mesmo e vai atender a porta.
Ao abrir, uma perna com meias arrastão e um sapato de verniz salto agulha 12 aparece antes de sua dona. Uma perna que coreografa no ar promessas de uma noitada maravilhosa.

– Você demorou. Já não aguentava mais esperar. Você é má. – diz o homem olhando para a mulher recém-chegada, que ainda se encontra parada à porta e o olha de forma sensual.

– Vem. Entra e fecha a porta. A noite está apenas começando, meu amor.

Sem dizer uma única palavra, a misteriosa mulher dá um passo para dentro do quarto, vira-se sinuosa e fecha a porta de maneira delicada, mas firme. Volta o corpo para o homem e, com um sorriso maroto, olha-o de cima abaixo e diz para ele se acalmar.

– Não precisa ter medo de mim. Hoje, vou realizar o seu…Não o meu…Não. Nosso sonho.

Dizendo isso, para e olha para todo o quarto numa rápida avaliação.

– Você escolheu direitinho o hotel e o quarto que pedi. Amei a decoração! – e dizendo isso, cai numa sonora e gostosa gargalhada, deixando à mostra lindos dentes perolados numa boca carmim. Seus olhos brilharam intensamente quando, parando de rir, começou a tirar o pesado casaco que a cobria e o deixou cair ao chão. Andou um pouco e se emparelhou ao homem que parecia hipnotizado por sua figura esbelta e curvilínea.
Aproximando ao máximo seu rosto do dele, onde suas respirações se misturavam perguntou num sussurro:

– Você me deseja? – e dizendo isso lambeu o rosto do homem aguardando resposta.

– Simmm – respondeu o homem que já se encontrava teso de desejo.

-Você me quer essa noite todinha pra você? – sussurrou no ouvido do homem e em seguida enfiou a língua feito um réptil em busca de sua presa.

– Deus! Simm!! – foi a resposta sôfrega do homem àquela provocação deliciosa.

A reação a essa sensual conversa já se fazia notar pelo seu membro retesado e pelo suor que escorria de seu rosto rolando pelo pescoço. Sua respiração se alterava cada vez mais e sua boca e garganta secaram.

– Relaxe meu querido. Tome uma dose de uísque enquanto faço um strip-tease pra você.
Vem, senta aqui na poltrona. Tira sua camisa, fica à vontade. A noite é só nossa.

– E você? Não me acompanha na bebida? Tem um copo para você também – disse o homem sorvendo, ato contínuo, um grande gole.

– Não costumo beber em serviço. Gosto de ficar bem lúcida para desempenhar meu papel com perfeição.

– Ah, mas me faça companhia. Abra uma exceção hoje.

A bela dama piscou de forma conciliatória e prometeu que, assim que terminasse a noitada, ela tomaria uma boa dose. E dando como encerrada a discussão, caminhou para a frente do quarto, se posicionou próxima da porta e iniciou a dança erótica cantando You light my fire.
Ao terminar a canção, mais fogosa, começou a cantar:

Me levou pro cantinho e disse morde/quando dei por mim pensei que sorte/disse tudo bem tudo é natural/olhou bem nos meus olhos chupou meu pau…

– Que música é essa? Uau! Tá me deixando louco!Louco!

– Nunca ouviu Ana Carolina? É dela…

Aos poucos, sua pele sedosa foi aparecendo e, ao ficar apenas de lingerie preta rendada parou de cantar. Em seguida, fazendo um aceno com a mão delicada, chamou o homem para perto de si. Ajudou-o a tirar a calça, a cueca e, numa avaliação maliciosa, encheu sua mão com o membro rígido do homem e exclamou:

– Uh-lá-lá! – Cèst si bon! Caindo num riso rouco e sensual.

– Você me deixa louco, louco! Dizendo isso, o homem a agarrou de forma animalesca beijando, sugando e agarrando-a pelos cabelos.

Ela também se mostrou excitada devolvendo o beijo de forma selvagem, molhado, faminto. Em pouco tempo, ambos se misturaram num só corpo buscando cada qual saciar a sede e a fome um do outro. Ao tirar e jogar para longe o sutiã, o homem vislumbrou dois seios belíssimos! Imediatamente pensou: nunca vi seios tão perfeitos!
Após inúmeras trocas de carícias íntimas e uma série de preliminares, a mulher, já bem úmida de excitação fez um pedido ao homem:

– Quero que você me chupe bem gostoso. Chupa?

– Que pergunta! Claro. Aliás, já ia mesmo fazer isso! – responde o homem, já não se aguentando de tanto tesão. – Vem, anda logo, não vou segurar mais. Ainda quero gozar na sua boca. Você topa? Ou tem algo contra?

– Algo contra meu bem? Sou paga para fazer tudo o que um homem deseja. Vocês é que mandam! Mas só que também tenho minhas fantasias e gostaria de realizar uma com você. Topa?

– Fala logo!

– Tá bem. Quero você assim mesmo deitado na cama. Vou me agachar e colocar minha buceta na sua boca assim. Quero que você me chupe o máximo que conseguir e, enquanto você me chupa, eu vou arcar para trás e massagear seu pau para que continue cada vez mais duro. Entendeu?

– Puta que pariu! Você é demais, mulher! Vamos nessa! Dá logo essa buceta deliciosa. Vem!

O hotel amanhece silencioso. Seus hóspedes ainda dormem profundamente.
A camareira Virgínia já iniciou sua rotina de arrumação dos quartos vagos. Circula pelo obscuro corredor. De súbito, percebe que um dos quartos tem a porta ligeiramente aberta. Pensa em passar batido, mas sua curiosidade fala mais alto. Volta alguns passos pisando suave para não despertar a atenção e se posiciona para espiar pela porta. Um silêncio absurdo impera lá dentro. Geralmente as pessoas ressonam, roncam, suspiram, peidam, mas lá, o silêncio é absoluto. Mais curiosa, põe a cabeça pra dentro do quarto e espia, e o que vê a deixa sem fôlego. Sai em dispara pelos corredores gritando e chega à recepção descabelada, pálida feito uma boneca de cera e tremendo muito.
Esfregando as mãos, passando-as pelos cabelos desgrenhados, piscando sem parar diz para João, o recepcionista do turno da madrugada:

– João de Deus! Tem um defunto lá em cima! Tá a coisa mais horrenda! Nunca vi nada igual! E dizendo isso, desaba num choro nervoso.

– Calma, Virgínia. Diz pra mim onde está. Se é que é um, né? Andou bebendo de novo, foi? Já te avisei uma vez. Para de bebericar as bebidas dos clientes. Ainda vai se complicar com isso.

– Não bebi nada, seu demente! Tô lúcida como nunca! Tem um defunto, sim. No quarto 409. Vem comigo.

E assim dizendo, subiram os dois até o quarto. João, ao verificar que Virgínia não mentia, ligou para a polícia.
Em poucos minutos uma viatura estacionou. Dois homens conferiram o número e entraram. João levou os dois para o quarto enquanto outra viatura chegava com policiais e mais um rabecão para levar o corpo.

– O que você acha, Soares?

– De cara, tenho certeza que a farra foi boa por aqui. Pena que tenha acabado mal pra esse coitado.

– Me diz uma coisa.. Como é mesmo seu nome?

– João, senhor.

– João, certo. Me diz uma coisa: esse homem chegou aqui acompanhado? Mostre os registros

– Chegou sozinho, senhor..

– Sozinho?

– Sim, eu também estranhei, mas ele disse que aguardava só mais tarde uma companhia.

– E quando essa companhia chegou? Quem era?

– Não vi, não. Pensei até que a mulher que ele esperava tivesse dado cano no coitado.

– Mas como assim? Alguém esteve aqui com ele.

– Não chegou ninguém procurando ele.

– Não chegou nenhuma mulher bonita para programa procurando outra pessoa?

– Não, senhor. Depois das nove, só entrou alguns casais que ficaram por pouco tempo ou que ainda se encontram hospedados. Sozinha não chegou ninguém mesmo.

Soares e seu parceiro trocaram olhares significativos entre si

– E barulho? Não ouviu nenhum barulho estranho durante a noite?

– Ah, barulho a gente ouve a noite toda, sabe como é, né?

– Não falo de barulhos comuns num hotel desses, mas de algum barulho diferente, que chamasse a atenção.

– Ouvi não senhor.

– Nem gritos, gemidos..

– Ah dotô! Fala sério! Grito e gemido é o que a gente mais ouve aqui. A gente nem bota reparo mais não.

– Tá certo, João, já entendi tudo. A partir de agora, esse quarto está isolado e ninguém mais entra sem autorização. Certo? Aliás, quero conversar com todos os hóspedes que se encontram aqui. Pode começar a convocar todos a começar pelos quartos desse andar. Tem alguma sala em que podemos ficar e conversar com eles?

– Tem sim senhor. Lá embaixo tem a sala da administração. Podem ficar lá. Vou avisar o gerente do hotel que chega daqui a pouco. Licença, senhor.

– Pode ir, João.

– E então? O que acha disso tudo que encontramos aqui?

– Sei lá Soares. Pode ser tanta coisa… Dá só uma olhada nisso. Veja a quantidade de porra que jorrou desse camarada. A puta devia ser boa mesmo! E olha só pra expressão de prazer que ficou tatuado nele, mesmo no post-mortem. Apesar do horror, deve ter sido a morte mais deliciosa que experimentou. E essa chupada no pescoço! Cara! Ela deve ter sugado todo o sangue do camarada enquanto fodia! E a desarrumação que existe aqui, é mais uma bagunça que remete à brincadeira sexual do que propriamente uma briga entre a vida e a morte.

– Vou já pegar os documentos do cara e passar pra central. Precisamos levantar logo o perfil dele e quem sabe descobrir algum indício, saber com quem ele se relacionava, por aí

– Certo, a perícia já está chegando. Vamos aguardar.

Na cozinha, uma jovem acaba de lavar as louças e seca demoradamente um copo de uísque. Sorri de forma enigmática. Seu pensamento parece a léguas de distância.
Ao guardar o copo, mira seu reflexo no vidro da porta e olhando mais atenta sua boca carmim, corrige com a ponta dos dedos o borrado do batom.
Vai até seu armário, abre e pega suas roupas e sua bolsa. Segue para o banheiro destinado aos funcionários, se troca, tira o batom, arruma seus cabelos num coque e pegando um terço de madrepérolas, faz uma prece.
Sai pela entrada dos funcionários de forma silenciosa e ninguém a nota. Todos estão reunidos no hall do hotel discutindo a tragédia e levantando possíveis hipóteses.
Soledad. Esse era o nome pelo qual era conhecida no hotel.
Sai à luz do dia e segue pelo beco que desemboca na avenida principal. Ao dobrar a segunda esquina, para, abre sua bolsa e retira os documentos. Pica todos eles, põe fogo e joga numa caçamba. Anda mais alguns metros e entra numa estação de metrô. Some por entre a multidão de transeuntes e leva consigo o mistério daquela morte. Ou de tantas outras.

Quem pode saber!

Esse conto faz parte do livro Ocultos Buracos lançado pela Pastelaria Studios em 2012, Portugal

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Dá samba!!
    Dá tango!!!
    Dá um livro!!!

  2. miguitarrayvos

    Muito bom!!!

  3. Obrigada!!! Volte sempre!

  4. Muito bom, Roseli!! Lembro quando “Buracos Ocultos” foi lançado, pois vi algumas postagens na web… e você não conta nada!! 🙂

  5. Meu Deus! Como demorei para infiltrar-me na tua veia sanguínea de cronista, de poeta, de escritora antes, Roseli? À hipnose contida na tua escrita não há quem seja imune, quem não se transforme e renasça.
    Muito bom tudo, esta esta morte sempre viva, este delicioso sexo fortemente presente na tua literatura. Como não olhar com olhos famintos, como não desejar, como não apalpar, atacar, devorar, saciar fome e sede, tudo simultaneamente contido… e depois desfalecer de prazer após o teu incrível GOZO MORTAL, Roseli?
    Sou teu fã!
    Abraços do Remisson

    ***
    Te deixo aqui um poema meu. Espero que goste

    O Amante

    Finda o dia e já ‘scurece…
    Horas vespertinas em que divago
    no meu leito inda sem flores.
    Estou lúcido e tu me apareces.
    Espera! que a dor não trago
    e ainda há dia em minha vida.
    Minha mente está caduca
    e vazio é o saco escrotal das minhas palavras.
    Quisera ejaculá-las todas, aos borbotões,
    em tua página vermelha e negra…
    Ah! Se não fosses infecunda!
    Transformar-te-ias com a maternidade.
    Reagirei, ó Dona Morte, Viúva Triste, Mulher Fatal!
    E incutirei em tuas veias os versos deste poema,
    marcapasso do meu coração.
    Desposaste Mallarmé, Camões, Bilac…
    Não te contentas?
    A mim, hás de ler-me vivo!
    Ninguém é totalmente insensível à Poesia.
    Assim, absorta em ouvir-me, enamorada,
    amar-te-ei ao ocaso e, antes que anoiteça,
    tendo-te aos meus pés, exausta e subjugada,
    de posse do teu segredo e em prol da Vida,
    matar-te-ei, ó Dona Morte!

    • Remisson fico encantada que meus textos tenham atingido você dessa forma. Para mim literatura é exatamente isso: mexer com nosso interior, com nossa imaginação e nos fazer viajar junto dos personagens. Que bom que você tenha pego essa viagem junto e saído satisfeito. É sinal que estou no caminho certo! Obrigada pelo belo poema. Você é um poeta de mão cheia! Isso é para poucos! Abraço

  6. Sei não, acho que já vi esse quarto em algum lugar. Beijo, Roseli.

    • Oi Gláuber, acho que nossas “meninas” gostam desse tipo de quarto. Só para título de curiosidade, lembra no curso do Nelson a minha história de uma bibliotecária serial killer? A princípio, esse conto foi o capítulo do primeiro assassinato. Quando decidi participar da coletânea Ocultos Buracos, achei que esse capítulo poderia bem representar como conto para a coletânea. Fiz algumas modificações e mandei. Bjs amigo

  7. Republicou isso em sacudindoasideiase comentado:
    Hoje posto um texto que inicialmente, foi um capítulo de um primeiro assassinato num romance que iniciei no curso de criação literária feito em 2010. Esse projeto ainda está em pé e pretendo em breve retomar e terminar. Mas acabou virando um conto e publiquei ele no livro de antologia portuguesa Buracos ocultos, da Editora Pastelaria Studios, 2012.

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