Ogun – Outras vozes

ogun1Imagem: Eduardo  Pedras

Ogun foi chamado para guerrear. Limpar o mundo antes dos seus irmãos chegarem.

Serão muitas lutas e sem tempo para encerrar.

Talvez toda uma vida.

Ou duas.

Ou até todas.

Irê, sua aldeia, fica triste, mas não desamparada.

Não querem que vá, mas sabem de sua determinação. Sua natureza.

Lamentam dançando na noite anterior à ida.

No meio dos festejos, ele pede ao filho, que será o novo Oni, que todos os seus dediquem um dia em sua homenagem. Um dia que devem jejuar, não olhar para o horizonte e manter o silêncio. Devem orar para que tenha força, para lhe dar coragem. Para nunca se esquecerem dele.

Aceita.

Aceitam.

Òrun nasce, ele grita e vai.

Nos primeiros tempos ele se torna grande, muito maior do que o baobá, e guerreia contra todos os flagelos dos homens.

Depois se torna sete e parte para todos os cantos, para cima por baixo e entre. Luta contra todas as naturezas. Abre caminhos

Sabendo o mal dos corações, se torna pequeno. Os inimigos dos irmãos caem.

Também peleja contra a sua preguiça de lutar. Alguns amigos pelos inimigos se entregam. Abre caminhos para os irmãos.

Pune, retalha e se consome. Alguns inimigos fogem enquanto ele sente falta de Oya que foi se ter com Xangô.

Dilui as trevas com suas ferramentas.

Limpa e sujam.

A luta também cansa.

Um dia pela saudade cai. Quer ir para poder voltar. Quer rever, quer dançar com os seus.

Volta.

Ogun vem mais magro. Quer estar em Iré. Quer estar em sua terra.

Chegando à primeira cabana pede água.

Ninguém o atende.

Entra e encontra todos, a família, sentada, olhando para o chão. Pede comida. Nada.

Imagina que por estar sujo.

No riacho se purifica.

Na próxima cabana encontra a mesma mudez.

Chega na aldeia.

Homens, crianças e mulheres andam devagar e cabisbaixos.

Não o reconhecem!

Acredita que não o querem ali.

Esqueceram de seu rei!

Lutou em vão pelo seu povo!

A ira sai.

Sua fúria dá força aos seus braços. Faz de sua espada, raios, trovões e ventos.

Todos os ingratos morrem. Somem. Sem falarem nada. Sem gemerem.

Na mata, cessa o desejo. Dorme.

Dia seguinte encontra os seus filhos.

Não estão alegres em vê-lo.

Contam que não puderam defender a aldeia no em dia que cumpriam o desejo de Ogun.

Ogun grita.

Sua ira vem sem pedir. Vem com o remorso. Vem contra ele.

No segundo grito enfia sua espada no chão que se abre.

Ogun entra e some.

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Muito bom! Que essa nova vertente da escrita dê muitos frutos!

  2. Plínio que beleza de história! Através de Ogun você conseguiu mostrar todos os conflitos humanos e nossa pequenez. Acompanhei a saga da humanidade em poucos minutos passando os olhos por paisagens que mexeram em meu interior. Mais uma vez você nos mostra sua maestria com as palavras. Parabéns!

  3. A lenda toda num quase-poema, e o embrião de algo maior na tua carreira. Parabéns.

  4. Ricardo Delfin

    Angústia e beleza.

  5. Que interessante, Plinio. Nova temática, nova linguagem, novos caminhos. Muito bacana.

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