Três por dois

Luiz_Eduardo_Morais

Não era possível pensar em outra coisa enquanto percorríamos a grande avenida, seus contornos uma esquálida manequim, casas e árvores plantadas nas margens retilíneas, um trânsito que só piorou com o passar dos anos. É uma das mais extensas da cidade, Avenida São José, seu nome batizando um dos times municipais, o Avenida, o estádio mirrado uma imponente referência para quem se aventurasse por aquela região, fica-perto-do-Avenida, assim se dizia e se diz até hoje.

Era sempre eu e um de meus irmãos, às vezes os dois, e as cinco quadras que separavam nossa casa da banca de revistas, sob a ótica infantil que tudo prolonga ou amplia, eram uma versão reduzida da Muralha da China, principalmente na época do verão, o calor gaúcho dando mostra do quão sofisticada pode ser a natureza ao dar troco pelos maus tratos do Homem, altas temperaturas combinada à umidade transformando cada centímetro da pele em fita pega-moscas, dessas que escrevem a rotina em botecos e armazéns de interior.

No entanto, nada nos fazia desistir – crianças são mais teimosas que representantes da Terceira Idade e, pré-adolescentes que éramos, a característica se elevava ao cubo. Era preciso vivenciar o milagre da transformação: substituir nossas velhas revistinhas em quadrinhos por HQs que jamais haviam sido tocadas por nossos olhos, o escambo uma atraente moeda em tempos de vacas magras. Afinal, não havia dinheiro para ampliar nosso vasto patrimônio de quadrinhos, construído volume a volume por meu pai antes de falecer.

Chegando à banca, não conseguíamos absorver a inundação de HQs que nos aguardava. Centenas de Almanaque do Tio Patinhas e volumes d’O Pato Donald, Cebolinha e Mônica, algumas Conan, O Bárbaro, muitas DC e Marvel Comics, poucas Luluzinha, algumas Chiclete com Banana e Geraldão – essas disputadas a tapa por nós, que a pré-adolescência é a época em que o escracho e o humor negro recrutam seus adeptos – Manuais do Zé Carioca, edições especiais d’Os Irmãos Metralha, Minie, Margarida, Peninha, Ludovico, milhares de enredos, onomatopeias e quadradinhos com a palavra fim gritando para serem escolhidas e levadas para a casa. O banquete para o cérebro reunia cores, cheiros e palavras, a diversidade enfeitiçando nossa fome de ler algo novo, a aventura que surpreenderia nossa curiosidade, um final que eliminava o lugar comum, uma piada reconstruída à la Picasso, cheia de ângulos surpreendentes.

Nessa meia hora em que nos debatíamos com questões existenciais – qual revistinha deixar, qual levar, qual tinha um maior valor para uma troca futura – a infância que ameaçava abandonar nossos corpos acionava o botão pause e quase transformava o processo em uma disputa de MMA. Ah-não-essa-eu-vi-primeiro, não-não-vou-te-devolver-quem-mandou-largar, sai-daqui-para-de-ler-o-que-eu-tô-lendo, o tom áspero obrigando o velho, dono do sebo-banca-de-revista, a intervir antes que rolasse um golpe baixo e suas HQs fossem utilizadas como arma.

Não sei como iniciou o ritual, quem-contou-para-quem-que-contou-para-quem que o paraíso se encontrava tão próximo de nossa casa. Não sei de quem foi a iniciativa de conferir se o paraíso realmente existia, se eu com minha dose nunca satisfeita de leitura, meu irmão de meio com sua busca jamais resolvida por heróis, meu irmão mais novo pelo recém-descoberto prazer de ler. Mas se deixamos de percorrer a extensa Avenida São José não foi porque nos surpreendermos com o fato do velho aumentar seu acervo na invariável mecânica de três gibis nossos por dois dele, mas pela descoberta em si, a aridez da vida adulta impregnada do levar-vantagem-capitalista desfazendo nossa infância de um modo fluído, a inocência se esvaindo sem despedidas,  três-crianças-quase-adolescentes lentamente empurradas para a realidade do que se denomina mundo, esse planeta tão cravejado de miúda ganância e discreta cobiça que nenhum roteiro de HQ consegue superar.

Imagem: Luiz Eduardo Morais

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Ai! Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida … belo texto Setúbal

  2. Setúbal que belo texto sobre o rito de passagem que todos passamos! Recordou bastante minha pré-adolescência também. Frequentei muitas bancas de gibis usados!

  3. delicia de texto Lu!! e muito bacana o blog! bjs Lu X

  4. Leandra Gonçalves

    Era bom ler gibi, né? Não sei porque as escolas eram tão resistentes, pois era um baita estímulo para leitura. Fiquei me questionando se as crianças ainda leem hoje em dia. Também lembrei da loja de gibis do seriado The Big Bang Theory onde os nerds, como crianças, disputam raridades.

    • lsetubal

      Era ótimo ler gibi. Foi minha porta de entrada para a leitura. Ainda bem que hj muitos professores, a escola em si, já trata da questão sem preconceito, né?

  5. Bela crônica que usa de melancolia e delicadeza para nos encantar.

  6. thais hohl

    Minha querida amiga… leio você em seus textos… aprendo sobre você em suas palavras, muitas vezes com tamanha melancolia… de coisas que ficaram bem para longe do que somos agora, mas sempre com o gosto doce de um pedacinho do que fomos e do que amamos… a infância nos abandona, mas sempre deixa um retalho num canto qualquer e, quando o encontramos, escrevemos ou choramos por ela.
    Um lindo texto… cheio de você.
    Beijo-te!

    • lsetubal

      Ah, Georgete, que lindo isto que escreveste! Obrigada por tua leitura, por tuas palavras, que significam muito para mim, sempre. Beijocas!

  7. Delicioso navegar nessas memórias. Bela crônica.

    • lsetubal

      Valeu, Rogério! Ao publicar, percebi que é a memória de muita gente. Muito bacana perceber que memórias que achamos muito nossas, na verdade estão conectadas. Bj!

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