Azevedo

rembrandtDezembro tinha acabado de começar e Luísa já queria saber o que ia ser depois do carnaval. Azevedo dormia de barriga para cima, com o braço da tatuagem levantado sobre a cabeça – um peixe que saía da parte interna e contornava o membro quase por inteiro. “Um peixe-serpente”, pensou Luísa, analisando o desenho desbotado. Constatou mentalmente que a figura não combinava com um contabilista. Ela gostava da ideia de um corpo marcado em definitivo. Nos outros, não nela.  Era o mesmo homem da noite anterior, só que agora nocauteado à esquerda, devido ao sucesso da técnica marcial chinesa que Luísa havia aplicado seguindo a dica nº 32 do Capítulo V de um livro para moças: Palma de Ferro para Iniciantes. Azevedo ficava mais bonito deitado daquele jeito, com o pé para fora da cama. Ele havia insistido na luz acesa, mas de repente a luz do sol entrando pela janela provocou nela certa aflição. Por que insistia em não comprar cortinas? Sentiu uma necessidade imediata de alcançar o interruptor, mas ainda não conhecia os segredos daquele colchão. Saiu então no pé de bailarina sem acordar Azevedo, mesmo com o barulho capaz de fazer os lençóis num quarto em silêncio. Ele tinha um ronco baixo que mais parecia um zumbido de inseto. Devia ser umas seis e ela nunca acordava tão cedo. Não quando dormia sozinha ou tinha intimidade suficiente com o inquilino da cama – causava depressão matinal e espirros. Foi então que uma ideia lhe ocorreu, de modo a espantar o tédio que se instalava. Contudo, logo se lembrou da recomendação da mãe: “Não faça tudo de uma vez, minha filha. Sabe como é homem…”. E por essa razão desistiu de preparar o café da manhã e voltou para a cama.

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  1. Este livro das moças deve ser bárbaro!!! Bom texto!!!

  2. Essas mães cortam o nosso barato. Ótimo conto!

  3. Maria Esther

    Queria viver num mundo onde todas as suas personagens existissem! Adorei!

  4. lsetubal

    Cortam nada, Gláuber. Homem é bem assim mesmo: primeiro sinal de mimo e fogem, acham que a gente já quer casar com eles. Tadinhos, não estão preparados para a força da gentileza. 😛 Dê, curti bastante o conto! 🙂

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