O zen e a arte de tomar chuva

umbrella - kitch

Umbrella – Imagem de: http://www.flickr.com/photos/kitch/

Não esqueça o guarda-chuva: é verão em São Paulo. Há tempos, porém, o kit de sobrevivência precisa ser um pouco mais caprichado. Pegue uma mochila. Ponha lá: bolachas, garrafa de água mineral, um livro de mais de 300 páginas, barrinha de cereal, chicletes sem açúcar, chocolate, um tocador de música e uma blusa. Sim, porque faz frio em São Paulo, 18⁰C com máximas de 25⁰C.

O kit é para o caso de você ter pego um veículo no intuito de ir de um lugar a outro. Erro primário. Se cair o temporal, por dez a quinze minutos que seja, é preciso estar preparado. A partir dali você não terá a menor ideia de quando irá chegar. Não é catastrofismo, apenas a realidade.

Com toda a minha vida vivendo na capital, aprendi que, se vai chover, no verão o fundamental é não se arriscar na rua. Vai que alaga um túnel? Vai que o trem para? Que o trânsito é tanto que se levará mais de uma hora e meia para percorrer um trecho que normalmente não lhe toma dez minutos?

Chorar, protestar ou ir a pé não são exatamente opções. A cidade de São Paulo no verão exige uma atitude zen, aceite a situação. Não tente buscar alternativas: lá também estará tudo parado. Mesmo o metrô – que falhará nem que seja por solidariedade aos demais meios de transporte. Não sei quem é a aranha, mas São Paulo é uma teia nessas horas. Se for o caso, vá assim que possível para um lugar não alagável. Respire fundo, veja o engarrafamento, o trem parado, a enxurrada, o compromisso perdido e inspire. Expire. Preste atenção no próprio ritmo de entrada e saída do ar. Visualize o seu corpo em um ambiente agradável. Longe dessa confusão.

Se lhe ocorrer pensamentos sobre por que os bueiros estão entupidos, por que o rio transbordou novamente, por que os piscinões e outras medidas nunca estão prontos ou são suficientes, aceite. Não lute contra eles. Assim, ignorados, eles vão embora como vieram. É o que os políticos fazem e veja como eles estão sempre muito tranquilos consigo mesmos.

Abra os olhos. Sintonize na rádio de notícias. Nada ainda? Ligue e avise a família. Abra o pacote de bolachas e o livro. Uma hora vai dar pra voltar pra casa.

 

Aline Viana

 

Crônica originalmente publicada em: http://vidasetechaves.wordpress.com/

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Maravilha! Viver em Sampa é bem isso!

  2. Bem sacado! Gosto do humor e da ironia do texto.

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