Memória de Menina III

Foto: Jody Frost

Foto: Jody Frost

O meu fetiche por motéis de quinta começou com um universitário. O rapaz fazia estágio na empresa que eu trabalhava. Fomos apresentados e ele já chegou me devorando com os seus enormes olhos castanhos. Moleque abusado, com o passar dos dias fui dando corda pra ver até onde ele ia: acabamos numa cama fedida, cheia de pulgas.

Horário do almoço. O rapaz não tinha carro nem ainda sabia dirigir. Disse que conhecia um hotel ali por perto. A gente não vai se atrasar. Quando percebi estávamos indo em direção da Boca do Lixo.

Sem deixar dúvidas, o H do hotel era daqueles que mais parecem um M.
Acostumada ser levada para motéis de luxo, hotéis cinco estrelas, nunca me imaginei num lugar daqueles. Mas aceitei o desafio. Sobrado antigo, entramos pela porta lateral indicada na placa. Os degraus da escada eram de madeira. Os meus saltos me anunciavam a cada passo sobre o carpete vermelho. Quase desisti quando um casal, descendo, passou entre nós deixando o forte cheiro de álcool e cigarro.

Cheia de rachaduras na parede, chegamos à recepção. O homem, atrás do balcão, me examinou, depois mediu o garoto. Ficamos em silêncio. Os três.
O moleque olhou para mim.

– Pergunta como é o esquema aqui, sussurrei.
– Como é o esquema?
– Esquema?
– É, como funciona o esquema aqui?
– Não entendi.
– A gente precisa de um quarto, eu entrei na conversa.
– Por quanto tempo?
– Uma hora.
– São vinte reais com chuveiro, quinze sem.

Corredor longo e empoeirado. Quanto mais eu via aqueles horrores mais me excitava. Número nove. Será que esse quarto é o mesmo usado pelo casal que descia as escadas? Não era. Ao abrir a porta uma barata correu para debaixo da cama. Espirrei. Não havia cheiro de cachaça nem de cigarro paraguaio. Cheirava a mofo. Conferi o lençol branco encardido. Ao menos úmido não estava. O rapaz me agarrou por trás, passando as mãos pelo meu corpo, beijava meu pescoço, me apertava, gemia. Eu acompanhava a outra barata entrar no improvável banheiro. Um frio na barriga. Lembrei ter ouvido que a cada barata que vemos existem outras dezenas por perto. Ai! Enquanto assistia a lagartixa na parede, à espreita do pernilongo, o garoto tirou minha saia, sapatos, me deixando sem calcinha. Uuui! Do forro do teto dava para ouvir os ratos caminhando. Às vezes corriam e o forro tremia. Ele arrancou minha blusa, sutiã, se fartando como um bêbe desmamado. A barata, que tinha ido ao banheiro, retornou. Deitei de costas na cama. O moleque, com um sorriso de satisfação, ficou me olhando esparramada à sua espera. Disse que eu era linda, deliciosa… Dessa vez me gelou a espinha. Mas antes dele, as pulgas pularam em mim, enfiando sem dó as suas garras.
Depois descemos. Já estávamos atrasados. Entramos no boteco mais próximo para almoçar. E, pela qualidade, devia ser do mesmo dono do hotel.

Passei todo o resto da tarde, no trabalho, coçando, mas foi uma das melhores comidas que eu experimentei.

 

Leia também: Memória de Menina I
Leia também: Memória de Menina II

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Pingback: Memória de Menina I | Coletivo Claraboia

  2. “A barata, que tinha ido ao banheiro, retornou.”
    E o bom-humor baiano que nunca falta… 😀

  3. Muito bom,playboy!!!! Parabéns!!!

  4. Que aventura! Gláuber sua escrita está cada dia melhor, Entrei na história junto! Aguardo as próximas aventuras da menina!

  5. Está cada vez melhor!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Adorei!!!!!!

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