Nuptiae

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De frente àquele calhamaço de papéis mantive-me estática.
O burburinho gostoso de vozes falando sem parar, risinhos nervosos, gargalhadas da tia Izilda, o cão Lalinho implicando com o gato Orfeu. Essa é a cena daquela manhã.
– Catarina! Pelo amor de Deus! Você ainda está assim? Vai se atrasar muito! O maquiador já está lá embaixo e tem hora para tudo! Pare de brincar que hoje o dia é sério!
– Mãe! Você não está entendendo! Hoje é meu casamento! O dia mais feliz de minha vida! É claro que estou rindo de bobeira achando a vida linda! Você não ficou assim no seu não?
– No meu tempo tudo era diferente menina. Casamento é coisa séria. Mesmo que vocês jovens de hoje achem tudo um barato. Uma brincadeira de gente grande. Hoje vocês acham o casamento uma puta festa onde irão reunir amigos, parentes, muita música, dança, bebida e depois VRUMM! Rumo a Lua de Mel! Que bem sei, já fizeram muito antes desse casamento não?
-Ah mãe! Desestressa senão cai dura em plena cerimônia! Fique feliz, pois sua filha está feliz! Pode ser? Pelo menos por hoje, pode baixar sua guarda e ficar mais leve? Está tudo sob controle: bufê, igreja, salão, passagens. Tudo sob controle mãe! Faça como o pai, vá curtir junto às cunhadas, pega um uísque e bebe um pouco pra relaxar.
– Você é quem sabe. Depois, se alguma coisa não der certo não me venha pedir socorro. – e falando isso por entre os dentes cerrados, saiu do quarto pisando duro. Ploc! Ploc! Ploc! No assoalho do corredor.
Virando para suas primas que seriam damas de honra disse:
– Ai! A mãe não relaxa nunca! Chega a dar nos nervos da gente! Meninas se preparem que os maquiadores vão subir e nos transformar em verdadeiras princesas!
As horas transcorreram animadas. Os maquiadores Celsinho e Marquito eram duas figuras do bem. Sempre fazendo piadas e transformando o ambiente numa enorme festa.
Já vestidas e maquiadas, desceram e seguiram numa animada comitiva.
À porta da Igreja, já toda decorada para o casamento com copos de leite fez, pela primeira vez, Catarina ficar de pernas bambas. Sua respiração por um breve instante cessou. Seus olhos repassaram todo o ambiente. Viu a igreja lotada de convidados ansiosos para verem a noiva entrar.
Com o início da marcha nupcial de Mendelssohn, percorri o enorme corredor que me separava de você que já se encontrava no altar. Lindo, irradiando felicidade em se casar. Ao lado dos padrinhos todos muito elegantes e de meus pais e os seus a postos.
Consegui chegar até você.
Elegantemente vestido num fraque cinza perolado, você estava a elegância em pessoa. Seus olhos azuis estavam escuros e brilhavam como nunca tinha visto. Ao pegar minha mão, senti as sua gelada. Assim como a minha.
Sorrimos de forma cúmplice.
A cerimônia seguiu conforme era previsto e ao término, o famoso beijo.
O mundo podia parar ali.
Que beijo profundo, doce e intenso você me deu!
Fez meu coração disparar e a adrenalina percorrer todo meu corpo. De novo, minhas pernas bambearam e cheguei por um instante a pender para os lados. Mas você me amparou em seus fortes braços e me aprisionou contra seu corpo.
Todo mundo riu inclusive o padre que nos dispensou abençoando o casal.
No salão, me sentia uma personagem de filmes hollywoodiano. Tudo estava perfeito. Até mamãe, sempre tensa, estava sorrindo para todos. Rejuvenesceu.
Após o retorno de nossa lua de mel, voltamos cheios de energia, muita disposição para a nova vida que se descortinava.
De minha parte, estava muito empolgada com nosso apartamento que tinha ficado lindo. Tudo novinho e com a nossa identidade.

Nos primeiros tempos era só alegria, dormir e acordar agarradinhos. Preparar nosso café da manhã com capricho. Observar seu suave ronronar enquanto dormia, sua boca levemente relaxada deixando a mostra a ponta de sua língua.

Dava-me vontade de beijá-lo.
Em um ano de casados tínhamos engordado quase vinte quilos. Você achava engraçado olhar no espelho e ver sua pança estufada, sua cara de bolacha. Tirava sarro de mim ao me ver nua. Apontava minhas inúmeras dobras e uma infinidade de furinhos em minha bunda e culote.
Eu ficava puta!
Pouco a pouco, olhar-me no espelho transformou-se numa tortura! E você não tinha a sensibilidade de observar o quanto suas piadinhas eram de mau gosto e ofensivas.
Nenhuma mulher gosta de ser chamada de gorda!
Em dois anos de casados, tinha engordado quase trinta quilos. Tive de mudar todo o meu vestuário, pois nada mais me servia. Cadê aquele corpinho de cinqüenta quilos bem distribuídos?
Mudei.
De garota bem humorada e de bem com a vida passei a ser uma mulher amarga comigo mesma e com o mundo.
Meu marido também engordou mais. Se assemelha a um porco próximo do abate. Gordo, rosado e sempre, sempre sorridente com aqueles olhinhos azuis atentos ao mínimo deslize meu.
A frase que ele mais ama me dizer e a que mais me deixa emputecida:
– Ai Gorda! Você é demais mesmo! Te amo! Só você pra me fazer rir assim até quase mijar inteiro! – E, falando isso, tasca um beijo lambuzado de gordura de seu hambúrguer nojento que tanto ama!
Tenho vontade de vomitar! Será que ele não tem semancol não?
E quando fazemos amor então? Amor! Coisa mais bizarra se tornou.
Parecemos dois lutadores de sumô ao invés de um casal fazendo amor! Olhe só que desgraça, até rimou!
Hoje, tenho paúra de entrar no “apertamento”. Sim! Pois para acomodar dois porcos feito nós, o espaço está diminuto e pequeno demais para eu suportar sua presença e seu cheiro azedo.
Por outro lado, quantas vezes estou na cozinha fazendo algo e você deseja entrar para reabastecer seu infinito universo estomacal e fica roçando sua bunda gorda na minha e fungando mexendo esse nariz cheio de pelos. Arrê! Causa-me nojo!

E você, é claro, sempre sarrista, aperta minha bunda e diz: Dá pra liberar o contêiner e jogar esse saco de gordura pra lá? E dizendo isso, cai numa risada hilária de algo que só você mesmo pra achar graça.
Ultimamente acordo, passo o café, tomo rapidamente um copo para despertar e saio de casa com a desculpa que vou pegar um trânsito e me atrasar no trabalho. Você reclama, mas depois sempre fala que é preferível tomar o seu café da manhã no boteco do Nelson, pois além de ter gostosuras, lá pelo menos começa bem o dia dando boas risadas.
Há seis meses comecei a dormir no quarto de hóspedes. Não suporto mais ouvir o som de turbinas que você faz a noite toda. Fora o fato de ficar mastigando, gemendo e rindo a noite inteira. Além é claro, de agüentar seus inúmeros peidos fedorentos. É demais para mim!
Você de início ficou uma fera comigo. Xingou até a décima geração. Disse que cheiro a queijo estragado e que também ronco e peido à noite. Logo, é chumbo trocado. Jogou na minha cara que nunca mais me beijou na boca por não agüentar meu hálito de peixe estragado.
O filho da puta teve coragem de dizer isso na minha cara rindo feito uma hiena desequilibrada!

Ai que ódio!!!
– Oh senhora Catarina, a severa, dá pra assinar essa porra de documento logo? Encheu o saco pra gente se separar agora fica nessa de divagar diante do documento! Que merda!
– Senhor! Está diante de um juiz e num ambiente de muito respeito! Queira se desculpar e calar sua boca. Caso contrário ponho o senhor pra fora!
– Humm foi mal senhor juiz, mas vamos combinar que essa mulher me tira do sério até mesmo calada né?
– Senhora Catarina, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
– Não meritíssimo. Apenas fazia um balanço rápido de minha vida conjugal.

– Onde é mesmo para assinar?

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Vitor

    Bacana! Muito legal, Roseli.
    Um texto que parte de um contraponto muito interessante. Gostei muito 🙂

    • Oi Vitor! Obrigada pela visita e comentário. Fico muito contente em saber que o texto agradou. Apareça sempre por aqui pois toda semana estamos com textos novos no ar.

  2. Roseli, a gente não sabe se é pra rir ou chorar, mas no fim acaba lamentando por onde a vida foi pra esse casal. Tão comum hoje em dia, falta de autoestima… comum demais!
    Maravilhoso texto, perfeito, do começo ao fim!

    • Oi Clara! Que bom te ver por aqui! Você disse tudo! Infelizmente grande maioria dos casais acabam assim.Que bom que gostou. Aproveita pra conhecer os outros textos dos colegas. Vai encontrar preciosidades!

  3. É isso aí, Roseli. A vida às vezes(?) não é mesmo um conto de fadas.

  4. Marcia

    Oi Roseli!

    O texto nos passa algumas verdades, mas, no casamento é primordial aguentar os altos e baixos, o respeito, a tolerância e o amor nunca devem deixar de existir para os casados. Pena que algumas muitas vezes, isso não acontece.

    Quem sabe, logo, logo, não sai um livro?

    Super orgulho de você… Beijo no coração!

    • Obrigada Marcia! Olha, já estou com um bocado de texto pronto e outros tantos por terminar. Acho que acabo saindo da zona de conforto e me atiro na aventura de lançar um livro sim! Obrigada pelas palavras de incentivo. Bjs

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