Doze balas e um torpedo

Fotografia de Lennita

Fotografia de Lennita


Um cano de revolver está apontado em minha direção, a poucos centrímetros do meu corpo; uma arma carregada, seis balas ameaçam me atravessar a qualquer movimento em falso; meus bolsos já descarregados de carteira, cartões, celular e chave do carro. Fui abordado no semáforo, dois bandidos entraram em meu carro, um deles está com meu cartão dentro da agência bancária. Se a senha não bater, se ele for preso, se demorar, se der qualquer merda, o outro, que ficou comigo dentro do carro, estacionado a poucos metros da entrada da agência, atira em mim.
Minha estratégia — e única esperança de sair dessa logo e com vida — é a cooperação absoluta. Fiz tudo o que me pediram, respondi ao que me perguntaram, entreguei o que tinha comigo, nos bolsos ou na memória. Agora espero. Se soubesse, rezaria, mas não sei mais… Apenas espero a próxima ordem, que, espero, seja “desce do carro”, “vai embora”, as palavras não importam, desde que a porta se abra e eu possa sair e me afastar e me esconder e…
Mas o inesperado nos assalta. O silêncio é rasgado por um sinal sonoro, que logo reconheço. O bandido me pergunta:
— Que é isso?
— Um torpedo, uma mensagem no meu celular — respondo, levando ao mão à boca.
O bandido lê a mensagem, depois me mostra e fica me encarando, como se esperasse explicações.
— É do banco, avisa que o saque já foi efetuado.
— Oitocentos reais?
— É.
Retornamos ao silêncio e eu, à imobilidade.
Finalmente, o outro bandido sai da agência, e se aproxima do carro. Será que vão me deixar aqui mesmo? Seria o ideal, uma rua movimentada, o risco de dispararem é pequeno. Ele abre a porta do carro e o outro pergunta:
— Conseguiu sacar?
— Ahã.
— Quanto ele tinha?
— Quinhentos reais.
Hein? Quase deixei escapar, quase quebrei minha regra vital auto imposta de só responder ao que me fosse perguntado. Que merda. O cara está enganando o comparsa, e foi descoberto. Se eles resolvem acertar as contas… Ladrão que rouba ladrão. Se fosse confiável, não estava roubando. Agora estou aqui, desarmado entre dois ladrões, doze balas e o torpedo da discórdia. Desvio o olhar para não provocar qualquer reação.
— Beleza.
Beleza? Quase falo outra vez. Como assim? Não entendo.
— Bora, toca esse carro.
O bandido que apontava para mim liga e carro e saímos devagar. Vai deixar barato? Ou quer pegar o outro de surpresa? Quando? Agora que está dirigindo, fica difícil. Ele estava com a arma na mão e não atirou, talvez pelo mesmo motivo pelo qual não atirou em mim: a rua movimentada, policiais na redondeza. E ainda teria que se livrar de mim também. Balearia primeiro o comparsa, claro, que está armado, depois seria minha vez. Na hora da partilha? Se não me soltarem antes desse duelo, não tenho chance de sair vivo. Escolho um lado? Se eu tomar partido do vencedor, quem sabe sou liberado depois. Rompo o silêncio, conto o que aconteceu e antecipo o conflito? O cara que entrou no banco está com a arma na mão, o outro dirige. A vida entre palavras ou silêncio, decidida dentro da boca. Falo ou me calo? Arriscado demais. Continuo calado, busco proteção abraçando silêncio e inação. Poucos minutos depois, encostam o carro e o bandido aponta para mim:
— Cai fora, playboy. Vaza.
Desci sem olhar para trás, mas ainda ouvi o motorista falando ao outro:
— Amanhã você fica no carro e eu pego o dinheiro.

Anúncios

Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. Boa .. playboy .. muito boa …

  2. Acontecimentos bizarros acontecem sempre na vida real e na ficção. Ótima história!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: