Exorkismós

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O lamento aos poucos bateu em meus ouvidos. Desconversei a audição e foquei na TV. Como o pub da esquina transforma a rua em caudaloso rio de bêbados assim que a madrugada se instala, me convenci de que devia ser ”mais um cachaceiro saindo do bar e singrando para casa”. No entanto, o lamento persistia, agora em tom primitivo. A curiosidade venceu a preguiça e discretamente me intrometi na sacada.

No início parecia a tentativa de apaziguar uma briga. Dois rapazes, braços e pernas de um aprisionando braços e pernas do outro, que estava deitado na calçada. A dupla sofria intervenções de três meninas de origem nipônica, 18, 20 anos, em pijamas, o que contribuía para a atmosfera onírica que se configurava.

O impacto da cena mística me aprisiona. Mesmo tendo um cemitério como vizinho durante boa parte da minha vida, e a adolescência guiada por livros de Stephen King, HQs de Conan, o Bárbaro, filmes de Simbad, o Marujo – narrativas embaladas, laço e fita bem vistosos, com aqueles mistérios entre o céu e a terra sugeridos por Shakespeare – era a primeira vez que me via na condição de voyeur de uma sessão de exorcismo.

O aprisionado, desnudo da cintura para cima no frio antártico que visitava São Paulo, costurava uma coleção de impropérios. O acento gutural de cada palavrão remetia aos vídeos do Youtube que retratam a possessão de corpos pelo demônio: sim, não era uma briga, era o chifrudo que dirigia a ação. Enquanto isso, o pseudoexorcista enxotava a figura do mal que habitava o corpo do amigo. Cuspe, tapas na cara, ameaças verbais, tudo era usado para desentocar o coisa ruim, que respondia com urros seculares.

As meninas esbaforiam-se, uma delas volta e meia corria até a esquina e desaparecia rua abaixo, retornando em seguida. Talvez quisesse buscar o socorro tradicional, bombeiro, polícia, ambulância, e desistisse no meio do caminho – afinal, quem acreditaria no sobrenatural quando ele está apenas do outro lado da linha, e não olho no olho vermelho sanguinolento? As outras duas japas esquizofrenavam ao redor dos corpos que mediam força entre si, ora mãos na cabeça, ora pedindo que o exorcista maneirasse nos métodos utilizados para extrair o mal. Certamente não esperavam o ocorrido, os pijamas denunciando uma possível xícara de leite com Nescau congelando na pia ou cobertor de franjas dormindo sozinho no sofá, as pernas aquecidas enquanto se assistia a um filme agora um momento congelado no passado, programação deixada de lado com as excentricidades da vida.

Eu acompanhava o embate na meia luz da sacada. Sentia-me nessas peças de teatro cuja plateia, em determinado momento, é convidada a se juntar à trama. Confesso que às vezes me passava uma vontade de me juntar ao acontecido, mas muito mais no papel de vizinha incomodada com o volume dos embates do que empossada na condição de assistente de desentoca-demônio. Nesses momentos eu acorrentava minha vontade, e me curvava à observação que em nada colabora, mas tudo registra e sente.

Já havia passado mais de meia hora de súplicas e luta corporal quando desisti de acompanhar os acontecimentos. Mesmo uma sessão dessa natureza se torna enfadonha quando não assistimos cenas à la O Exorcista, com cabeças girando sobre pescoço e jorros de vômito verde. Voltei para a TV, os gritos abafados pelas portas de vidro e cortinas agora fechadas, o mundo externo um milagre do qual eu não queria mais tomar parte.

O sono já embalava meus movimentos, a cama ancorando o onírico real, este que me pertencia, quando escutei a trupe deslocando-se em direção à esquina. Já era quase três da manhã. O empossado ainda entoava sons animais, mas o cansaço parecia roubar as funções do demônio e encarregava-se de dominar seu físico, a voz pastosa denunciando o esgotamento do corpo.

Num último lampejo de consciência, antes de navegar rumo ao inconsciente do sono, me dei conta de que não havia presenciado um simples exorcismo, havia mais. Havia o inusitado destes momentos com que a realidade nos atinge, vez ou outra, e que geralmente aprendemos a delegar à ficção. Havia o prazer do momento compartilhado, ainda que às escondidas, um retorno à infância de olhares furtivos através da fechadura. Havia a certeza de que o sobrenatural, essa joia de valor minimizado e raramente desejada, não se restringe a círculos determinados ou experientes iniciados, mas sobrevive, calada, viscosa e paciente dentro de cada cada um de nós, réptil milenar cujo exorcismo algum é suficiente para nos proteger e salvar.

Imagem: Jack of Nothing

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Olhei o corpo no chão / E fechei / Minha janela / De frente pro crime…
    Muito bom!!
    Belo Texto!!!

  2. Uau! Arrepiantemente delicioso Lú! Como adoro o sobrenatural, você me fisgou do princípio ao fim. Parabéns!

  3. segmund

    Lulú, tens uma narrativa que faz me lembrar de um certo Edgar Allan poe… Parabéns!

  4. Kleber

    Uauuu muito legal! Parabéns pelo texto e pelas palavras!

  5. miriamguerra1

    Muito bom, Setubal. Impossível parar de ler. Beijos e sucesso sempre. Saudade.

  6. daniel fagundes garcia

    Lu, quero mais……. e urgente…. adorei. Do começo ao fim.

  7. Yaskara

    Texto primoroso. Detalhes que fazem a diferença, enfeite não precisa. Parabéns, Lu! Sou tua fã! Bjs

  8. que bom que sobrevive também o talento! ave Setúbal!

  9. Adorei o clima do conto. E a temática tão diferente dos outros textos. Muito bom.

  10. Sétubal.. por momentos imaginei as cenas deste conto, a sutileza na descrição leva o leitor e envolver-se demasiadamente até o final….adorei..!! bj

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