A Maldição do Ite

Agata (rainha em seu trono) de Kwork Hung Lau

Agata (rainha em seu trono) de Kwork Hung Lau

Nasceu miúda, respiração fraca e no primeiro dia de UTI pré-natal foi tomada por uma violenta bronquite. Antibióticos, antitérmicos, vasodilatadores não adiantavam e logo foi agraciada pela rinite, dia seguinte veio a otite, coitada deu até sinusite.

A mãe, de uma ironia ácida, aumentou a coleção.

— Fraquinha do jeito que é, não nasceu pro trabalho. Vai se chamar Delzuite e será puta de estrada como eu.

Mal completara cinco anos e já tinha um histórico invejável a qualquer hipocondríaco. Foram três conjuntivites, laringite, amigdalite, hepatite, não podia brincar de roda que vinha a labirintite, sem contar a imensa falta de apetite. A mãe estava tranquila contando com o batente da filha.

— Mais dez anos e eu mando ela pra estrada. Pegando o jeito eu me aposento.

Aos dez veio a salvação, poliomielite.

— Quem vai pagar por uma aleijada? — dizia a mãe inconformada. — Eu só sustento até os quinze. Ela que se vire. Vô botá essa mardita na escola porque agora só estudando mêmo pra virá arguma coisa. Braço ela ainda tem e deve servi pra secretária.

O primeiro dia na escola foi uma festa. Ela nunca havia ficado tanto tempo com outras crianças, ainda mais com outras cadeirantes.

Dois meses de aula e a garotinha começou a apresentar febre muito alta, pescoço duro e a mãe, acostumada com aquela incubadora de doenças, deu antitérmico e mandava pra escola até que a menina desmaiou no café da manhã e foi levada as pressas para o pronto socorro.

— Dona Judite, sua filha está com meningite e pode apresentar algumas sequelas pela demora no atendimento.

— Mentira dotô! Ela vai ficar abobalhada que nem meu irmão mais velho?

— Com uma certa dificuldade de aprendizado, perda de audição e alguns outros possíveis problemas.

Quatorze anos e Delzuite ainda estava na primeira série. Nada de aprender a ler e escrever. A mãe inconformada ligava pra avó e dizia que mandaria a menina pra Amazônia pra ser cuidada pelos índios.

— Só sustento por mais um ano e você que se vire com ela. Tenho que ir pra estrada.

Judite tirou Delzuite da escola e deixava a menina prostrada na cadeira o dia todo. Logo veio O MILAGRE. Uma dolorida artrite e o médico recomendou um quilo de argila por dia para que ao menos ela não perdesse o movimento das mãos. A mãe enfurecida correu para a estrada, pegou um balde de barro e tacou no colo da filha.

— Se vira. Fica mexendo o dia todo nisso que a dor passa. O médico que mando.

Quando completou quinze anos, Delzuite teve uma festa de princesa. Judite continuava na estrada, mas correndo as capitais vendendo as esculturas da filha. Delzuite tirou a mãe da vida esculpindo a própria vida.

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Sobre Fernando SanPrieto

Fernando SanPrieto nasceu em 1974, em Catanduva (SP). Estudante por vocação, é graduado em Artes Plásticas e Design, pós-graduado em Ensino de Artes, ator recém formado e PhD em não usar nada disso. Impaciente, lê mais de um livro de cada vez e sempre mistura as histórias.

  1. Fernando que texto mais…mais…mais Tudo!!!! Fui me deleitando com as aventuras e desventuras da pobre Delzuite. Está vendo só como Deus escreve certo por linhas tortas? Parabéns pelo lindo texto!

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