Almina

 

Crédito: blog Around me. Not About me. (http://www.blogigo.de/Broken_Soul)

Crédito: blog Around me. Not About me. (http://www.blogigo.de/Broken_Soul)

Da escola até sua casa, Almina gastava em média 15 minutos em seu passo vagaroso de adolescente, despreocupado com o passar do tempo, época em que o decorrer de horas, minutos e segundo é apenas algo que diz respeito aos horários das obrigações e aos ponteiros do relógio. Almina era uma adolescente normal, diferente e igual como toda menina da sua idade, o desengonço e a vontade que o corpo tem de crescer, despontar em dores e regras, mudar numa velocidade impressionante. Os peitinhos avolumados pediam camisetas mais largas, absorventes começavam a figurar na mochila rosa, junto com cadernos floridos e canetas multicores, espinhas e pelos e amores. Almina sentia falta desses últimos, algo que nunca havia tido, um amor. Havia pretendentes que ela rechaçava sem o mínimo dó, não queria qualquer amor, esperava o prometido visto e revisto nas novelas e nos romances agridoces que roubava do armário da mãe e lia às escondidas.

Chegou em casa, num dia normal, abriu o portão verde de ferro e atravessou o jardim queimado pelo sol forte, folhas murchas, amareladas e amarronzadas, tristes. Limpou as sandálias no capacho, três raspadas rituais e vigorosas para trás, pegou na maçaneta e a sentiu fria antes de abrir a porta. O cheiro de frango com polenta rodeava a casa e outros cheiros de almoço perfumavam toda a vizinhança. Deixou a mochila no sofá da sala, a tevê estava ligada solitária e, olhando ao redor, viu as palavras-cruzadas da mãe sobre a poltrona. Sem pensar, seguiu para a cozinha seduzida pelo cheiro da comidinha fresca que lhe esperava sobre o fogão. Sabia que essa era a hora do cochilo da mãe, então entrou quietinha, tomou um copo d’água da moringa, o gosto de barro que tanto lhe agradava, fez seu prato com o alimento ainda fumegando e pensou no que faria naquela tarde quente.

            — Mãe?

Entrou no quarto devagar, era o costume. Acordava sua mãe com um beijo, iam juntas para a sala e Almina contava como tinha sido a escola. A mãe ponderava, dava conselhos e ria lembrando-se de sua infância. Todos os dias as duas, sem um pai para chegar de noitinha, se meter ou ignorar a situação. Almina não tinha pai, não sabia quem era e se sentia diferente. Era diferente.

            — Mãe?

Colocou a mão no rosto da mãe. Fria. Deitada de lado. Seu peito de pardal não se movia e ela chegou bem perto. Colou o rosto na boca de sua mãe e nada sentiu. Aquele soprinho tão leve que por muitas vezes sentiu, hálito morno do qual desfrutara tantas vezes antes de acordá-la. Nada. Tocou o corpo frio, empurrando com as pontas dos dedos, o choro já vinha embrulhando o estômago, não entendia por que se sentia assim, o grito contido com as mãos na boca. A tarde agora era morna e os meninos brincavam na rua, sem a algazarra de sempre, como em respeito à finada sem saber que se finara. Almina não conseguia pensar em muita coisa, não sabia o que fazer. Se tivesse um pai, se ao menos tivesse um pai. Sabia que talvez um dia isso acontecesse, tantas vezes já imaginara a solidão, porém não tão cedo.

Almina virou o corpo inerte, estendendo seus braços e pernas pálidos. Ela estava com uma camiseta velha de político e uma saia jeans surrada. Não poderia deixá-la assim, vaidosa do jeito que era. Tirou a roupa e a nudez mortiça primeiro constrangeu a menina, seu rosto corou em ver pelos grossos entre as pernas magras, os seios pequenos e flácidos. Veias azuladas corriam pelos braços, aquela pele quase transparente. Sua mãe odiava sol. Olhá-la não lhe dava arrepios. Tirou a própria roupa e comparou os corpos, seus pelinhos ainda incipientes, as pernas magras e joelhos pontudos, os braços compridos e finos, as veias. Olhava para a morta e para o seu corpo e se adivinhava, se entrevia nos fios brancos e pretos espalhados sobre a cama. Vestiu-se devagar, abriu o armário e um choro convulso subiu furioso, lançando seu corpo para frente, vendo vestidos coloridos, algumas toalhas empilhadas no canto. Respirou fundo, ainda trêmula empurrava devagar os cabides e pensava com que roupa ela gostaria de estar nessa hora. Um vestido azul escuro que havia usado numa festa da escola, um macacão florido daquela vez que foram ao parque de diversões e riram tanto que voltaram para casa com dor de barriga.

Então pegou uma calcinha nova, um vestido lilás. Lutou para encaixar braços e pernas pesados, sem vida. Fazia tudo bem devagar, pois talvez fosse o último contato com sua velha, como dizia, sua velha que agora não estava mais ali, mas ao mesmo tempo estava. As carnes endureciam e se azulavam, a pele parecia borracha. Olhava para ela, seu rosto dormido, olhos fechados e boca entreaberta, é provável que não tenha sofrido nadinha, como se alguém tivesse apertado o botão de desligar, simples assim. Os olhos da menina se enchiam com as lembranças de pequenas felicidades, enxugava depressa para não deixar de fitar sua velha. Lágrimas atrapalham, pensou, não quero chorar. Penteando seu cabelo com a cabeça defunta no colo, cantou a música que ela sempre ouvia quando a mãe lhe fazia tranças antes de ir à escola.

— Índia seus cabelos nos ombros caídos…

A tarde já definhava por entre os babados das cortinas e ela havia cumprido sua missão. Vestira a mãe com dificuldade, porém com esmero. Você está linda, mãe. Mais linda que nunca. Pensou naquela tarde, naquele dia que seria mais um. E que não era mais um. Tocou mais uma vez no rosto da senhora, já sem cor, lábios brancos no qual ela passou um batom bem claro, discreto, como era sua mãe. Não entendia da morte, mas estava com ela bem ali à sua frente. E precisava seguir adiante.

— Alô, tia Inês. É Almina…

Petê Rissatti nasceu no propício Dia Nacional do Livro. Tradutor, escritor, preparador de textos e parecerista, atua na área editorial desde 2000. Tem como clientes grandes editoras brasileiras e agências de tradução nacionais e internacionais. Participou das antologias “Blablablogue – Crônicas e Confissões” e “Todos os portais: realidades expandidas”, organizadas por Nelson de Oliveira, e “Assim você me mata”, organizada por Claudio Brites (Terracota Editora). Em 2012, lançou seu primeiro romance, “Réquiem: sonhos proibidos”. Saiba mais em http://www.peterissatti.com.br

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  1. Emocionei-me com sua história. O inevitável da vida tratado com delicadeza, com assombro, com olhar de plenitude.

  2. E uma pontada de dor nasce no peito…
    Linda história!

  3. Petê que singela e profunda história! Personagem bela, humana, lírica! Sua forma de tocar um assunto tão ácido e dolorido para muitas pessoas nos faz sorrir ao término da história. Fiquei encantada! Parabéns!

  4. Aline Viana

    Lindo, texto, Petê! Adorei as imagens, o texto todo ritmado e essa dor pungente e singela que obriga a menina a sair-se como adulta de uma hora para outra.

  5. Muito bom!!! Bom mesmo!!!

  6. Clarice Martins de Souza

    Sensível! Inesperado para uma adolescente. Reação inesperada também! É o que ficou: Inesperado.

  7. Ritmo, poesia e encantamento nessa história de despedidas. Delicia de ler.

  8. Muito bom. Parabéns.

  9. Grande Petê, em belíssima contribuição ao Coletivo.

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