O Show Deve Continuar

Rock of Ages

Rock of Ages

Love of my life. Após o último bis, a banda deixou o palco. Boa parte da platéia ficou com a esperança que retornassem, mas acabou mesmo. As luzes se acenderam. Chovia muito.

Ele permaneceu ali, a  poucos metros do gigantesco palco, como o último dos highlanders. Encharcado. Queria continuar envolvido no clima dos anos oitenta. Now I´m here. Talvez procurasse, entre as caixas de som, uma fenda mágica que o levasse de volta aos melhores anos de sua vida.

Alice. “Por onde anda Alice? Nós nos cantávamos I was born to love you. Tão magrinha. Será que ela engordou? Casou? Tem filhos?”

Marcinho, João, Pedro. Faltaram os amigos. Friends will be friends. A camisa de mangas compridas de flanela, a calça Fiorucci e o All Star Converse de cano alto.

Debaixo da marquise ele pôde acender outro cigarro. Muitas horas em pé, suas pernas, anestesiadas, nem mais doíam. Bastava se movimentar devagar. Quase um zumbi. A fome tocou alto. Precisava de uns três cachorros quentes para aliviar a larica. “Meu celular se afogou.” Escorria água do celular caro. Onde gravou todo o show para mostrar para a esposa e exibir no face.

Até aquele momento tudo valeu a pena. We are the champions. Os cem reais pagos pro flanelinha olhar o carro. Os mil investidos para ficar num dos melhores setores do afastado estádio sem cobertura. O perdido dado no patrão após o almoço. As horas na fila à espera da abertura dos portões, além das três de atraso para o início do show. Nada importava. We will rock you. Trilha sonora de gerações. A banda que marcou a sua juventude, enfim, ele a conheceu ao vivo — ou ao menos parte dela. “Cadê a minha carteira?”

O cantor havia morrido no início dos anos noventa, mas seu substituto tinha o mesmo timbre. Performance parecida. The show must go on. Se havia alguma diferença era imperceptível aos seus apurados ouvidos. Parecia playback de tão perfeitos.”Será?” Os alquimistas da música, durante as duas horas, não erraram uma nota. A kind of magic. O baterista não era o da formação original. “Cadê o meu carro?” O baixista ele nunca soube quem fosse. “Roubaram!” Mas a guitarra Fender continuava fiel. Décadas tocada pelos mesmos dedos. Um casamento de solos perfeitos, acordes distorcidos, riffs inesquecíveis. E os longos cabelos do guitarrista continuavam impecavelmente os mesmos. Perucas não envelhecem. Who wants to live forever.

“Toda essa maconha não é minha, seu polícia. Não sei quem colocou isso nos meus bolsos, não. Nem nas meias.” Bohemian rhapsody na delegacia.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Ah!! Que saudade que eu tenho!!! Muito bom!!!

  2. Aline Viana

    Muito bom! Adorei a epopeia do fã já trintão ou entrado nos “enta” para rever a banda que marcou sua juventude e tudo dando tão errado, mas nem assim ele perde o espírito rock and roll 😀

  3. Caraca Gláuber! Que linda homenagem a esse grupo que faz parte da minha formação, da minha adolescência. Foi meu debut em shows. Vê-los ao vivo foi demais! Seu texto me fez voltar no tempo e relembrar tudo o que passei naquela noite mágica de 1981…Como disse o Plínio: Ai que saudade!!! maconha? que maconha? e o que ela faz aqui na história? kkkkkkkkkk

  4. A música e como ela nos invade… Eu que o diga!

  5. trabalho de artesão a amarração dos títulos das músicas com a história. muito bom.

  6. Excelente texto. Parabéns.

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