Uma conversa estranha

http://augustodriver.blogspot.com.br/2011/08/o-pe-de-chinelo.htmlQue pé era esse que se apresentava para mim? Sei que não me encontrava em meus melhores dias, mas…o que era esse pé? Encarava-me bravamente! Redondo, com seus dedos inquietos a se mover incessantemente naquela já gasta sandália havaiana. Olhando para mim com olhos – ou será que devo dizer dedos e unhas – inquiridores tipo: “ O que está olhando Cara Pálida? Nunca viu?”
Pausa para uma pequena explicação:
Hoje, após sair de minha terapia, subi até uma cantina italiana e me fartei de pasta e vinho. Estava decidida a afogar minhas frustrações, neuras e otras cozitas mas numa boa taça de vinho. E confesso que me fartei.
Voltando.
Devo estar mesmo embriagada se trago comigo a certeza de que um horrendo pé masculino trava um diálogo mudo comigo em pleno vagão de metrô.
No entanto, por mais força que faço para desviar meus olhos desconfiados e embaçados de vinho daquele pé, não consigo. E de imediato me vejo transportada para outras questões que ele suscita. Descubro pela sua grandiosidade e aspereza, tratar-se de um pé diferente dos demais que ali se encontram. Trata-se de um pé que já percorreu muitas estradas nessa vida. E que também engoliu muita poeira. Suas unhas grossas, salientes e enegrecidas, confidenciam que seu dono teve uma vida muito dura no campo. Provavelmente foi um lavrador, cortador de cana. Deve ter passado também pelos canteiros de obra, uma vez, aqui em São Paulo.
Parada na estação Faria Lima, 20h54. Enquanto que outros pés saem desesperadamente em busca de seus destinos, desvio meus olhos e fecho-os numa fracassada tentativa de esquecer essa ideia louca e, por alguns segundos consigo me desligar. Pego meu celular – vício da maioria dos usuários do metrô ao entrarem no vagão – vejo as horas, leio uma mensagem da Vivo me alertando do vencimento de meu plano, miro a foto de meu benzinho…
Mas minha atenção é capturada novamente por aquele peculiar pé que teima em se manter inquieto diante de mim. Rendo-me à sua atenção e o que observo, é que seus dedos alegremente me mostram um painel da infância e juventude de seu dono.
Tempo bom em que brincava ao lado de outros moleques nas pradarias da região de onde nasceu. Onde passou a maior parte correndo pelas ruas de terra vermelha. Menino mirrado, olhos graúdos e espertos que abocanhavam o mundo ao seu redor. Ávido por aventuras, em pouco tempo ganhou as estradas deixando para trás uma vida difícil para trocar por outra numa cidade grande. Londrina, depois Vale do Ribeira. Mas essa região era mais pobre ainda do que a de onde viera. E pouco a pouco, foi subindo até chegar à cidade de São Paulo. No início fixou moradia em Diadema. Hoje, mora no Grajaú. Formou família.
Sim, olho um pouco mais para cima e me deparo com o rosto de seu dono e ao seu lado, uma mulher jovem ainda, mas já com algumas marcas no rosto e um corpo de quem já pariu algumas vezes. Olham um para o outro como se não houvesse mais ninguém no vagão a não ser eles. Ah sim! Acompanham duas crianças: uma de seus seis anos – menino – e um bebê que pela fita rosa na cabeça, só pode ser uma menina. E, pela semelhança, seus filhos. Anunciam a próxima parada: Estação Pinheiros. Acesso à linha Esmeralda da CPTM.
Uma movimentação se estabelece em todos os vagões. A maioria das pessoas salta nessa estação que os leva a seus destinos: Ou sentido Osasco. Ou sentido Grajaú.
O pé se movimenta numa atitude de levante. Encara-me mais uma vez com seus dedos me dando tchau. Agradecem minha atenção silenciosa e saem rapidamente com todos os demais passageiros. Em segundos me vejo quase que sozinha no vagão. Um silêncio abafado se instaura. Por algum tempo fico num vácuo mental enorme tentando entender tudo o que se passou nessa curta viagem. E chego a seguinte conclusão: grandes descobertas se fazem através da observação de um mero pé!
“Próxima estação: Estação terminal Butantã. Pedimos a todos que desembarquem nessa estação”.
Saio de meu devaneio acompanhando o cortejo de passageiros.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Roseli, de onde você tirou esse pé? Tema inusitado. É isso aí, buscar novos caminhos.

    • Oi Rogério,
      Boa parte do episódio contado é real. Esse pé realmente existe e fiquei tão impressionada com ele no metrô que de imediato, surgiu essa crônica. Obrigada pelo comentário! E vamos continuar a buscar inspiração por aí! Abraço!

  2. Rs. Acho que você se apaixonou pelo pé.

  3. Bacana a crônica e essa questão da observação, Roseli; d’onde menos se espera nos vem a inspiração.
    Um abraço.

  4. Pé ante pé. É assim que a vida vai pra frente!

  5. Luis Felipe L.

    Belo texto, Rosi!

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