Química

Bosta de cavalo.  O cheiro era de bosta de cavalo.

Lembrou-se na hora da parada de sete de setembro. De uniforme bem passado, meias três-quartos, compenetrada e com frio na barriga. Nunca sabia direito a ordem das estrofes. Na rua, toda aquela gente apinhada, olhando para ela. Tudo solene e bonito de fazer gosto. Até que aconteceu. E o cavalo nem se dignou a avisar antes. Espirrou um quilo de bosta, bem à sua frente, e continuou andando. Ela não sabia se parava ou se pulava aquele monte quente e fedido. Não podia desarranjar as batidas do bumbo, nem a marcação perfeita do desfile. Com o estômago embrulhado e tentando disfarçar a cara de nojo, apenas seguiu. Para manter a pose, enfiou o pé na bosta. Até o tornozelo.

Na loja de cosméticos, a vendedora não lhe dava mais de trinta anos. Um privilégio ter uma pele assim. Claro que podia ficar ainda melhor. Hoje em dia, não faltavam produtos que faziam verdadeiros milagres. Aquele agia dentro das moléculas de produção de colágeno e, já na primeira aplicação, acabava com as rugas e os pés de galinha. O preço era alto e o pote minúsculo. Também, a matéria prima era suíça. E bastava uma quantidade mínima, espalhada delicadamente no rosto pela manhã e à noite para trazer de volta a juventude perdida. Um creme para quem pode e não para quem quer, enfim.

Mal chegou, foi correndo se maravilhar com o que dizia a bula. Aquilo tinha vindo bem a calhar. Quem diria? Depois de tanto tempo sozinha, aquele encontro inesperado com Roberto, seu primeiro amor. Ele também estava separado e pareceu bem feliz por revê-la. Até tomou a iniciativa, combinando o cinema e a pizza e quem sabe o depois. A vendedora tinha mesmo razão. Ninguém lhe dava a idade que tinha. Mas podia melhorar.

Roberto iria buscá-la às sete e meia e já eram quase seis. O banho foi de princesa. Com sais aromáticos e óleos umectantes. Suas economias do mês estavam arruinadas, mas a moça dos cosméticos sabia das coisas.

Com os cabelos protegidos por uma faixa, lavou novamente o rosto com capricho.  Abriu, então, cuidadosamente, o potinho do tal creme activateur de la jeunesse e, com uma pequena espátula, colocou um tantinho na palma da mão. Achou muito pouco. Economizar para quê? Dobrou a quantidade. Roberto merecia mais. Como uma menina que experimenta escondida as roupas da mãe, foi espalhando o creme na cara, com gosto. Havia alguma coisa errada com aquele banheiro. Será que a privada estava entupida? Continuou passando e repassando o produto com movimentos rotatórios, como indicado na bula. Massageava especialmente as rugas do sorriso e o contorno da boca. Deu a descarga duas vezes. Insuportável. Sua casa parecia uma fossa. Na verdade, tudo cheirava a bosta. Mais precisamente a bosta de cavalo. Daquele cavalo da parada. Ali. De novo. Agora bem debaixo de seu nariz.

Encostou-se aos azulejos brancos da parede oposta ao espelho e, de longe, arriscou um olhar. Estava com uma aparência horrível. Parecia ter envelhecido cem anos agora que sabia de onde vinha aquele fedor. Apressou-se em lavar o rosto várias vezes. Com sabonete neutro. Com sabonete perfumado.  Com sabonete esfoliante. Passou até álcool puro. Nada. O cheiro de bosta continuava ali. Agora sutilmente impregnado.

Quando pegou o telefone para desmarcar o encontro, Roberto lhe mandou uma mensagem. Estava chegando. Ela precisava ainda maquiar-se e vestir-se. Quem sabe ele nem notasse, depois que se encharcasse de perfume?

Roberto era um cara legal. Ela, sim, parecia esquisita. Antes, tão entusiasmada com ele e agora toda essa distância. Devia ser timidez. Fazia tantos anos que não saiam juntos! Ou, então, algum constrangimento por causa da alergia no rosto, coitada. Mesmo assim, com a pele vermelha, continuava linda. Exatamente como no dia em que se conheceram, ainda garotos, num desfile de sete de setembro. Nunca a esquecera e nem havia se sentido assim tão atraído por nenhuma outra mulher. Só podia ser por causa do cheirinho irresistível dela. Uma questão de pH.

 

 

Izilda Bichara é formada em Letras e em Direito pela USP. Foi professora de Língua Portuguesa e Procuradora do Município de São Paulo, cargo em que se aposentou, em 2007, para dedicar-se exclusivamente à literatura. Escreve desde sempre. Sempre. Mas é tudo mentira. Ou quase. Alguns de seus contos foram publicados nas coletâneas Sabor de Ambrosia (1999), Sabores Macabros (2000), Na Mesma Lona (2010), Portal Fahrenheit (2011) e nos fanzines Conto e GLBTUVXZ, distribuídos na Balada Literária 2011 e 2012. Seu primeiro livro, Térreo, foi publicado em 2012. 

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  1. Aline Viana

    Muito bom! rsrsrs Nunca que ela vai imaginar o que fez o moço marcar um segundo encontro, rsrsrs

  2. amei Izilda…. uma questão de pH….demais, rs
    …. bjsss.

  3. Zenaide Fraga

    Muito bom! Adorei.

  4. Excelente participação Izilda!

  5. O amor é cego, surdo e mudo. Mas que não sentia cheiro, essa é nova! hahahaha
    Boa Izilda!

  6. Izilda Bichara

    🙂

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