Da Beleza da Falta de Pressa

Imagem

Eu precisava lavar as mãos antes de navegar no pão na chapa com manteiga e requeijão que acabara de pedir. Encarei a pia de longe e avistei alguém. Demorei a decidir se era uma senhora ou um senhor, mas ao me aproximar surpreendi o homem de cavanhaque e bigode brancos esfregando as mãos, o sabonete líquido removendo os anos que descansavam debaixo da pele. O gesto era meticuloso, a espuma surgia com calma. A bengala repousava na pia.

Recostei na porta, esperando a minha vez. Não suspirei, não resmunguei nem falei com meus botões, mas impaciência é fé que se cheira a quilômetros. Ele enxugou as mãos e pediu desculpas pela demora. Joguei suavemente: nas manhãs de sábado ter pressa era indesculpável. O senhor quicou de volta: seria bom se ela fosse indesculpável sempre.

Concordei com ele, as frases senso-comum “essa vida moderna é muito agitada”, “imagina, já nem conhecemos os vizinhos” desfraldadas em sequência. Entabulamos o riso cortês que se utiliza para finalizar um assunto com estranhos, e ele seguiu lento até a mesa próxima. A bengala era um rijo cão a acompanhá-lo de perto, farejando o caminho à frente. A senhora que o esperava sentada, cabelos brancos que emolduravam as décadas impressas nas manchas de pele, levantou e o ajudou a se reacomodar na cadeira. Assisti à cena pelo espelho, mão ensaboadas e enxaguadas rapidamente, secadas em um papel toalha que se esfarelou antes de cumprir sua missão.

Mesmo após as fracassadas tentativas de utilizar o algodão do vestido como toalha de rosto, ainda havia água entre os dedos quando sentei para iniciar o café da manhã. O pão na chapa com manteiga e requeijão já figurava entre os demais apetrechos da mesa. O cheiro da média de café puro imitava desses homens que se perfumam demais, os guardanapos enfileirados em sua caixinha brincando de pálidos soldados da rainha. Havia um entristecido açucareiro quase vazio, palitos de dente, sachês de catchup-mostarda-maionese, tradicional trio elétrico que animava lanches mais encorpados.

Na segunda mordida no pão, a casca crocante desintegrando-se em uma cascata de migalhas, percebi com o rabo do olho o casal iniciando o processo de recolhe-comanda-limpa-farelos-da-roupa-pega-bolsa-e-bengala. Ao passar por mim, o velho desceu e subiu o queixo suavemente, olhos sorrindo, a mão despertando a boina que agora trazia na cabeça, parecia desses carinhos que se faz para não acordar adormecidos, o conjunto de gestos traduzindo a despedida característica de quem já passou vagarosamente pelos anos antes que eles terminassem sobre si. Respondi ao cumprimento discretamente, escoltando o casal com o olhar até desaparecerem na porta.

Voltei ao pão com manteiga e requeijão com a fome aparentada do homo erectus que ainda se hospeda em nosso DNA. Quando a expectativa em afundar os dentes na cremosidade salivou e vi que não conseguiria avançar com calma na tarefa de me deliciar aos poucos com o café da manhã de todos os sábados, percebi o reflexo metálico de algo esquecido sobre a mesa de onde haviam se retirado o senhor e sua companheira. Levantei e em três rápidos movimentos capturei a chave do carro deixada para trás, ao mesmo tempo em que acenava ao garçom, o tradicional depositário de objetos relegados ao limbo das mesas de bares, restaurantes e, claro, padarias.

No reflexo de despejar a chave na mão de unhas cariadas do garçom percebi a frase. Ela constava do chaveiro de couro rústico, as tiras que trançavam a borda de ponta a ponta já puídas, a antiguidade alcança as coisas mais ordinárias. “Quem fica parado é poste” era a máxima gravada a pirógrafo. O tom adolescente, dessa época em que a angústia nos faz perceber a vida tão breve quanto um Carnaval, revelava que a falta de pressa é dessas belezas conquistada a duras penas, década a década, ourivesaria cravejada de revezes, ordinárias conquistas, breves momentos carcomidos de felicidade.

E foi assim, encerrando a média de café puro agora já frio e tendo a calma como resolução de Ano Novo, que paguei minha comanda e fui embora, a rapidez esquecida sobre a mesa, a primavera iluminando a promessa que eu cumpriria a longo prazo. Não seria difícil, eu dizia para mim, dia após dia transformar em ritual o que eu tomava por exceção, viver a falta de pressa, sensatez delicada e desconcertante, desde essa minha incipiente maturidade até o último pão na chapa com manteiga e requeijão dos meus dias.

Foto: paulo_amoreira

Anúncios

Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Bonito, Setúbal. Continue escrevendo. Sem pressa. 🙂

  2. Perfeito, Setúbal. Que seja assim!! “Momentos carcomidos de felicidade”.

  3. Aline Viana

    Pôxa, gostei muito Lu! E parece um começo de romance, a gente fica lendo, querendo saber como ele haverá de cumprir a promessa de não cair na pressa cotidiana e do que mais ele irá observar pelo caminho. Nossa, muito bom mesmo! 😀

  4. Bela crônica,Setubal. Delicadeza que nos propõe reflexões. E com vários achados como o “chave na mão de unhas cariadas”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: