Um rosto da multidão

carnaval

Era domingo de carnaval.

As nossas mãos se cruzaram, se soltaram e eu nunca mais a vi. Foi assim que o que era doce se acabou, que seu cheiro se misturou aos cigarros de outras mulheres, seu corpo se embrenhou na multidão e confundi seus olhos com confetes. No ritmo da música vinha meu peito, que doía a cada batida do surdo. Tentei chamar, mas a maldita música me fazia mudo aos teus ouvidos; eu teria chamado seu nome, se o soubesse…, se a maldita música me permitisse. Ah, se todos os sons estivessem mudos e só a minha voz ecoasse chamando por você! Mas se a música estivesse desde sempre morta, também o nosso amor estaria morto, as nossas mãos jamais teriam se cruzado, também não teríamos nos amado por um segundo sequer.

Chorei e não foi por você, mas pelo desamor, pelo amor leve e puro que na folia se fez pó, virou lembrança, cicatriz. Chorei foi por um amor que jurava nunca sentir, que zombava daqueles que o sentiam, e que se foi.

Hoje você é uma história que eu conto, apenas uma história, e nos caminhos que tracei pela vida trago comigo a certeza de nunca a encontrar, porque não mais a procurei. Nossa jura se fantasiou em sonho, em carnaval, e lá ficou, naquele dia, durou um dia, um carnaval e só. Na festa colorida você se fez cinza e nem ao menos esperou pela quarta-feira, quando tudo chega ao fim, para renascer como inspiração na memória.

Ecoa ainda dentro do peito uma batida forte, escravizada pelo surdo, que me faz entender que a história que conto não passou de um domingo qualquer. Se a conto no violão, longe do amor, longe das folias, da multidão, longe daquela maldita música é porque sei que se o tamborim repinicar, o meu consolo só vem ao amanhecer.

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. Dizem que amor de carnaval não sobe a serra. Por isso gostei desse teu texto que me lembra a batida sincopada do surdo, sempre um segundo atrasada, deixando sempre um “e se….?”.

  2. Amor de carnaval não sobrevive as cinzas .. muito bom!!!

  3. Amor ao primeiro toque. Com toda a estática, realmente, pode sair faíscas. Ótimo!

  4. E o Pierrô virou cantador! Belo desfecho.

  5. Queridos,
    Obrigada pela visita de vocês!

    E Rogério, a história é bem essa mesmo!
    Bejô!

  6. Caraca Bia que lindo! Amores de Carnaval são sempre amores que ficam na lembrança. Lindo texto!

  7. Aline Viana

    Lindo, Bia!
    Quem diria que um conto de amor de carnaval pudesse render algo tão pungente!

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