Retrato desbotado

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Freaks

Nasci há vinte e nove anos numa família linda e perfeita. Fui feliz até os doze anos. Mamãe tinha comigo uma doçura imensa e se desdobrava em dar amor e atenção. Meus irmãos, Tiago e Tamires, gêmeos, apesar de me olharem às vezes de forma estranha brincavam comigo em meu quarto. Mamãe cuidava de mim o tempo todo, inclusive de minha educação. Ensinou Matemática e se encantou com minha habilidade com números. Depois, chegou trazendo uma cartilha e falou que a partir daquele dia aprenderia a ler e a escrever. Aos poucos fui me encantando pelo mundo das letras e fiquei feliz quando consegui escrever direitinho meu nome completo: Abigail Helena Moura Biscaia. Mas, apesar de toda a rotina tranquila sentia falta da presença masculina que sempre ouvia lá de cima, mas que nunca descia até mim. Essa voz era de meu pai. Queria tanto conhecê-lo! Mamãe sempre dizia que ele era um homem ocupado por isso nunca vinha ao meu quarto. Comecei a me incomodar por não conviver mais próximo. Nem mesmo nos Natais me reunia a eles. Os finais de semana passavam fora. A casa ficava um silêncio sepulcral. Só se ouvia minha respiração, meus passos trôpegos e, nos horários certos, uma bandeja com refeição era colocada por mãos desconhecidas. Minhas únicas companhias eram os livros que mamãe sempre trazia.
Num final de semana a porta ficou aberta. Bateu uma curiosidade absurda em explorar o resto da casa que ainda não conhecia. Pensei: Ah! Que mal pode haver? Todos estão fora se divertindo e uma vez que a casa é minha também, não estou fazendo nada de errado. Subi os degraus e vislumbrei um cenário desconhecido. Que diferença de ambiente! Tudo muito claro. Lindos quadros enfeitavam as paredes da sala.
Subi para a ala superior da casa. Um corredor largo e arejado mostrava várias portas pintadas de branco. A primeira que abri mostrou ser o quarto de costura de mamãe. Alguns rolos de tecidos. No canto esquerdo da sala, um manequim em madeira.
O seguinte era de Tamires. Decorado em tons rosa esmaecido, branco e lilás, tinha a cama com dossel em voil. Colchão macio, alto, uma colcha em crochê.
Saí em busca de novas explorações.
Entrei no quarto de Tiago. Um ambiente masculino decorado em marinho e tons terra. Saí.
Entrei no outro quarto. Uma cama de casal com colcha portuguesa branca e almofadas. O véu que cobria a cama era lindo! Chinelos delicados repousavam ao lado.
Esse quarto era o maior da casa. Tinha uma escrivaninha repleta de papéis, canetas tinteiro, mata-borrão além de diversas pastas. Entrei no quarto de banho. Passei os olhos e algo me chamou a atenção. Do outro lado da sala, um móvel alto coberto com uma cortina branca. Curiosa, fui até lá e levantei uma ponta daquele pano. Hugh! Assustei-me! Com o coração aos galopes e a respiração acelerada pensei: Meu Deus! O que foi que vi? Passado o susto inicial decidi tirar todo o pano. Zás! Fiquei frente a frente com uma criatura horrenda que me olhava de forma assustada.
Com olhos esbugalhados e em desalinho, nariz torto e inúmeras erupções, boca disforme com dentes de tubarão, queixo deformado e com uma das faces encravadas para dentro. A criatura me olhava. Nada dizia. Reparei então em seu corpo. Miúdo com marcas de um criador em revolta. Uma corcunda forçava seu corpo para frente, seu pescoço também se pendia para um dos lados. Uma de suas orelhas em forma de babado mal feito terminava num pedaço mole e sem vida de pele que ficava pendendo para baixo, como se quisesse desprender do resto. Um chumaço de cabelo sem vida brotava na cabeça, domesticado numa trança com laços vermelhos ao final. Mas inúmeros fios rebeldes saiam teimando em aparecer formando uma aura assustadora.
Por que essa criatura insistia em me imitar em tudo o que fizesse? Estaria me gozando? Pensei alguns segundos. Confusa, comecei a chorar e a gritar. Não sabia bem porque, mas a vontade era incontrolável. Cansada, desmoronei ao chão e num choro contínuo, adormeci. Quando acordei estava em minha cama rodeada por toda a família, inclusive papai, que até então não conhecia. Homem bonito. Alto, esguio, elegante num terno de casimira de lã cinza chumbo. Com um bigode bem feito, cabelo penteado e brilhante, posicionava-se mais afastado de minha mãe e meus irmãos. Mamãe perguntou como me sentia. Sorri e disse que agora estava bem. Papai virou o rosto para a parede. Numa tacada só, mamãe disse que aquela criatura era minha imagem no espelho. Falou da minha gestação complicada e de meu nascimento que quase matou a ambas. Disse que a parteira sugeriu que, se quisessem, ela poderia dar fim. De forma corajosa, minha mãe olhou-me e decretou que não. Eu haveria de vingar. Ela cuidaria de mim com o mesmo amor que desvelaria para com os outros. Mamãe chamou papai para perto e disse: “Otávio querido, está na hora de você encarar sua filha caçula e iniciar um relacionamento de pai com ela. Filha, este é seu pai.” Papai se aproximou e com mãos trêmulas me acariciou em silêncio. Caímos num pranto doloroso. Pra piorar ainda mais a situação, minha baba excessiva me fez engasgar e com isso tossir. Comecei a passar mal. Após o doutor Sampaio chegar e me examinar, deu um calmante leve para que pudesse descansar um pouco. Depois dessa revelação, minha vida mudou e muito. Saí com toda a família duas vezes para nunca mais. Fomos fazer um piquenique no parque. Foi um desastre total. Nunca mais saí com eles.
Aos dezoito anos comecei a ter desejo de experiências amorosas, como nos romances que lia. Sabia ser impossível. Outro dia soube que minha irmã está sendo cortejada por um rapaz de uma família de prestígio. Ouvi papai comentando com mamãe que faz muito gosto desse namoro. Pela primeira vez senti o gosto ácido da inveja. Outra tarde, passeando pelo jardim cruzei o olhar com Luciano, o noivo de minha irmã. Minha vida virou um tormento. Sofro. Pela primeira vez amando e sei que não devo, não posso. Uma ideia brotou pouco a pouco em meus pensamentos: morrer.
Morrer resolveria todos os problemas: meus e de minha família. Minha morte traria a alforria de me ter entre eles. Só não tenho coragem. Até nisso vim com defeito.
No verão seguinte ao casamento de minha irmã, tomei a decisão de partir. Já não queria mais morrer. Arrumei algumas peças de roupa, alguns livros e saí enquanto todos dormiam. Deixei uma carta para mamãe agradecendo por tudo que ela fez por mim. O gosto da liberdade me agradava. Após alguns dias cheguei a uma cidade e lá, encontrei aquela que veio a se tornar minha verdadeira família: o circo.
Já estavam de saída da cidade e seguiriam para o norte. Achei aquela trupe tão divertida que não tive dúvidas em me aproximar. Conheci um dos malabaristas. Romano é seu nome. Homem musculoso, que ao me olhar, teve uma expressão de surpresa, mas, em seguida abriu um largo sorriso e perguntou meu nome. Sua simpatia me contagiou e em poucos minutos contei toda minha vida. Após um instante de silêncio, perguntou se gostaria de seguir viagem com eles. Hoje divido com a mulher barbada o espaço que chamamos de quarto. Somos grandes amigas e sou muito querida pelos anões, pelo Homem Elefante – que vive me cortejando – e demais colegas do circo. Superei meus medos, minha insegurança diante das pessoas e não sinto mais vergonha de minha aparência afinal, se não fosse por ela, hoje não seria a maior atração do circo depois dos trapezistas. E isso me enche de orgulho. Minha família? Nunca mais soube dela. Nem tentei saber. Apesar de grata por tudo o que recebi, não tenho saudades. Ficou no passado feito retrato desbotado pelo tempo.

Esse texto faz parte da coletânea Corda Bamba, publicado pela Pastelaria Editora, Portugal em 2011.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participa das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Colabora no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Singelo e pungente!!! Parabéns, querida Roseli!!!

  2. E que venha a liberdade sobre nós!

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