Cesta básica

mercado

Dez quilos de arroz. Do agulha, parborizado nem pensar!, é ruim demais, e pro integral eu nem olho. Tem que ser do branco, do lavado que dá menos trabalho. Serve a família toda, o mês todo, sábado e domingo, almoço e janta.

Se ao menos eu pudesse comprar um pijama de linho,  pra no calor dormir livre, leve e solta, me sentindo a rainha da Inglaterra, poderosa, iluminada, salve-salve. Ia assistir minha novela sem ter inveja daquelas gostosonas.

Cinco quilos de feijão. Sem caroncho, quebrado, sem furo; é, esse tá bom. Carioquinha, que é mais saboroso, tem mais caldo, precisa de menos grão. Faz sopa e feijoada falsa, se for o caso. Quando acabar, vai arroz, ovo e purê.

Ai, que o Zé ia gostar também, o linho é delicado, cai bem no corpo e é daquele tipo ‘esconde-mostrando’ que todo homem fica doidinho. Podia ser uma estampa mais ousada, oncinha, cobra, esses bichos sexys. Um preto de renda, um vermelho, camisolinha plissada, com bojo no peito.

Um quilo de sal. Dá e sobra. Fica uns três meses nessa, tranquilo. Pega do outro, esse tá caro. Aí boto a culpa na pressão do Tonho, falo que é saúde, tá feito, dura mais um mês brincando.

Renda, quanto mais renda melhor, pra virar o ‘mostra-escondendo’, bem mais sensual, provocante. Tá mesmo faltando uma pimenta na relação… O Zé chega em casa, toma banho e fica na tevê, vendo jogo ou Datena. Tem coisa melhor pra fazer, pô. De repente, um jantarzinho especial ajuda a animar a noite.

Dez quilos de açúcar. Vai feito água, nem vi já acabou. No café, no leite e pra um bolinho quando em vez, as crianças gostam. É o jeito de adoçar a vida. Vai qualquer um mesmo, que açúcar é tudo igual, branco e doce.

Pego um perfume com a Beta, vizinha, que ela não usa mais. Espirro na porta, no corredor e no quarto todo. Som ambiente, aquele cedê do Daniel, que me arrepia até o dedão do pé!

Dois quilos de café. Ficar sem não dá, o dia pede, de manhã, pra acordar. Esse, pega esse, que café precisa ser bom, forte, prá dar gosto de acordar. De noite não, tem que dormir bem pra acordar bem. Dois quilos tá bom.

Se eu preparar um banho diferente, huuuum, com sabonete cheiroso que faça bastante espuma, limpo tudo antes, uma toalha vermelha pra combinar com a camisola, troco a roupa de cama, escondo o travesseiro e o cobertor, jogo pétala de rosa na cama. Lençol branco, pétala vermelha. Muito vermelho.

Dois litros de óleo. De girassol, mesmo. O resto é balela, invenção, jeito pra trouxa gastar dinheiro, e a toa! Tempera, faz azeite; bate com ovo, faz maionese. Dois coelhos, uma cajadada. Pensando bem, melhor três.

Abro as janelas, mas fecho a cortina, pra ficar voando, que é sexy. Preparo a mesa com o jogo de jantar mais novo, o de festa. Dobro gardanapo de pano feito mesa de rico, talheres alinhados, um vinho.

Vai um chocolatinho, pra fazer uma graça. Mas sem abuso, um só e chega. Graça demais sempre vira desgraça.

 E uma sobremesa sugestiva: morango com chantily.

Dois pacotes de papel higiênico. Quem come, um dia caga. Sessenta metros, folha simples, nada de luxo pra quem só faz merda. Oito sabonetes. Do mais barato, glicerina mesmo, limpa tudo, de fuligem a olho-gordo. Uma pasta de dente. A do sorrisinho, de lista vermelha e branca, tem gosto ruim, essa serve. Um xampu. Neutro, pra todo mundo usar.

Acho que o Zé vai gostar, se fizer surpresa, então, ele enlouquece. Num sábado? Sexta!, que não tem jogo e a tevê tá um lixo mesmo.

Dois quilos de sabão em pó. Bobeou, vai três, criança é foda, ímã de sujeira, gordura e mancha. Com criança tudo fica manchado: uma criança, uma casa suja. Precisa ser do melhor não, pega o mais-ou-menos. Se for o caso, boto na cândida.

Deixo a Ju na mamãe, arranjo uma desculpa qualquer, que vou fazer faxina e quero sossego depois. Boa, uso essa. Aí tenho tempo de recolher as tralhas espalhadas pra deixar a casa com cara de motel.

Cinco. Cinco litros de cândida. Certeza: tudo que nasce, um dia vai pra cândida. Pode apostar. Vai com tudo, só não com farinha. Desbota o pano, tá certo, mas desbota a mancha também: do vermelho, pro laranja, pro amarelho. E, de longe, mancha amarela no pano branco sempre some.

Tá, não vai ficar com cara de motel, mas dá pra fazer um esforço. Procuro na revista umas dicas de sexo e se não for muito sem-vergonha eu treino sozinha antes. 

Dois detergentes. Do verde, que dá cheiro, dá brilho e dá gosto. Dá gosto é de ver prato brilhando, copo brilhando, panela brilhando tipo espelho.

Se o Zé achar estranho, eu finjo que deu dor de cabeça e durmo.

Bombril, pega três. Um pra cozinha e dois pra tevê.

Ah, deixa quieto, vai.

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. Querida Bia, em cada linha, em cada letra está conquistando uma voz, um contar, um falar e um escrever.
    Muito obrigado!!!

  2. Ah, o Zé não vai achar estranho, não. Ótimo texto!

  3. Aline Viana

    Ótimo texto, Bia! Esse tá precisando mesmo de um sacode! rsrsrs

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