E desaguava a dor…

Imagem: divulgação

O Ebrio, Vicente Celestino

O homem brandia os braços na fila do caixa rápido do supermercado. Gritava que alguém, impossível de identificar, era um caipira. Nas mãos uma lata de cerveja amassada. O hálito revelava à distância que o consumo da bebida havia começado em um período que, de tão antigo, era impossível determinar.

A moça que seria a seguinte na fila hesitava em se aproximar. O sujeito ébrio bem podia implicar com ela ou se exaltar com alguma coisa e atirar aquela lata sem mais nem menos. Logo, um homem corpulento apareceu e não hesitou em avançar. Disse que a moça não temesse, aquele bêbado não era de nada.

O pingaiada não se intimidou com o desprezo alheio e continuou a vociferar contra seu inimigo invisível. Coçou a cabeça, abaixou o olhar, como se planejasse as próximas acusações e voltou à carga. As mãos agitando-se com a lata amassada de um lado e, agora mais perto a moça notou, uma pochete na outra.

– Pode ir, garantiu o grandalhão à moça. Esse aí mal aguenta um soco.

A moça observou o tipo magro, cambaleante. Podia ser, mas menos podia ela. Miúda e com tantos frascos de molho de tomate, xampu e iogurte nas mãos. Manteve uma distância segura, meio escondida atrás do cliente grandalhão.

– Isso aí é chifre, pode escrever – disse o homem sobre o bebum.

A moça não respondeu, mas não conseguiu reprimir uma expressão incrédula.

– É chifre sim. Estou cansado de ver isso no fórum. Eles chegam descontrolados, não falam coisa com coisa. Todo dia é um monte deles.

A fila andou e o bêbado não hesitou em se dirigir ao caixa indicado no luminoso. A moça ainda duvidava que o amor embriagasse tanta gente a esse ponto. Preferia acreditar na fraqueza, no vício, no desemprego estrutural e até nas artes do demo.

Ela que já havia quase morrido de amor umas tantas vezes sem levar um gole à boca. Engasgava com as lágrimas. Mas, secava por dentro.

O bêbado não. Regava-se. E desaguava a dor.

Crônica originalmente publicada no coletivo Vida a Sete Chaves.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. E que desague o amor sobre nós!
    Valeu Aline!

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