Enquanto isso no banco

oubro 2012 001

Senha D901 aparece no visor eletrônico.

Velhinha levanta e se dirige a mesa 12. O funcionário verifica a senha:

– Não minha senhora. Agora é a senha F001.

– Então…

– Então o quê? São números diferentes.

Ele pega o papel da mão da idosa e vai conferir no painel.

Disfarçada de Chanel, outra atendente percebe a situação constrangedora e, com apenas um toque, muda o número na tela para aquele que consta no ticket da senhora.

Atenciosa sorri para a cliente enquanto aquele funcionário ainda explica que os dígitos são outros.

A velhinha senta-se a mesa da elegante e resolve seus problemas.

Aguardo. Minha senha é D009.

O funcionário que se irritou sumiu de cena. Não vi como ele saiu.

Três mulheres atendem: a semi-chanel, uma bem bonitinha e uma outra que só ouço a voz (áspera). A tela do computador esconde seu rosto.

Aposto que vou me dar bem. Torço pela jovem sorridente. Parece ser a mais boazinha.

Sorte do avesso.

As notícias não são boas. Bela portadora de más novidades.

Cheques/fundos/aplicação/poupança/outro empréstimo.

Aqui deveria entrar meu substituto. Aquele que entende as contas do banco. Sabe administrar o dinheiro. Só gasta depois que recebe e controladamente.

Eu não sei lidar com dinheiro. Pouco ou muito, me atrapalho.

Afundo em dívidas e dúvidas.

A Miss Simpatia pede que eu encaminhe a documentação em 3 vias, autentique e reconheça minha assinatura.

Eu até ouço o que ela diz só que não compreendo.

Deveria ter esperado a loira de tailleur.

Levanto, agradeço e me despeço.

No terceiro andar, outra senha, outra espera.

Ansiedade. Se não resolver hoje, perco o prazo.

Duas horas e quinze minutos. Falo com a recepcionista.

– Chega antes das 10:00.

– E o cancelamento da conta?

– É preciso uma nova senha.

– Perco tudo que fiz hoje?

– Sim. Em caso de desistência o processo é reiniciado.

– Se eu voltar pra fila consigo ser atendida?

– Agora já cancelei o código. Sobe até o quinto andar e fala no administrativo.

– Tem que pegar senha?

– Não, fala direto com a Mara.

A secretária da gerente de relacionamentos pede que eu aguarde só um minutinho.

Me oferece café e água. Aceito os dois pra tirar alguma vantagem de tanto tempo perdido.

Tenho medo de ir embora. Vou resolver tudo hoje.

Dona Mara também é daquelas que sorri. Ela apresenta uma estagiária sentada ao seu lado. É bom porque ela explica tudo duas vezes. Me esforço para entender a planilha.

– Leve toda a documentação ao Setor de Cadastro e eles resolvem pra você.

Desço para o mesmo lugar que comecei o atendimento.

Eles jogam muito pesado.

A mocinha oferece um novo bilhete, outro código de espera.

Rio sozinha. Um senhor sentado ao meu lado pensa que sou simpática. Ri de volta e faz um comentário sobre o tempo.

Coloco os fones para evitar o assunto ou um aneurisma.

Lucimar Mutarelli começou a escrever em 1989 em Oficina Literária ministrada por Caio Fernando Abreu. Durante 20 anos deu aulas de Educação Artística e se distanciou da ficção. Em 2008, trabalhando como vendedora na Livraria da Vila, redescobriu a literatura. Publicou seu primeiro livro “Impessoal” (Editora Editacuja) e seu primeiro romance “Entre o trem e a plataforma” (Editora Prumo). Acredita que a fruição de uma obra de arte é a melhor companhia pra quando quer ficar sozinha.

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  1. É, e se a gente se recusa a passar por isso, nada feito: ficamos sem conta, sem dinheiro, sem lenço e sem documento.

  2. Viva os fones de ouvido!!!

  3. Essa crônica é o retrato do quanto somos mal tratados neste país. E pior: permitimos ao exercitar nossa paciência todos os dias. Deveríamos seguir os argentinos que, por nada, saem às ruas com panelaços e não levam desaforo pra casa. Um dia ainda faço curso relâmpago de argentinês…rs

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