Jack

Foto de Leandro P. BarretoFoto de Leandro P.  Barreto

Como jack não!

Cair como ladrão de banco tudo bem. Como jackestripador vão judiar de mim. Nunca!!

Ainda mais em dia de natal

Cerca. Alta. Tenho de conseguir. Tô pregado, meu!

Muro. Dando uma de periscópio: nenhum magarefe na altura da vista. Tô fodido, meu!

Muralha. Pregar nele! Encher a caixa e correr “com as tripas na mão”. Tô zicado, meu!

Bafo tinha pego a caminhada com um dos sobrinhos do “trairunha de fome”: local sem ninguém!. Casa abastada, sem alarme. Já conhecia, cansei de filar boia lá e de tomar carcada sem merecer. “Mamão com açúcar”. Mas mesmo assim entramos: eu, Bafo e Mancha “pisando em brasas” sem nenhum pio, armas em punho. Pegamos o familião todo na sala com “a boca na botija” fazendo um amigo-secreto! Fiquei pluto com o Bafo pois pegou a letra errada! Acho que o meu antigo “chegado” me reconheceu, mas nada disse. Nós estávamos de zorro. Na brincadeira: ele, a namoradona bunduda, os dois sobrinhos “cuspidos e escarrados” e uma meninota de saia curta e pernas tortas. Chutei no peito do dono da birosca para impor respeito. Dei uma bruta coronhada no Bafo para “aprender a cantar no tom”. Goofy!!

Caralho! Chão. Boca sangrando. Perdi a arma no escuro. Deixa quieto! Jack nunca, meu!

O mulheril começou a gritar. Mancha torceu o braço de um dos moleques para “dar um arroz” no pessoal. O outro ficou num canto rezando. Deve ser o que entregou o recado, traira como o tio!! Todos ficam pianinho. O tratante começa a chorar e diz que faz qualquer coisa para que a gente não o machuque. Covardão! Já tava injuriado, pois o “trabalho” estava mais difícil. O patife oferece a meninota para a gente parar. Digo não. Bafo diz sim e corre fazer barba, cabelo e bigode com ela na mesa da ceia. Eu vidrado no pilantrão e ele nem pisca. A bunduda chora, o torcido geme, outro reza e o Mancha gargalha. Bafo se acaba na guria: “Tá servido, chefe?” Covardia. Menina nova dá problema! Maldito rato! Vontade de estourar a cabeça deste bicho!

Rua livre! Já dá para andar como cidadão de bem. Tô suave meu!

Ariranha pra mim se mata com tiro, mais agora depois da Glória. Todo mundo falava que eu tinha que andar direito, fazer os meus trabalhos, acompanhar os meus parceiros, ser gentil, aguentar a sabedoria do pilantrão, o nervosismo do outro e ser o pateta da turma. Tentei. Mandei uma sentença para a Glória, que aceitou de pronto. Logo veio com aquele lero-lero de que era só minha e não tinha zica nenhuma que não segurasse comigo. Fui na confiança: pegou filho. Quero ser de bem. Mas tudo só foi “teia de ilusões”. Viagens para cima e para baixo, e a “boca pequena” me contava que ela estava “costurando para fora” com o Gastão. Investiguei para garantir a minha moral. Havia tempos nem olhava pra ela. Tava arrependido de ter me deixado laçar. Corria da perereca. Gostava mesmo era de fazer com o meu “sobrinho”, o Giba. Ele não fugia do pau!

Rua deserta. Enfeites de Natal. Feliz Natal para todos. Tô livre, meu!

Peguei no flagra ela “dando o rabicó” no sofá de casa. Segurei a ira. Fui me abrir com os chegados, sabichão e nervosinho. Que riam de mim. Pensam que sou um pateta?! Na consideração, chamei o rabicozeiro para um parlatório. Ele foi sincero, disse que ela que o cercou dizendo que o maridão, o pateta aqui, não dava conta. Agradeci, apertei a mão dele e cortei o pilantra ao meio. Já a traidora, comi ela na porrada “ bati com um gato morto até que ele miou”. Apanhou até pôr o filho para fora e eu poder seguir a minha trilha. Na raiva da Gloria, no ódio do rato: picotei a meninota à bala. Esculachei os dois e sai para a vida. Deixei a raiva sair e fiquei com sede!

Peraí! Casal esquisito vindo em minha direção. “Sangue nos olhos e faca no dentes” mas vou deixar passar. Feliz Natal! Feliz Natal! Que se fodam!

Sangria, ponche, sidra e até água, e o meu sangue não amainou. Chamei o moleque de braço torcido para uma conversinha. Não consegui ver o rezador. Dando a canção, levei o moleque para um quarto e arrombei gostoso. Rachei o danado trocando umas ideias de moral. Abati com uma esganadura e beijinhos. Bunda de hominho é saborosa. Ia fatiar o pilantão quando o Bafo e Mancha pediram para eu parar. Disseram que o outro moleque fugiu e chamou a policia. Casa cercada. Cada um por si. Dei uns tiros na porta da frente, um na cabeça do Bafo e outro nas pernas do Mancha. Fugi por onde entramos.

Passa um homem por mim e me “deu um amargor”. Como jack num posso cair! Os caras me cercam. Mãos levantadas e tapa na cara.

Deusmelivreperdãosenhorsoutrabalhadorsoubandidonãosenhordesculpas.

Podeperguntarprosenhorvaldisneielemegarante.

Senhorviunãofuieunãopeloamordedeusnãosenhornãosenhorpelamordedeusnãosenhorjacknão.

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Preciso, primoroso e sofrido. ADOREI!

  2. Uau!! Que belo texto Plínio! Me remeteu aos textos de Rubem Fonseca que adoro!!! Parabéns!

  3. Ritmo pulsante e envolvente.

  4. siiiim! como jack siiiiiiiim!

  5. Plinio é voz do reino da malandragem, e bem afinada.

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