Je vous salue, Marie

marieEm algum momento do sono Maria estava com um pé na minha cabeça – enquanto o outro atingia uma taça de vinho vazia na mesinha de centro. Quando todos acordamos Maria disse: vou preparar um suco de maçã. É fato constatado, e não julgamento de caráter ou habilidade, que afazeres de cozinha nunca inspiraram Maria. Mas naquela manhã em que dormimos embolados no chão da sala, ela acordou demonstrando raro entusiasmo e suas primeiras palavras, depois de me oferecer toalhas para o banho, foram exatamente estas: Vou preparar um suco de maçã pra gente. Não havia suco de maçã algum quando saí do banho, mas Maria ainda repetia a frase com certa convicção. Sugeri então que tomássemos o suco na padaria e quem sabe um café da manhã completo, o que foi aprovado por todos, inclusive por ela, que a essa altura já deveria estar avaliando o trabalho que teria ao lançar mão do capricho matinal, pois na verdade não era do suco em si que Maria prescindia, mas da maçã e todos os seus significados.

É importante que se diga logo de cara: Maria é jovem, inocente e virgem, e tal qual no filme de Godard, Maria está sozinha no meio dos seres humanos, oprimida pela própria consciência. A ela nunca deve ter sido fácil carregar o santo nome da progenitora de Jesus.

É importante que se diga: Maria é do signo de libra e toma vários banhos por dia.

Há quem diga que a maior ousadia, em sua vida de Maria, foi pedir ao garçom um suco de tomate aos quatorze anos de idade.

Tudo corria bem na vida de Maria, até se dar conta de que Estela existia. Histérica. Instável. Inflamável. Deixe estar, pensou Maria, uma hora ela se cansa. E dos porões da existência de Maria a outra ouvia, e passou a agir com insistência, planejando revolução. Primeiro foram as palavras que começou a soprar enquanto Maria dormia, noite após noite, dia após dia. StarStreets, Extremos, Espaço, Escape, Esfinge, Esgrima, Espartilho, Espartano, Esfíncter, Espasmos, Escrita… Eram tantas as palavras, todas elas carregadas de infinitas possibilidades, que Maria passou a acordar assustada, e mais adiante, nem dormir conseguia, o que foi diagnosticado pela ciência como síndrome do pânico. Para não sucumbir, procurou todo tipo de ajuda: reiki, filosofia, colo de mãe, curandeirismo, terapia… Mas como a ascese de Maria não estava definitivamente adquirida, a presença de Estela passou a disputar, sem dificuldade, as rédeas de sua vida cotidiana, e Maria anda desde então, por assim dizer, perdida entre paradigmas e caixas de remédio controlado, ensaiando falar o que sente, enquanto a outra lhe berra ao ouvido.

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  1. Gostei bastante, Denise. Parabéns. Coitada da Maria, que alguém a salve ainda.(rsrs) Bom personagem,.

  2. Maria precisa se livrar urgente dessa Estela.

  3. Mais uma maria. Ou seria Uma Maria?

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