Filho de Doun

Fonte livre

Não amava ninguém; não havia primeiros ou segundos. Estava era se lixando para ordens; sem preferências por nada, por qualquer um que fosse. Rancor, ódio, tristeza não sentia; fazia-se inerte àquilo que, por mais ínfimo que fosse, pudesse lhe trazer algum encômodo.

Adorava apenas sua solidão, a distância dos seres vivos e até mesmo dos mortos. Não tô pra santo, nem pra exu. Exaltava sua imagem retorcida num espelho trincado. Da dor era imune e achava execrável qualquer tentativa de perdão; ignorava o nascimento de uma mágoa. Em seu peito de costelas frouxas um único desejo: estar bem longe de todos que fossem seus próximos.

Emporcalhava seu nome e fazia questão de apreciar os dias passarem em vão. Dedicava ao seu ócio o pleno sacramento, santificando sua rotina escrota. A todos professava calúnias tediosas, inventava histórias que sequer ele mesmo teria a imbecil capacidade de acreditar. Que valia, afinal, tinha seu sono, seu descanso, seu sábado? Pra quê se guardar? Pertencia ao mundo, dele viera, para ele voltaria. Deitava-se nas mãos do provável e rezava ferozmente pelo impossível.

Sua família, um reflexo parco no vidro cinza da esquina: ele mesmo, e já lhe bastava. O passado roto, de infância magra, era alvo de desprezo profundo. Nada de festas, sem alegria. Que se fodam os laços, o sangue podre, a geração. Aniquilaria os universos paralelos, se este poder lhe fosse concedido. Contracenava com fantoches fúnebres em seus sonhos; orgias pela manhã, à tarde, à noite. A posse do poibido, do tudo, do mundo dos outros. Sentia-se instigado, mas retraído.

Usurpava alegrias momentâneas, nem o profundo tampouco o intenso lhe chamava atenção; residia onde nenhum outro lhe pudesse causar ânsia. Fazia questão de incitar espanto e agonia, como num hobby. Suicidava-se diariamente, pouco a pouco: prática incansável de autoproteção. A mentira era seu princípio de vida. Sabia ser a verdade uma virgem prenha, hipócrita de corpo e alma, sempre burlada mediante vagos interesses.

Tinha o adeus como única felicidade da qual fazia questão.

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. Que personagem Bia! Adoro personagens assim, complexos e ao mesmo tempo simples, à margem das coisas. Parabéns!

  2. naneteneves

    Gosto de personagens tortos…. Bacana!

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