Estática

soccer ball

 

Noite. Algum lugar. Tempo antes.

 

Jofre –         As idéias ficam no tempo, Kalu. Acho até que as vozes… as vozes que a gente traz consigo, são vozes que já estão aí, no ar.

 

Kalu, com uma bituca, risca o chão. Poema. Pensamento.

 

Jofre  –        Escuta!

 

Kalu absorto.

 

Jofre  –        Escuta!

 

Kalu atento.

 

Jofre  –        As vozes estão aí, no ar…

 

Tempo. Poema. Pensamento. Estática.

 

 

1976. Sul. Pelotas. Peleja final de regional.

Mário. Radinho colado no ouvido… Zgrfsszcrsfzzbr

 

Locutor de futebol-estática-locutor…

 

O grilo procura no escuro o mais puro diamante perdido!

Ponta de bota da zaga!

Mário – E o jogo não acaba! E o jogo não acaba!

 

O grilo com as suas frágeis britadeiras de vidro perfura!

Tira de qualquer jeito! Do jeito que deu!

 

Mário – Diacho! Tira essa bola! Tira essa bola!

 

Uuuuhhh!

 

Dédalos de dedos! Lanterninhas súbitas. Escutam as orelhas-de-pau. O gigante deitado se virou pro outro lado. A velha Carabô parou de pentear os cabelos. É o vencido… são as duas mãos e a cabeça do Vencido que se arrastam. Que se arrastam penosamente para o poço da Lua, para o frescor da Lua, para o leite da Lua, para a lua da Lua! (Filha, onde teria ficado o resto do corpo?).

 

Zrprfrzgrzgranzzzbr

 

E segue o jogo! Um jogo fantástico! Um jogo sensacional, torcedor do Brasil e do mundo! Quem será o novo campeão!”

 

Mário – Só precisa do empate! Só um empate!

 

Poetaz!

 

E o Pelotas chega com perigo mais uma vez!

Agora é falta na lateral da grande área! É um escanteio de mangas curtas! Lance perigosíssimo que pode definir a partida!

 

 

–  Só dá Pelotas! Só dá Pelotas! Ai de mim!

 

Zzgrfzzbr

 

Ai de mim, ai de ti, ó velho mar profundo. Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!

 

(Estática) Escuta, Poeta! Escuta!

 

Zrfgz

 

Pela carola do Gramofone!

Tirou tinta da trave! Quase abre o marcador o Pelotas!

 

– Eu rezo! Juro que rezo! Dou até vinte… não! Dou até cinqüenta voltas de joelhos, no quintal. Dou sim! Juro que dou! Mas não deixa escapar esse título! Esse não!

 

Zrrnbr

 

Não, não olhe agora!

 

Os antigos retratos de parede

Não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados

Porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes para trás de repente.

 

Rebate a zaga! A bola espirra até o meio, sobra pro atacante que avança pela direita, passa de passagem pelo marcador, cruza no primeiro pau! Saltou o goleiro! Saltou com ele a zaga, o avante! Tocou de cabeça pro gol!…

 

Grito da torcida-estática-silêncio…

 

Gol! Gol! Foi gol! Foi gol! Gol, Diabos! Foi gol sim! Foi gol! Foi gol!

 

Radinho mudo. Chacoalho.

 

– Pega, Diacho! Pega!

–  Escuta, poeta…

– Pega, porra!

–  Escuta, poeta!

– Pega, seu… filho da mãe!

–  Poeta!

 

Escuta.

 

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…

Sem fim e sem sentido…

 

– Quê?

 

O radinho. Bem baixinho…

 

Gooooool! ÉÉÉÉÉÉÉÉ do Pelotas! É do Pelotas!

 

 

 

 

José Carlos Malafaia. Das Alagoas, Malafa. Formado médico e ator busca inspiração nos Quintanares e nas letras do velho Graça.

 

 

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Um Comentário

  1. O querido José abrilhantando o Coletivo!! Obrigado… belo texto!!!

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