Brincadeira de criança

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Senti o abraço da Emília afrouxar bem de leve quando ela morreu. Ela sempre me abraçava quando dormia, bem antes de ela ficar doente já era assim. Demorou ainda para a mãe dela chegar com a janta aquele dia. Ela nos viu e achou que estávamos dormindo.  Ela deu um beijo leve em Emília e pediu para a filha acordar, mas ela não acordou. Sentiu a pele meio fria da menina e nos cobriu com mais um cobertor antes de tentar acordá-la de novo. Chamou bem baixinho, um pouco mais alto e como a Emília ainda não acordava, resolveu nos deixar dormir mais um pouco.  Só bem mais tarde, o pai da Emília veio nos ver, o seu Bernardo. Foi ele quem percebeu que ela estava morta. Ele sacudiu o corpo da filha, sem querer acreditar e o abraçou e beijou e não parava de chorar e nem viu quando caí no chão. 

Ela foi velada aqui em casa mesmo, lá em baixo, na sala eu acho. Mas não vi o caixão, se era rosa e prata, como todas as coisas que ela pedia. No dia seguinte ao enterro, acordei com um abraço tão gostoso! Abri os olhos e não vi ninguém. Também não lembro de alguém ter me posto na cama da Emília, mas foi lá que eu acordei.

Uns dias depois, os pais de Emília se foram. Vi pela vão da porta o seu Bernardo descendo com umas malas pequenas. Depois ouvi a Joana, nossa faxineira, dizendo que podiam ficar tranquilos que ela viria todo dia cuidar da casa enquanto eles ficavam na vovó Lúcia. A vovó Lúcia é bem mais legal que a vovó Rute. Ela brinca com a gente de chá da tarde e serve chocolate quente e biscoitos de verdade.

A Joana limpou o quarto da Emília e me deixou sentada na poltrona, junto com a Bia, uma ursinha de pelúcia exibida só porque usa saia de babado. A Joana foi embora cedo e daí não tinha nenhum barulho para me distrair, por isso caí no sono logo que escureceu.  Sonhei que estava tocando a música preferida da Emília, “Lá vem o pato, pato aqui, pato acolá… Lá vem o pato para ver o quê que há…”. Ela já era quase uma mocinha, mas ainda ouvia aquilo todo dia.

Acordei na cama novamente, toda coberta e ouvi o rádio ligado, tocando meio alto aquela música sem parar. A Bia continuava na cadeira, mas os outros brinquedos estavam fora do lugar. O Tom, o boneco que a Emília dizia que era meu namorado, estava virado, como se estivesse conversando com o Heitor, o nosso gato de pelúcia.

Estava esquisito mesmo. A Joana ficou cabreira quando chegou. Nem quis subir aqui no quarto sozinha. Vai ver pensou que tinha algum bandido na casa porque quando ela entrou aqui foi com a polícia. A primeira coisa que o policial percebeu foi que a janela do quarto estava meio aberta, mas eu não vi ninguém entrando, juro. Dormi tão bem no quentinho! Ele ainda abriu os armários, olhou debaixo da cama, abriu as gavetas da escrivaninha para ver se não faltava nada e fez a mesma coisa em tudo quanto era cômodo. Parece que não descobriu nada de estranho, senão o seu Bernardo tinha voltado pra resolver essa história de bandido.

Dessa vez quando a Joana veio arrumar o quarto, ela me deixou sobre a cama. Onde era o meu lugar quando a Emília ia pra escola. Deixou a Bia na poltrona e os outros sobre a estante mesmo.

Naquela noite não dormi direito. Acho que já tinha dormido e descansado o suficiente desde que a Emília morreu. A tristeza agora me deixava meio acordada. De repente, uma luz entrou pela janela e eu vi a Emília aqui! Eu fingi que dormia porque achei que estava sonhando mesmo. Daí quem sabe até eu me convencia e dormia, né? Melhor que ver aparição acordada.

Ela veio bem pertinho de mim. Cheirava a sabonete, parecia que tinha acabado de sair do banho. Passou a mão nos meus cabelos, mas logo se afastou. Eu abri um olho e a vi mexendo na bancada do nosso banheiro. Logo ela voltou com um pente. Sentou na cama, me colocou no colo e começou a desembaraçar o meu cabelo com cuidado. Fez uma trança. Desmanchou. Fez maria-chiquinha. Soltou de novo.  Fez outra trança, dessa vez parecendo uma tiara e deixou o resto solto. Ficou bonito!

Emília não falava nada. Ainda me colocou debaixo dos cobertores e deu um beijo. Brincou um pouco com a Bia, depois com o Tom e o Heitor. Antes de ir, colocou a Bia e o Tom na mesinha da tv. Só que ela levou o Heitor.

Eu acreditaria que sonhei aquilo tudo não fosse o meu cabelo penteado. O chão molhado de garoa porque ela deixou a janela aberta quando saiu de madrugada. E o grito da Joana quando pegou novamente o rádio ligado, com o cd repetindo aquela música do pato, e o quarto naquela bagunça de livro por todo lado. A mulher arregalou tanto os olhos que eu achei que ela fosse morrer também.

Não sei quanto a Joana ganha, mas ela merecia um aumento. Foi lá, arrumou tudo, secou o chão. Trocou o meu vestido e soltou o meu cabelo. Esticou os lençóis, me colocou sentada sobre uma almofada na cama. E passou o dia caçando o Heitor pela casa. Toda a preocupação dela era que a dona Márcia e seu Bernardo achassem que ela tinha perdido o brinquedo, ou, deus o livre, roubado.

Mas a danada da Emília voltou aquela noite também. Abriu a janela, pulou pra dentro e ficou brincando de tentar se ver no espelho. Quando desistiu, pegou seu livro de histórias da carochinha e ficou lendo pra mim, pra Bia e pro Tom. Eu não sei que o que eles estavam achando porque não falo língua de ursinho nem de boneco xing-ling. Mas te digo que eu estava assustada até as pilhas.

Depois ela ligou o rádio e disse pra gente dançar porque ela estava com vontade de brincar de festa. Colocou música de quadrilha, música de roda e depois deixou naquela do pato. Eu nunca iria imaginar que ia querer ser assombração também, mas eu quis naquela hora só pra poder fugir correndo e encontrar outra dona viva pra brincar.

Quando o dia ia amanhecendo, a Emília foi ficando cansada, com sono. Ela deitou na cama, me abraçou e ficou fazendo cafuné no meu cabelo até nos duas dormirmos. Não vi quando ela foi embora com o Tom. Ele não estava na estante quando acordei, nem na cama comigo, nem perto da Bia e dos livros.

– De onde vem essa música? – Ouvi a Joana perguntar ainda lá embaixo quando abriu a porta.

Seguindo o som, ela veio direto aqui no quarto. Ainda ouvi ela descer de novo e voltar devagarinho pela escada. Ela abriu a porta com um cabo de vassoura e ficou balançando a coisa no ar antes de entrar. Nunca ouvi história com vassoura que espantava alma do outro mundo, mas a Joana deve saber o que faz.

Percebendo que só tínhamos nós três no quarto (eu, ela e a Bia), a Joana tomou coragem e olhou atrás da porta, debaixo da cama e dentro do guarda-roupa igual o policial. Só que armada com a vassoura. Fechou a vidraça por causa do vento e ficou se perguntando se não tinha sido ela quem esqueceu aquilo aberto.

– Foi você ou foi o vento que fez toda essa bagunça, Juju? Hoje eu vou arrumar tudo, mas não vai acontecer isso de novo. Vou dormir aqui com você essa noite, fechar bem essa janela e quero tudo direito quando eu acordar, ouviu, mocinha?

Fiquei feliz com essa ideia da Joana. Pelo menos eu não iria dormir sozinha, com medo da Emília me levar junto com os outros pro caixão. De noite, ela trouxe um colchão aqui pro quarto. Colocou ele em frente à mesinha da tv, pegou umas almofadas do sofá, ajeitou nas costas e tomou sopa de feijão enquanto assistia à novela. Durante o jornal, ficou fazendo palavras cruzadas e mal olhou pra tela.  Na hora da novela das nove, ela já tinha escovado os dentes e ficou deitada assistindo até pegar no sono.

Precisava ver a cara de alegria da Emília quando viu a Joana por aqui. A menina pulava e dançava e ria. Tentou acordar a Joana, chacoalhando, mas ela nem te ligo. Chamou baixinho, mais alto, mais alto e mais ALTO, só que a Joana continuava roncando. Até fez cosquinhas no pé da faxineira, na barriga e no sovaco e ela nem sentiu nada.

A Emília então desistiu e foi brincar com a Bia. Trocou a saia da ursinha, depois escovou o pelo com tanto cuidado que até brilhava. Daí foi a minha vez. Procurou o meu macacão xadrez na caixa de roupinhas e a blusa de moranguinhos para me vestir. Passou perfume em mim e fez cachinhos nos meus cabelos. Acho que a Emília estava cansada do silêncio do cemitério ou do além, sei lá, de onde ela vinha de verdade, porque ligou o rádio e colocou de novo aquela música pra tocar.

Com o pato nas alturas, a Joana acordou. E me viu dançando no ar com a Bia. Ela não conseguia ver a Joana. A vidraça batendo com o vento e nós duas voando. Primeiro ela deve ter pensado que era sonho, mas tão rápido ela viu que o caso era grave, que nem vi quando ela pegou e arremeçou a vassoura na gente.

– Te esconjuro, Satanás! O sangue de Jesus tem poder!

A Emília ficou por conta aquela hora. Ainda tentou dar bronca na Joana e fazer ela pedir desculpa por ter batido e xingado a gente assim sem razão. Só que se a Joana não conseguia nem enxergar, também não ouvia a menina. Cada vez mais brava, a Emília não sabia se se defendia ou revidava, daí foi atirando as almofadas, o cobertor, as roupas e os gibis na Joana. A vassoura acertou a bunda dela de repente e como quase tomou outra vassourada, ela fugiu chorando pelo vitral. Justo ela que nunca apanhou na vida. Eu ainda escapei, porque entalei entre a esquadria e a parede, mas a Bia, menorzinha, foi com ela.

Caída no chão, a Joana nem teve coragem de chegar perto de mim. Me cutucou com a vassoura, como se eu fosse uma barata meio morta. E sem largar a vassoura, foi fechar a vidraça. Acho que ela ainda deve ter visto a Emília se afastar com a Bia. Visto a Bia, quer dizer, dá na mesma.

A Joana passou boa parte da noite orando. Acendeu umas velas, fez promessa pra Santo Expedito, pra São Judas e pra Nossa Senhora. Estava tão concentrada, que nem viu a Emília voltar. Ela entrou de fininho e foi pegando os livros, as roupinhas, os outros brinquedos, fazendo uma pilha ao lado da janela.

Quando a Joana viu, a vassoura comeu de novo no ar. A Emília pediu desculpas, mas a outra não ouvia. A menina juntou tudo quanto coube nos bracinhos e tratou de se encarapitar no vão da janela. De lá ainda tentou mostrar a língua, mas tomou um golpe que a fez cair lá embaixo, coitadinha. Dessa vez, a vidraça foi fechada com o trinco. E a Joana ainda foi verificar cada janela do andar de cima, até a do nosso banheirinho, e depois as do andar de baixo.

Desmaiei. A Joana também deve ter caído dura porque no meu delírio só ouvia o pato aqui, pato acolá.  No outro dia, a dona Márcia e um padre estiveram lá em casa junto com a Joana. Jogaram água com uma caneca e uma colherzinha em tudo quanto foi canto do quarto. Eu, então, tomei um banho! Tiveram que me deixar no sol o dia todo pra secar. E ainda ficaram me dizendo umas palavras esquisitas. Uma língua doida chamada latinha, ou coisa parecida. Parece que a reza era para a Emília morrer de verdade.

O padre me levou pra igreja e no dia seguinte me deu para outra menina. A Sabrina. Ela não sabe da Emília. E me deu o nome de Zoe. Só que a Emília já sabe dela. E não vai desistir de me levar.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Bela história!! Belo ponto de vista! Bela narração!!!!

  2. ahahaha que medo!!!! muito boa!

  3. Aline Macário

    Adorei!

  4. Aline que história!!! Acompanhei cada momento dessa aventura do além! E tudo narrado por uma boneca! Demais menina! Parabéns!

    • Aline Viana

      Nossa, Roseli, fico super feliz que vc tenha curtido meu primeiro texto de terror, rsrsrs obrigada 😉

  5. Me pegou desde a primeira frase, aliás, que adorei.

  6. Laura Siqueira

    Aline, adorei a história! É um terror bem humorado, e a linguagem simples da boneca contando a história prende a gente no texto, pra seguir em frente e descobrir os objetivos da Emilia. Eu já estava mais tranquila depois do exorcismo, mas a tensão voltou quando ela diz que a Emilia já tinha descoberto o paradeiro da boneca…Parabéns!

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