A Namorada

Foto: Ramil Sagum

Foto: Ramil Sagum

Não queria continuar envolvido com ela. Nem chamava nosso relacionamento de namoro. Nos conhecemos numa balada e, por falta de opção, numa pequena entressafra, continuamos ficando.

Sem encantos, não posso dizer que a moça era assim feeeia, mas linda isto com certeza não era. E eu que sempre gostei de mulheres com rostinho de princesa. Seu corpo também não era escultural, como normalmente escolhia. Decidi terminar. Liguei para ela. Antes de dizer o motivo da ligação a garota me pediu para passar no seu trampo.

– Ahh, por favor, venha, amor. Nunca tive um namorado que me pegasse no trabalho.

Amor? Namorado? Só me faltava essa, mas resolvi realizar o último desejo de uma condenada. Aproveitei para avisar, com uma voz nada amistosa, que precisávamos ter uma conversa.

Eu teria de chegar ao seu escritório por volta das 17h20. Cheguei no horário combinado. Aguardava na recepção. Ela apareceu com uma blusa amarela, saia jeans em trapos e meias horríveis. Tive vontade de dar logo o fora e ir embora. Mas a recepcionista me interrompeu, avisando que o patrão a procurava.

Comecei a folhear as revistas. Pouco depois a recepcionista se dirigiu ao relógio de ponto perto do bebedouro. Em seguida o motoboy, a copeira, acompanhados de outras pessoas que não consegui identificar a função. Mais uns cinco minutos e outra turma saiu. Eu já sabia, ela seria a última a sair, me exibindo na recepção para os seus colegas.

Lia uma reportagem sobre intercâmbio na Austrália quando conferi o relógio: 17h47. Arranquei a página com anúncios de agências de viagens especializadas no intercâmbio. Com pagamento em vinte parcelas vou até pra China. Um barulho me tirou da terra das loiras bronzeadas. Era um barulho… Será? Levantei-me para tomar água no bebedouro. Queria entender o estranho som. Ao me aproximar de um corredor a batida ficou mais alta. Segui por esse corredor. O barulho vinha da última sala. A porta da sala estava fechada. Havia uma larga janela de vidro, mas a persiana me impedia visualizar. Procurei uma fresta na persiana: dos lados, embaixo, meio, nada! No alto, canto esquerdo, vi uma lamina meio dobrada. Coloquei o vaso de lixo de cabeça para baixo e subi nele. Em nítidas cores, vi a minha ficante deitada de costas na mesa, nua da cintura pra baixo. A blusa aberta exibia seus seios. Um homem em pé, com idade para ser pai, talvez avô dela, segurava suas coxas, enquanto mandava ver. Os gemidos da moça eram os mesmos comigo. O seu rosto também era o mesmo. Procurei algo para enfiar na cabeça do homem e depois acertar ela. Onde se viu me deixar esperando enquanto trepa com o patrão? Não sou trouxa, não! A intensidade dele aumentou. Os gemidos dela aumentaram. Aquele rosto ainda não tinha visto. Como pode? Aqueles gemidos nunca ouvi. O que é isso? Gozaram. O coroa desabou sobre ela. A moça ainda passou a mão nos cabelos dele, disse alguma coisa e sorriu. Só aí notei o seu sorriso. Branco. Cheio de dentes. Um sorriso perfeito. Também percebi o quanto estava excitado. Voltei para a recepção. Ela chegou ajeitando o cinto.

– Ai, desculpe pela demora. Um cliente do sul ligou e eu não pude deixar de atender. Sabe como é…

– Ah sim, claro.

– Obrigada por ter vindo. Ela me deu um beijo na boca – rápido, mas delicioso.

Enquanto saíamos da empresa:

– Você disse que tinha algo importante pra me dizer.

– Então, na verdade, não é assim importante. É um problema em casa, depois eu te conto… Vamos ao shopping? A gente come alguma coisa lá.

– Vamos. Trabalhei muito hoje. Tô morrendo de fome.

Confirmado: o sorriso da minha nova namorada é mesmo lindo.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Muito bom!!!
    Bela voz!!! Belo enredo!!!

  2. Olha só!!!!!!!!! Fiquei plissada! rsrs Ótimo texto Gláuber! Mas só assim pra dar valor heim?

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