Férias

ferias2009

Coisa típica de paulistano. Durante todo o ano, sonha com seus trinta dias de férias. Faz planos, cria roteiros de viagens, promete a si mesmo que vai se desligar de tudo e sumir no mundo. Pescar, acampar, pegar uma praia e mudar um pouco a cor branco/amarelo/desbotado/pálido de escritório por um bronzeado de causar inveja. Passar horas de bobeira em frente a televisão. Comer baldes de pipoca, ir ao cinema. Fazer um tour cultural pelos museus e teatros. Se divertir a valer no Hop Hari. Praticar esportes radicais em Brotas. Cair na noite, beber todas, galinhar. Sair do lugar comum. Ou, se o dinheiro der, uma esticada pela Europa e curtir o verão por lá. Tudo pronto, último dia de trabalho, euforia geral. Saída com direito a uma esticada num sambão regado a muita cerveja, música ao vivo e dançar pra espantar os demônios. Ou, se preferir, trazê-lo para mais perto para esquentar o início das férias.

Primeiros dias de total ócio é de um prazer infindável. Coisa boa! Acordar sem despertador. Não se preocupar em perder o ônibus das sete horas. Comer a hora que der vontade. Ficar o dia inteiro de pijama. Nem escovar cabelos, muito menos os dentes. Não tomar banho. Pra que? Não fiz nada o dia inteiro mesmo! Varar a madrugada navegando pela internet. Entrando e saindo de sites pornôs, assistindo filmes de sacanagem. Fazer palavras cruzadas. Botar o som de seus cantores prediletos no último volume e cantar junto pulando na cama feito doido. Em suma, voltar a ser criança.

Segunda semana de férias. Um dia você desperta e bate uma larica. Um tédio absurdo se instala em você.

Nada mais parece te agradar. Até as pessoas queridas te irritam. Televisão, cinema, parques, shoppings, cerveja com amigos. Nada mais tem graça. Se está viajando, dá uma vontade absurda de retornar. Se ficou em casa, pior ainda. A rotina familiar é arrasadora. Em nenhum ambiente da casa se está bem. Nem nas redes sociais se acha mais graça. Tudo é um grande tédio.E o grande tesão pelas férias começa a esfriar. Aliás, congelar. Pensamentos suicidas surgem do nada. Homicidas também. Um vazio se instala e cresce dia a dia transformando suas horas que eram para ser de puro lazer e deleite em pesadelo.

Na sua última semana de férias, o estresse está num patamar perigoso. Pra você e para os outros. Sua neurose atinge graus absurdos. Você está intolerável. Não suporta a presença de outro ser humano próximo a si. Não sabe mais o que é dormir bem. A insônia te faz ver fantasmas por todos os lados. Pânico. Passa a sofrer de taquicardia, suor frio, treme muito. Só tem um único pensamento fixo: o trabalho.

Noite do seu último dia de férias. Deitou mais cedo para engrenar seus horários que estão todos bagunçados. Precisa ter uma boa noite para acordar bem no dia seguinte afinal, amanhã retoma sua vida normal.

As horas passam lentamente. Você rola inúmeras vezes na cama e nada do sono chegar. Vai ao banheiro, mija, peida, caga. Volta para a cama. Rola mais vezes. Nada do sono chegar. Sente uma sede danada. Levanta, vai para a cozinha, bebe quatro copos de água. Volta para a cama. Rola mais três vezes. Tem câimbra na perna, xinga, chora baixinho, amaldiçoa a vida por ter tido as férias mais miseráveis do mundo. Que ódio! Olha as horas. Puta que pariu, três e quarenta da madrugada e nada do sono chegar. Que merda! Tenho que acordar as cinco e meia e ainda não consegui dormir nada! Rola mais duas vezes até que o sono te pega desprevenido e adormece.

TRIMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!

Puta que pariu! Que susto porrah! Ai Meu Deus! Já cinco e meia! Tenho de me arrumar. Hoje retorno ao trabalho.

Que sono! O trânsito tá uma merda! Que saco essa vida de trabalhador! A gente não tem sossego mesmo!

Catraca da empresa. Oito e trinta.

Eh aí? Josué, Maurício, Tânia, Milena! Como foram de férias?

Todos em uníssono: Muito bemmmmmmmm!!!!!! E você?

Putz! As melhores férias da minha vida. Sensacional!

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participa das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Colabora no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. … mas eu quero férias!!! Bom texto!!!

  2. Sensacional a ironia dessa personagem! E quantas vezes não agimos assim?

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