Breve Método para se Conectar à Realidade

“Você mesma faz as suas unhas?”, relampeja a colega, a incredulidade escorrendo de olhos arregalados, surpreendida em me ver substituindo a hora do almoço pela fome de cutículas. Confirmo com um sorriso de gato de Alice ao ponto de interrogação surpreendido, e continuo limpando os cantinhos do anular com acetona, a tinta insistindo em permanecer, eu cutucando o palito ali, o algodão já quase seco por ter realizado o mesmo trajeto mão dupla na unha vizinha.

Um personagem sartriano já dizia que, para se manter em contato com a realidade, o trabalhador intelectual devia adotar um ofício manual, e o ritual de reduzir o tamanho M das unhas para um quase PP, extinguir pa-ci-en-te-men-te as cutículas, preparar a superfície para receber a base, depois o esmalte sempre em cores vivas, o óleo de orquídea para proteger e dar brilho, por fim o palito mergulhado no removedor de esmalte para passear unha a unha, era meu cordão umbilical com o mundo que a gente enxerga com as mãos.

O ofício eu trazia de flashbacks de infância, adolescência, vida adulta, minha mãe cedendo ao ritual uma vez por semana, duas horas de lenta peregrinação atrás de fiapos de cutículas, lixas novas para lapidar as unhas do seu jeito, camadas alternadas de esmalte cinza claro e de prateado suave – que é assim a mão de minha mãe desde que me conheço por gente. Ourives incansável, ela ainda pragueja alto a cada borrão, imprevisibilidade típica que gera altas doses de irritação tanto em quem faz do ofício seu ganha-pão, quanto em praticantes amadoras da modalidade.

Nesses momentos em que abraço a realidade com fé de tia-solteirona-carola-católica-ferverosa, o pensamento faz jogging até ingressar na máquina do tempo. Minha vida de filha distante com contas a pagar é colocada de lado, e cada pincelada de esmalte extrai memórias diversas, uma manhã em Florianópolis perseguindo o endereço onde eu encontraria amigas queridas, a tarde de infância em que meus irmãos e eu brincávamos de família feliz com Playmobils de sorrisos permanentes, a janela descascada do quarto onde minha avó convalescia e que seria sua última visão do mundo, um primeiro dia de emprego feito de expectativas e um pé quase quebrado, a análise minuciosa da copa das árvores feita por mim e um namorado, os dois deitados sobre grama e folhas e vontade de conquistar o mundo juntos.

Quando a força gravitacional das memórias atraía minha consciência e o manejar de palito, acetona e algodão se tornava tão mecânico quanto um desses touros feitos de carcaça, pistão hidráulico e engrenagens, é que eu percebia o quanto meu breve método de se conectar à realidade – esse, que aprendi com mãe e aperfeiçoei sozinha – se transformava em cachorro, raça guaipeca, e se espojava no cheiro pegajoso do fracasso. Fracasso sim, porque não cumpria sua função de me conectar à matéria fosca de pele, corpo, membros, essa crosta sensível que dá a medida do real, liberando minha mente para se lambuzar de densidade rarefeita, trafegar entre camadas desconexas de passado, imaginação, sentimento e toda existência etérea da qual eu descendia desde os mais perdidos tempos.

 

Imagem:  robbies2wheels

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. … um texto admirável!!!! Muito obrigado!!!

  2. Camila Vaz

    Lindo texto….obrigada por me trazer tantas lembranças boas de minhas cuticulas!!!

  3. thais hohl

    Agora acabei de ler… e, então lhe digo, amada amiga, repetindo o sempre, e todas as vírgulas que nem tenho o direito de usar, gostei muito. Gostei, como sempre gosto de escrituras tuas/suas, por isto mesmo… mas não pelo artesanato de fazer as unhas, nunquinha gostei deste fazer. Me agonia este tempo dedicado ao manejo destes instrumentos e destas peles e destas toscas ideias de unhas brilhantes e coloridas.
    Prefiro unhas naturais, cortadas na frente da janela e bem rentes só para demorar em crescimento.
    … mas gostei, sempre acho que assuntos simples se inscrevem no imaginário assim, como grandes temas de um duelo entre lápis e papel, ou seria dedos e teclado, urdindo uma vida interessante, um mundo que possa valer a pena…

  4. Massa, Setubal.

    A jardinagem, pra mim, tem efeito bem semelhante. :)) Go on.

  5. Aline Viana

    Adorei, Lu! Eu me identifiquei bastante com essa teoria de algo manual para compensar tanto trabalho intelectual, mas eu, como sua personagem, também não me reconecto com o mundo e sim divago por mares já muito navegados.

  6. Miriam

    Adorei. Lembrei do tempo da Osny e da manicures de lá. kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Beijos e muita saudade

  7. Bom demais saber que você manda bem também em crônica. Amei sua divagação sobre o tema, e isso me fez lembrar que gosto de fazer as minhas, deixando o pensamento voar, embora às vezes esse voo seja interrompido pela dor de um “bife”…rs

  8. Daniel

    Nunca consegui fazer as unhas (kkkkk), mas seu texto me fez relembrar minhas 06 irmãs em todo este processo. Muito bom.

  9. Adorei o título e o tema insólito. Muito divertido.

  10. Obrigada por nos presentear com tão belo texto Lú! Faço minhas unhas desde adolescente. Gosto desse ofício. Não serviria para ser profissional pois levo um tempo absurdo! Mas me dá prazer em preparar unha por unha. E também costumo divagar enquanto as faço. Terapia das boas! E quando termino e vejo o resultado agradável, que alegria! Parabéns pela carpintaria que deu a cada frase do texto. Mostra um amadurecimento e tanto! Tô orgulhosa!!!!

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