Rebeca

Vivian Maier – Undated, New York, NY

Eu deixei minha mãe ganhar aquele dia. Ela tinha me feito pão frito no café e nem era domingo, dia em que o seu Luiz, da padaria, nos dava o que não vendia até o meio-dia.   Ela me levou até a Praça da Sé e pediu que eu a esperasse numa rua que tem uma livraria numa esquina enquanto ela iria numa loja ali perto vender uns brincos.

Depois eu descobri que tem sim numa rua pra baixo várias lojas onde se compra e vende peças de ouro e prata, mas mamãe não devia ter nada daquilo pra vender. Ela não roubava. Acho que ainda não rouba.

Eu queria ir junto, mas minha mãe disse que lá não podia levar criança, que era pra eu esperar quietinha até ela voltar. Ela tirou o relógio do braço, prendeu no meu e disse que iria levar só uns minutinhos. Que eu podia conferir no relógio.

Se ela deixava o relógio comigo como é que ia poder voltar nos minutinhos? E logo a minha mãe que esquecia a hora de almoçar, de me dar banho?  Até a hora de me buscar na casa dos outros minha mãe vivia perdendo.

Sabia que ela ia me esquecer ali. Da primeira vez ela ia me esquecendo no mercado. Foi a mesma coisa. Ela pediu para eu esperar, que voltava já.  Fez umas compras e, quando eu vi, lá ia ela embora sem mim. Corri pelo estacionamento, atravessei a rua sem olhar pros lados, tomei um monte de buzinada, quase tropecei por causa dos chinelos na lombada, mas consegui pegar na mão dela quando ela já ia chegando na escadaria que dava no ponto de ônibus.

O susto que ela tomou! Me deu um abraço que quase me esmaga, chorou, pediu desculpas, mas na outra semana ela me esqueceu de novo. Na igreja grande em Santo Amaro. Ela entrou numa fila pra tomar uma benção junto com uma porção de gente. Colei o olho nela e fiquei ali sentada no quinto banco da segunda fileira contando da porta da direita. A fila era tão grande que nem vi quando o pastor a abençoou. Fiquei esperando ainda quase até escurecer, mas ela não voltou.

Pensei em pedir ajuda pra algum obreiro, mas achei melhor procurar eu mesma. Ele não devia nem conhecer a mamãe. Quando cansei de caçar ela naquela multidão, fiquei sentada na escada porque dali conseguiria ver quando ela saísse. Depois de um tempo lembrei que tinha outras duas escadas. Uma irmã acabou me vendo ali, quis saber cadê a minha mãe e depois onde eu morava, e perguntando aqui e ali conseguiu me levar de volta pra casa.

Quando cheguei, ela já estava lá. Chorando e lendo a Bíblia. Ganhei um abraço forte, um monte de beijo, uma bronca por ter me perdido dela e o resto da pipoca que ela disse que comprou pra mim na igreja.

Teve a vez do metrô, da rodoviária de Santos, daquele lugar onde se procura emprego no bairro dos japonês… E tem vez que eu nem lembro. Ela ia me esquecer. Não era possível que ela não lembrasse que me esquecia toda vez. Tem dias que acho que a única coisa que mamãe não esquecia era de me esquecer.

Pedi para ir junto de novo, só para ela não perceber que eu já sabia o resultado daquele nosso jogo. Só que comecei a chorar conforme ela ia ganhando distância. Eu lembro. Até hoje. Da sua calça jeans manchada de café no joelho, da bolsa bege e marrom com o chaveiro do Mickey pendurado no zíper, do cabelo dela castanho até o ombro. Eu jurei. Não vou esquecer. Nada.

 

Ps. Vivian Maier, autora da foto acima, foi uma fotógrafa americana amadora falecida em 2009, aos 82  anos. Trabalhou como babá durante toda vida e tirava fotos que, reza a lenda, jamais mostrou a alguém. Pena, porque ela merecia o reconhecimento por esse trabalho fantástico. Sobre a vida dela, você pode ler em português aqui. Quem quiser ir direto para os finalmentes e conhecer mais sobre o trabalho dela, é só por o dedo aqui.

 

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Muito bom!! Atingido uma excelência!!!
    Parabéns!!!!

  2. É muito lindo o conto, Aline!

  3. é lindo e triste e lindo! amei 🙂

  4. Ai bom texto, mas fiquei triste.

    • Aline Viana

      Oi, Ana.

      É eu entendo. Foi bem esse o sentimento tive quando vi pela primeira vez a foto dessa criança.

      Bjs

  5. As inspirações no trabalho de Vivian Maier seguem a todo vapor. Conto poderoso Aline! Parabéns! Deu ainda mais força à imagem.

    • Aline Viana

      Ando super apaixonada mesmo pelo trabalho dela. Vamos ver até onde isso me leva, rsrsrs E super obrigada pelo comentário e pela força 😉

  6. rute santos

    Texto magnifico …

  7. Lindo esse texto! Um dos meus favoritos!

  8. Aline querida que texto! Na passagem em que ela está sentada na escada da Igreja, lembrou-me uma passagem de minha infância em que me perdi de meus pais na Igreja de Aparecida. Lembro tão bem de ficar nas escadas também…Isso dá outra história hehe! Parabéns!

    • Aline Viana

      Sério que algo assim aconteceu contigo? Nossa, imagino como você deve ter ficado assustada. E que bom que deu tudo certo.
      Ah, isso da criança na escada com certeza abre uma janela para um outro texto… Vou tentar e se der certo, lhe aviso 😉

  9. Geisa Bonfiette

    Eu li e nem vi o tempo passar… 🙂

  10. Poxa, Aline, que história tocante. Belíssima.

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