Memória de Menina II

Foto: Corie Howell

Agora estou aqui! Numa cama de motel. Com um defunto ao meu lado. Que adianta ser grande. Enorme. Se não levanta. Mal começamos nos divertir e a festa acabou. Não é apenas um membro morto. Que fique registrado: morreu muito bem vivo. Aliás, deve ter sido a causa de sua morte. Devia ter desconfiado do seu rosto pálido. O sangue se concentrou lá embaixo. Nunca vi outro tão imponente. O coroa, ainda no escritório, tomou dois comprimidos de cem gramas. Engoliu de uma vez. “Essa tarde, minha linda, será inesquecível”. O diabo, na eternidade, não deixará ele esquecer seus pecados.

Não tenho alternativa. Sei quanto vai me custar. Mas só o patife do Souza, advogado de porta, sala e cozinha de cadeia. Só ele pode me safar.

– Me passe o endereço desse motel… Não fale com mais ninguém… Estou indo.

Logo hoje! Estava com uma vontade fenomenal. Velho egoísta. Poderia ter me satisfeito antes de cair mole.
Preciso catar meus fios de cabelo. Cadê a calcinha que ganhei? Vesti por poucos minutos. Não sei por que me presenteiam com lingeries se nunca as deixam em meu corpo. Tenho de encontrar. Com esse negócio de DNA, CSI, sei lá, podem provar a minha existência.
Vou levar a grana que está na carteira. No inferno a entrada é franca. E o Souza vai me cobrar caro. Ah se fosse só o dinheiro, seria a mulher mais feliz da Bela Vista… Bateram na porta?

– Quem é?
– Sou eu, o Souza.
– E aí, resolveu tudo?
– Tudo certo. Tome, guarde seu RG.
– Ufa! Que alívio.
– Temos cinco minutos pra sair pelos fundos.

Em menos de quinze minutos estava na porta do meu dentista. Havia marcado horário, mas não iria. Tornou-se meu álibi perfeito.

– Quanto te devo, Souza?
– Foram seis mil para as duas recepcionistas trocarem seu RG por um falso e apagarem a filmagem da entrada. Vinte por cento disso são os meus honorários. Além de…
– Além de quê?
– Você sabe.
– Ah, isso não.
– Isso sim.
– Eu expliquei, desde nossa última vez, que não faço isso.
– Como não? Voltarei no final do seu expediente. Você vai me pagar tudo.
– Vou dar todo o dinheiro, mas…
– Preste atenção! Tirei você de mais uma baita enrascada. Agora não tem desconto. Me entendeu, né?
– Mais tarde a gente conversa.

Eu sabia que o filho da mãe iria me cobrar caro. Podia ter ligado para a emergência. Não assassinei ninguém. No máximo, teria de prestar depoimento uma ou outra vez. Sairia nos jornais. Na tevê. Perderia o emprego. O Alberto iria me dar mais uns tapas. Mas talvez tudo isso fosse mais barato que o preço do Souza.

Quando retornei ao trabalho, a recepcionista me deu a notícia. No café, no banheiro, nos corredores, o escritório era só boatos:

– Tenho certeza: ele estava com uma moça da cobrança.
– Deixe eu te contar uma coisa: a contadora tinha caso com ele.
– Sei não. A estagiária do financeiro não saia de sua sala.
– Acho que foi com um garoto de programa. Aquele velho era esquisito.

Os que não comentavam desconfiavam de mim. Quando me encaravam dava vontade de gritar: bingo! Mas resisti à brincadeira.
Não foi difícil soltar algumas lágrimas. O meu querido e generoso patrão partiu para sempre. Nada mais de jóias, mesada, congressos, presentes.
Sem contar que ainda tinha que acertar as contas com o Souza. Quanta tristeza!

– À tarde, teve plantão na tevê relatando o caso.
– Apareceu um monte de polícia no escritório.
– Mas e aí?
– Nesses casos de motéis, a secretária é sempre a primeira suspeita. Por sorte, o meu querido dentista disse que desde o meio-dia eu estava lá.
– E o meu pagamento?
– Vou pagar agora três mil em dinheiro. Amanhã transfiro pra sua conta o restante.
– Tá certo. Amanhã sem falta você transfere. Mas hoje não abro mão de mais nada que é meu de direito.
– Ei, pra onde você está indo?
– Pro motel, ora!
– Qual motel?
– O que você estava na hora do almoço. Olha ali. Estamos chegando.
– Meu!, você tá maluco?
– A recepcionista me deu uns cupons de desconto.
– Vamos pra outro.
– Tudo bem. Mas então você paga.

O talento do Souza não deixava dúvidas. Nasceu pra ser o que era. Forjava provas. Mudava depoimentos. Corrompia o mais santo dos juízes. Convencia até o mais incrédulo dos jurados. Ah, mas eu também tenho minhas habilidades. Não vou ceder o que ele quer. Isso nunca!

– E aí, doutor, você vem sempre aqui?
– Uau, menina, que corpo delicioso! E esses seios…
– Tira logo o terno, vai.
– Dai, você é muito gata. Deixa qualquer homem louco. Dá outra volta… bem devagar.
– Gostou?
– Demais! Venha cá, minha delícia.
– Assim vestido, vai se amarrotar.
– Hoje não tenho mais audiência.
– Mas eu quero te tocar.
– Esses lábios carnudos! Encosta nos meus.
– Olhe só o meu bumbum. Vem brincar com sua menina.
– Eu quero é beijar a sua boca.
– Ah não! Isso não.
– Chupar a sua língua.
– Nunca.
– Lamber os seus dentes
– Ai, credo!
– Massagear a sua gengiva com a minha língua.
– Ugh!!!
– Deixa vai…
– Calma aí… Vamos brincar de babaloo.
– O quê?
– Faço dele meu chiclete.
– Quero seus beijos em minha boca. Aposto que beijava aquele velho imundo.
– Ele tentou, mas eu expliquei e nunca mais me importunou.
– Vou experimentar agora essa delícia…
– Todos os homens amam babaloo.
– Dai, é melhor você facilitar.
– Vou caprichar. Deixa. Você vai gostar.
– Isso não, Daiane. Venha cá. Levante a cabeça. Eu quero assim.
– Nããão! Por favor… Pare! Aaai, que nojo…

 

Leia também: Memória de Menina I
Leia também: Memória de Menina III

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Gláuber que história! Essa menina dá de 10 a 0 na sonsa do momento: Anastasia Steele! História caliente, dinâmica. Tudo de bom! Parabéns!

  2. Pingback: Memória de Menina III | Coletivo Claraboia

  3. Pingback: Memória de Menina I | Coletivo Claraboia

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