Aquele cachorro do meu namorado

Quando penso naquele cachorro do meu namorado nem sei o que me vem à cabeça. Pra começar ele é lindo, daqueles lindos de moverem a admiração de mulheres e até de homens. Ele é daqueles lindos de grandes e ingênuos olhos azuis, tem um porte esguio e atlético, de movimento ágil. E como se não bastasse é amoroso, meigo, engraçado, esperto e brincalhão. Ainda por cima é dono de uma alegria imensa. Mas não passa de um cachorro. É mimado demais, faz o que quer na hora que quiser. A culpa, claro, é da família, principalmente do pai, que sempre satisfez os caprichos do menino. E hoje, eu, apaixonada, é que sofro as consequências.

Quando, certa vez, perguntei o motivo do nome Charles, o pai respondeu: “Porque quando ele nasceu parecia um príncipe.” E realmente, sobre todas as suas qualidades paira um ar de nobreza (mas, nesse mundo, o que não faltam são reis estragando seus príncipes). Constato inúmeras vezes que, mesmo eu me desmanchado em carinhos, ele prefere a companhia do pai. E hoje, eu, apaixonada, é que sofro as consequências.

Tantos mimos criaram um vínculo indissolúvel de dependência emocional entre Charles e o pai, de quem ele não fica sem, apesar de já ser um adulto. Essa dependência ficou mais acentuada depois da recente morte da mãe. Foram dias difícieis. No dia, Charles pareceu levar na boa, mas depois do enterro, não ficava mais sozinho, não comia mais e chorava o dia todo, a ponto do avô ter que ficar com ele quando o pai saia para trabalhar. Eu tentei ajudá-lo a superar a falta materna: comprei uma cama nova, um bichinho de pelúcia, fiz uma sopinha gostosa, que ele só comeu porque o pai deu na boca, apesar, lembro, dele já ser um adulto. E hoje, eu, apaixonada, é que sofro as consequências.

Não recebo mais as visitas do namorado, não saímos mais pra jantar, não passeamos mais, e, nos fins de semana, quando vou pra sua casa, temos que dormir os três juntos: Charles, o pai e eu. Foi até por sugestão minha que os dois passaram a dormir no mesmo quarto, o que fez com que a minha taxa de conjunção carnal no último mês caísse mais do que a Bolsa de Valores de Nova York no crash de 1929. E hoje, eu, apaixonada, é que sofro as consequências.

Manter minha intimidade, ou seja, num português-giria claro, transar, com o pai de Charles requer algumas estratégias (sim, eu transo com o pai do Charles. E quem não tiver nenhum pecado que atire a primeira pedra). O pai e eu temos que nos esconder ou botar Charles pra fora de casa, que ciumento sempre nos descobre e fica choramingo atrás da porta. Não há transa que resista. Tento conversar com ele, Charles, que definitivamente não entende. Eu, apaixonada, é que sofro as consequências.

Melhor encerrar por aqui. Hoje, feriado, Charles está distraído no quintal e quero aproveitar esse tempo com o pai, o meu namorado.

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Sobre sandrareginasantos

Nasceu em Londrina

  1. Texto divertido!!! Bom!!!

  2. Michele Barros

    Ah, aquele cachorro do seu namorado! rsrs Muito bom, Sandra! Adorei!

  3. Aí Sandra!!! Que história amiga! Parabéns!

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