Zazen: ou momento (nada) Zen

A dor que perpassa meu peito trás a lembrança de minha última morte. Foi exatamente assim! Da mesma maneira que das outras vezes também. Meu guru até ralhou comigo dizendo que já deveria estar acostumada com esse “pequeno incômodo”. Segundo ele, faz parte de nossa evolução.

Pensei, refleti, filosofei com aquilo que tenho em meus guardados de aprendiz e conclui: NUNCA vou me acostumar com tal dor! É diferente de todas as demais que já sofri. As outras doem na hora. A gente grita, rola de dor, maldiz a sorte que nos assolou, assopra e em pouco tempo ela vai cessando até que, em dado instante, nem lembramos mais.

Já essa dor…Ai! Ai! Ai! Essa não passa nunca, não acalma nunca, não dá trégua! Logo, o sofrimento é uma constante em nosso dia a dia. Dá desespero! Dá vontade de rasgar o peito e tirar pra fora o coração que já está pedindo arrego de tanto que apanha.

Às vezes, num exercício meditativo, me pego imaginando que consigo rasgar com as próprias mãos minhas entranhas. Avanço lá dentro, sentindo o quentinho da carne. Então pego com cuidado o orgão que fica o tempo todo fazendo TUM!TUM!TUM! E, num movimento rápido, arranco com tudo e arrebento com meus próprios dentes a sua ligação com o resto do corpo. Ainda o sentindo pulsar fortemente, finalmente consigo respirar aliviada depois de tantos anos sofrendo. O peito, aberto, exposto em sua interioridade, mostra artérias rompidas que jorram incessantemente o líquido vermelho. Em pouco tempo forma-se uma poça brilhante e pegajosa aos meus pés. Bonita de se ver! Começo a rir timidamente e, num ritmo cadenciado, vou arfando esse peito exposto e meu riso transforma-se numa gargalhada sem fim. Meus olhos, que antes brilhavam de tantas lágrimas de sofrimento, agora brilham de alegria e alívio. A dor se foi daqui de dentro! O sofrimento acabou. Encontra-se prisioneiro desse coração sofredor ao qual mantenho preso entre minhas mãos.

Consigo manter essa imagem por pouco tempo, pois ainda sou novata na arte de descolar minha alma do corpo. O guru me disse que se treinar com afinco, um dia consigo essa proeza por horas a fio sem danificar meu físico. Apenas com o poder da mente! Tenho sido uma árdua e disciplinada aluna fazendo a todo instante esse exercício. Só assim consigo acalmar essa dor. E quer saber? Por mais que estude, leia exercite tais ensinamentos zen, nunca vou aceitar esse sofrimento todo para apurar a alma. Pôxa! Será possível que não exista ainda outra forma de se elevar espiritualmente que não seja através da dor? Do sofrimento? Coisa mais sem graça!

Aí! Tá vendo só? Bastou me desconcentrar com tais especulações universais que, pronto: retornei ao meu estado natural de reles ser humano sofredor.

Ai como dói, como dói, dói!! Como dói MEU DEUS! a perda de um grande amor! Jogo-me ao chão, me desfazendo em prantos e gritando seu nome em vão. Em instantes, o guru sai de seu posto, levanta-me, apruma meu corpo e dá uma chamada federal:

– VOCÊ é o condutor de sua mente e seu corpo! Está em VOCÊ comandar e expurgar tal sofrimento. Limpe essas lágrimas e volte a se concentrar! Faça o mantra que te ensinei e CALADA, mentalize sua elevação!

Alquebrada física, psíquica e moralmente após essa bronca Zen, fio-me na minha insignificância e inicio meu minguado mantra com o pouco de dignidade que ainda restou:

– AUMMMMMMMmmmm (bem baixinho expresso meu pensamento: MERDA! Onde estava com a cabeça quando decidi me enfiar aqui nesse espaço zen pra curar dor de cornoUMMM?)

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. “Gente é pra brilhar / Não pra morrer de fome”
    Nem ter dor!
    Belo texto!!!

  2. Amiga, belo texto.

    Agora, nao tem Guru que dê jeito em dor de amor perdido. Nao tem mesmo. O negócio é vivê-la nua e crua na carne até que ela passe.

    Beijos

  3. Sei o que é isto…

    Perdi minha Teresa na estação Brigadeiro do Metrô. Não foi daquelas perdas onde alguém morre e você chora, como já tantas vezes ocorreu em minha vida. Nã foi não. Foi daquelas perdas piores, onde alguém chora e você morre. Morre por dentro. Só sobra sua casca andando por ai sem rumo pela Av. Paulista a fora. Procurando uma razão para voltar para uma casa vazia com um coração vazio e onde um corpo sem alma vai se jogar em uma cama vazia e fria. Como viver sem seu sorriso que continha um mundo inteiro, ou sem seu cheiro, pó de pir-lim-pim-pim, que me fazia voar sem sair do chão. Como ficar sem seu abraço indeciso e frágil. Como explicar uma perda que me matava e que, nem as rosas que eu lhe dera no dia anterior me consolariam no tumulo onde agora jazia uma alma inerte e automata. Foi assim que perdi Teresa. Numa noite de verão em que meu coração foi congelado e guardado num freezer até que outra paixão o possa incendiar e aquecer novamente.

    Este é um texto que escrevi um tempo atras depois de um chute em que sai catando lata e sem rumo, parece que a gente morre mesmo, mas como vc mesma diz, faz parte do aprendizado….

  4. Aline Viana

    hahahaha Ótemo 😀
    Adorei Roseli! Já fiz aula de meditação e sei como é um parto manter a mente vazia com tanta coisa fervendo por dentro.

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