Luiz e Luiza

Imagem – Celina Kfugii

 

1966 – Luiz com seis anos e seu ligeiro velocípede sobe e desce a rua. Luiza com oito e sua boneca Soneca recebe a visita da madrinha e tia. Ele, por querer, passa diversas vezes em cima da boneca. Nas primeiras vezes, Luiza chora aos cântaros. Na última, Luiz leva um soco no olho e uma cabeçada da boneca na boca.

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1969 – Luiza sempre fala que quem inventou a estratégia foi a prima Lucilla. Luiz entrega o primo Joel. No “beijo-abraço-aperto-de-mão” Luiza sempre escolhe o Luiz para o beijo. O contrário acontece também. Ficam naquele ”eu e você / você e eu” até a turminha preferir brincar de “mãe-da-rua

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1972 – No bailinho de garagem, Luiza dança pela terceira vez com o Casemiro, filho do padeiro, um bom partido. Luiz vem e disse que a padaria está pegando fogo. O padeirinho sai correndo, desesperado. Eles dançam Love me tender de rosto colado. Brincaram à serio de “beijo-abraço-aperto-de-mão” no caminho de casa dela.

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1975 – Aquele verão, Luiz passa com os primos em Ubatuba. Luiza viaja para Dracena. Ela ficou muito bêbada, jurupinga, e não consegue lembrar para quantos vigilantes noturnos deu naqueles dias. Já o melhor do Luiz, foi quando segurou a vela para o primo César.

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1978 – Luiz estava de plantão no exército, na guarita da frente. Luiza estava dando uns malhos no novo namorado, no carro, em frente ao quartel. Luiz pegou duas semanas de detenção. Luiza voltou de ônibus e o namorado teve de trocar sozinho os quatros pneus.

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1981 – Luiza e Luiz resolvem se aventurar pela Belém-Brasília de carona. Em Brasília, Luiz ficou na rodoviaria mais de oito horas esperando por ela que foi fazer “uma visita rapidinha“ para uma prima. Disse que almoçou, dormiu e perdeu a hora. Dias depois, Luiz quase morreu afogado em Paragominas. Sorte que Luiza sabia nadar. Depois do “boca-boca” ela confessa que em Brasília foi “dar uma rapidinha” com um vizinho do primo.

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1984 – Luiza se formou em Administração. Luiz cumpria muitas dependências em Letras. Na cantina, no final do ano, Luiza ficou muito louca: chá de lírio. Ela viu um coelho gigante que imitava o Michael Jackson e andou nua pelo campus cantando “Girls just want to have fun”. Luiz a levou para a republica em que morava. Lá ela vomitou na cômoda e diz ter cuspido dúzias de besouros. Dia seguinte: ela constata ter perdido o pivô.

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1987 – Luiz estava denunciando esposa que tentou envenenar a filha de dois anos. A mulher falou com a delegada de 13a, demonstrando frieza, que“não era depressão nenhuma! É ódio!” Contou que desde que a menina começou a falar, sempre dizia que sonhava com a “Tia Luiza”. Tudo era essa: “Tia Luiza”. Brinquedo novo: “mostrar pra Tia Luiza”. Comida gostosa: “levar pra Tia Luiza”. Bronca: “vou contar pra Tia Luiza”. Antes de se calar para sempre, afirmou que, se não estivesse lá na hora do parto da ingrata, teria certeza que era filha da “Tia Luiza”. Até o jeito de andar era igual. Luiza trai o primeiro marido com o futuro segundo marido duas cidades dali.

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1990 – Luiz foi para Caraívas, sozinho. Passou um mês e ficou hospedado com um casal de argentinos que brigavam e se estapeavam antes de um sexo meigo. Participou de duas competições de lambada, numa delas pegou segundo lugar. Luiza sofre um aborto, pois o segundo marido, um jornalista alemão, preparou uma carne ensopada com pimenta de murici.

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1993 – A raiva, a tristeza de ser traída e a TPM bordô profundo fez Luiza voar no pescoço da suposta amante do marido. A bem da verdade, não era amante, apenas ajudava o maridão em alguns exercícios na academia, além de ser halterofilista federada, lutadora de muay thai e promotora de vendas. Luiza teve que implantar mais dois dentes, colocar pino no punho e no cotovelo. Teve, por anos, a perda de olfato, um apetite insaciável por couve-flor e não conseguia enxergar a cor rosa. Luiz leva pela quinta vez a filha ao teatro. Ela adora a peça Pluft, o fantasminha.

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1996 – Luiza chegou bem depois da meia-noite. Estava desnorteada. Luiz serviu um chá de camomila e esperou mais de meia hora até que ela se acalmasse. Contou com riqueza de detalhes que o atual ex-marido havia ido para Mianmar fazer uma operação de mudança de sexo. Luiz segurou a risada e ofereceu a sua cama para que Luiza dormisse. Luiz dormiu com a filha que rangia os dentes. Pela manhã, a filha sugere um passeio para a Disney e Luiza topa ir junto.

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1999 – Luiz,tentando aprender tango, trincou o tornozelo esquerdo. Luiza, descendo de um taxi, trincou o tornozelo direito. Foram obrigados a fazer fisioterapia durante trintas dias seguidos. Depois das sessões, em alguns dias iam ao cinema, em outros, na biblioteca e nos restantes até um motel no meio do caminho. O namorado, o holandês, desconfiava. A segunda mulher nem ligava. A filha dele acha muito legal!!

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2002 – Na primeira apresentação do espetáculo Morte Vida Severina, da filha do Luiz, Luiza chegou bem depois do final. A jovem atriz ficou decepcionada e o pai, irado. Levou Luiza para um canto e falou como ela era irresponsável, aérea, insolvente, leviana, alheada, desatenta, distraída, trivial, arrebatada, estouvada, volúvel, delirante e tonta. Luiza pediu desculpa, disse que ficou sabendo que tinha câncer na mama. Luiz chorou de soluçar.

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2005 – Da Noruega, Luiza trouxe para o Luiz um livro sobre a lenda de Tristão e Isolda. Ele agradeceu e pediu para a namoradinha com metade da sua idade que traduzisse. A namoradinha topa, porém antes vão fazer rapel. Luiz constata que tem medo de altura.

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2008 – Luiz demonstrou o espanto de somente ver um só seio. Luiza se cobre. Luiz afirma sorridente que com um é mais fácil de brincar. Brincam, cantam e relembram do “beijo-abraço-aperto-de-mão”. A filha do Luiz os pega fazendo meia nove na sala. Gargalham.

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2011 – A filha vai a uma cartomante, que antevê as mesmas coisas de sempre, até que a bola de cristal cai no seu pé. Com uma voz fina, a cartomante prevê o Futuro: 2036, os netos de sangue e de coração rolam de rir!Luiz com setenta e seis anos em sua ligeira cadeira de rodas dá voltas pelo asilo. Luiza com setenta e oito e sua boneca Dengosa recebem a visita da tia e da madrinha da boneca. Ele, querendo, passa diversas vezes em cima da boneca. Nas primeiras vezes, Luiza chora aos cântaros. Na última, Luiz leva um soco no olho e uma cabeçada da boneca na boca.

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Plinio me deliciei em cada linha dessa história de vida de Luiz e Luiza! Maravilha!

  2. Aline Viana

    Adorei seu conto, Plínio! Os personagens são vívidos, bem-humorados e adoravelmente imprevisíveis. Parabéns, querido!

  3. Lilian Reis.

    Adorei conhecer seu cantinho e ler cada linha! Beijos e sucessos, Lilian Reis.

  4. Esses, sim, tiveram seus destinos traçados na maternidade. Ótimo!

  5. naneteneves

    Adoro essas histórias de amor a vida inteira, mesmo que um amor torto. O final, revivendo a história dos dois, é poético. Parabéns!

  6. Sheila Boesel

    Sou suspeita pa comentar Plínio, já que adoro o que tu escreves!!

  7. Odisséia sentimental, um romance completo, duas vidas em poucas páginas. Impressionante!

  8. Que vida, que sina, que destino, que história!
    Adoro sempre.

  9. Gostei muito desse conto, Plínio! Bastante interessante, inclusive pela estrutura concebida. E se é que lhe interesse alguma crítica construtiva, me pareceu haver uma certa discrepância no tomo final, onde a Luiza (já com os seus 78 anos, uma idade que já pode ser considerada bem avançada) recebe a visita de suas, tia e madrinha; o que, se não é impossível, é um tanto inacreditável, a de se convir; tendo em vista que estas sejam no mínimo, senão bem mais idosas, mais velhas ao menos uns 15 anos do que a mesma. E é claro, este é um raciocínio meu… Sucesso e abraço! Parabéns pelo conto e pela criatividade acima de tudo!

    • Prezado Frederico

      Agradeço as suas palavras e aceito a crítica e o alerta.

      O primeiro tomo quando ela brinca de casinha tem uma paralelo com o último, que também brinca …

      Tentarei ser mais preciso … muito obrigado!!!

  10. Por nada, Plínio! A minha crítica visa justamente construir e não depreciar. E que bom que enxergou por este prisma.
    Reparei, sim, neste paralelo, claro. E uma sugestão, se me permite, é que poderia ser (já nesse contexto final, e até como um contraponto) a visita, então, de uma sobrinha e uma afilhada.
    Abração!

  11. Daniela Batista

    romântica até no final eles se vêem no mesmo cenário da infância, gostei muito.

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