Ironman

O reflexo do teu rosto na tela do computador deu início à prova, Júlio, a primeira etapa compreendia memorizar o modo interrogativo com que você escutava os detalhes que o atendimento repassava sobre um projeto recebido; a segunda parte exigia prever a forma imprevisível com que você contornaria as mesas até chegar a sua, um ritmo inspiradamente bêbado, colidindo com quinas e conversas animadas; a terceira prova, a última, recrutava minhas retinas para registrar cada nota musical que sua voz utilizava, as cores graves de sua risada, a harmonia ruidosa que era você e eu não teria mais.

Era o último dia da minha antiga vida, a partir de segunda eu iniciaria em um escritório só meu, voo solo tímido, a companhia dos colegas de três anos seriam substituídos por uma samambaia americana, presente da avó Lorena, e o hábito de receber o salário fixo no final do mês seria trocado pela tarefa incansável de atender e criar cada projeto arquitetônico que batesse à minha porta, fosse ele um banheiro de cinco metros quadrados, casa-de-cachorro-estilo-boneca para uma fazenda ou a reforma de uma grandiosa antesala, pé direito onze metros, para uma distinta CEO de multinacional.

A mudança era mezzo necessidade de romper com a bolha de segurança – emprego estável, rotina desobressaltada, grana certa no final o mês -, mezzo a urgência de me afastar da insanidade que havíamos construído em três anos de trabalho, a farsa colega-nova-empossada-no-cargo-de-melhor-amiga encenada de segunda a sexta, horário sempre comercial, que era depois das dezenove horas que a cortina do palco descia e nossa realidade trocava segredoss em bares, misturava línguas e suor no teu apartamento ou andava de mãos dadas na casa da Jordana, a arquiteta mais antiga do escritório, caixa preta da nossa história.

Enquanto eu descartava a vida que não levaria das gavetas – flyers de delivery e promoções peça-prato-executivo-do-dia-ganhe-sobremesa + quilos de papel com projetos suados e antigos + dois post-its com fones importantes de gente que eu não lembrava + canetas sem carga + amostras de tecido velhas + clipes enferrujados, – fingia esquecer o primeiro dia na empresa, o caminhão de tintas estacionado em frente à entrada de carros, sua buzina marcando o número de caixas que os entregadores descarregavam, duas, sete, dezesseis, até você sair do carro, pedir o elástico que mantinha meu rabo de cavalo intacto e, de um jeito MacGyver que até hoje não entendi, criar uma engenhoca que manteve a buzina permanentemente acionada, sua indignação ensurdecendo a vizinhança enquanto você abandonava o veículo e sumia na rua de trânsito engarrafado.

É, Júlio, essa lembrança a pazinha não levou pra lata de lixo, fora as trezentas e oitenta e duas que colecionei ao longo desses três anos, durante cinco segundos eu até desejava que isso fosse possível, mas no geral eu me pegava analisando estes momentos com a lupa da curiosidade, me perguntando – agora que a índia paraguaia que você levava a tiracolo era parque de diversões das fofocas que nasciam em banheiros e corredores – como havia lubridiado minha inteligência com os highlights de amor que você me destinava, um telefonema subnutrido a cada dois meses, uma sessão de cinema que nunca aconteceu, as idas à Jordana compradas com choro e brigas, dormir pós-gozada nunca juntos, você esparramado à esquerda da sua cama, eu uma encolhida existência fetal no canto direito.

Quando a lupa da curiosidade foi substituída pela indiferença, essa planta que vingou após os dias se arrastarem por seis meses do calendário – e o momento nasceu quando surpreendi o beijo entre você e a imitação indígena – lentamente me preparei para o Ironman que encerrava hoje – primeira prova decidir-pelo-fim-do-monólogo-de-amor concluída, segunda prova conseguir-abandonar-o-emprego-sem-parecer-derrotada encerrada, a terceira e última prova – guardar com carinho a essência do que era você, essa combinação de catarse & doçura que havia atado meu corpo e minha alma com SuperBonder durante trê longos anos – finalmente, alegremente, dolorosamente, triunfalmente finalizada.

Imagem: KelseyPaigePhotography

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Caramba Setúbal! Adoro essas histórias! mandou muito bem menina!

  2. Miriam

    D+! Adorei. Saudades de vc, Setubal. Quando vai aparecer? Super beijo e sucesso sempre.

  3. Alessandro Garcia

    Sensacional o conto, Luciana. Parabéns.

  4. Sheila Boesel

    Legal ser tua parceira aqui neste espaço Lu, obrigada pelo primeiro convite (a Pós na Terracota)! Teus textos continuam crescendo e teu estilo amadurecendo, parabéns!!

  5. naneteneves

    Como amar pode doer! Mas separar pode ser um renascimento. Sinto dor e esperança na tua protagonista.

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