Teoria do Silêncio

 

Sabia estar sendo perseguido. Aprendera rápido – depois das várias surras – a desviar a mente, despistando a AnaC – Agência Nacional da Consciência. Havia sido pego por besteira e agora que tinha noção de como tudo funcionava, optou por jogar esse jogo, mas com suas próprias regras. Não haveria regras, portanto, e tudo o que lhe dava mais medo era sua gana de seguir em frente.

Passou três vezes pelo campo de reconscientização. A primeira foi, sem dúvida, a mais desagradável, o velho método do rato de laboratório, descrevia ele sem mais detalhes. Microeletrodos espetados na cabeça lhe davam a impressão de ser um porco-espinho às avessas: se falasse, se sorrise, se abrisse os olhos sentiria as picadas formigando sua pele; se tivesse qualquer tipo de pensamento que não estivesse dentro do que era classificado como Adequado, 70 volts correriam corpo afora. E mais uma vez, e mais outra, e mais outra. Não ter sido internado de vez depois da terceira sessão era considerado por todos uma sorte imensurável. E foi mesmo só na terceira vez que Fred entendeu o porquê.

As salas em que as sessões eram aplicadas se dividiam em três níveis: uma pela gravidade da contravenção, outra pelo histórico do réu e a última pelo comportamento dele após o tratamento, nos casos de reincidência. Ali conheceu gente de todos os tipos e aprendeu observando cada um deles pela regra da Física Antiga: ação e reação. Acha que foi o alvo mais fácil para os policiais, nunca resistiu a uma captura e nas duas primeiras foi indiciado por besteira, porque ainda não tinha as manhas. A terceira foi um teste. Que deu certo. Avaliou as suas duas passadas anteriores, o tratamento psicológico e moral que recebeu, e as comparou com o da terceira, comparou com os outros internos, e já desconfiava de algumas teorias.

De teoria mesmo não tinha nada, era tudo real, fato, e os antepassados já diziam que contra fatos não há argumentos. O difícil foi conseguir chegar em alguma conclusão tendo os pensamentos monitorados de minuto em minuto. Tinha que parar de pensar antes do início do rastreio. Eram cinquenta e cinco segundos cravados, no relógio holográfico da sala, e então mais uma vez sua cabeça formigava durante os cinco segundos restantes. As poucas vezes que se distraiu e perdeu o controle do tempo e sentiu as descargas elétricas descerem do pescoço até o pé.

Tinha, então, exatos cinco segundos para se desvencilhar do próprio fluxo neurológico e ao final da última sessão seus testes foram todos bem-sucedidos. Tanto pelo ponto de vista da AnaC, quanto do ponto de vista de Fred. Mas ainda sentia que não era suficiente, precisava arranjar um jeito mais eficiente de retomar seus pensamentos de onde se forçava a parar e assim conseguir ir além dessas teorias.

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. Belos caminhos ….
    Gostei ….
    Instigante

  2. Aline Viana

    Oi, Bia,
    Adorei sua incursão pelo adorável mundo da ficção científica. Este texto lembra um pouco o universo do Luiz Brás – quer dizer, se já evoca o mestre, começou super bem! 😀
    Este conto terá continuidade mais pra frente?
    Bjs,
    Aline

  3. Vou ficar no aguardo dos próximos capítulos!

  4. Bia conheci um outro lado seu que não imaginava! Amei essa sua incursão na ficção científica! Quero mais!

  5. É, Roseli, um momento ele tinha que aflorar! Vamos ver o que vem pela frente?
    Beijos!

  6. naneteneves

    Delícia lidar com o futuro, né? Ele é libertdor. Teu conto promete (e merece) continuação.

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