Tem um planeta atrás da estrela vermelha

Imagem: Chris Murray

Você não acreditaria se tivesse visto com seus próprios olhos. Também não acreditaria no pulo que o astrônomo, um nome chique que alguns cientistas preferem, levou quanto mirou seu gigante telescópio para um ponto meio perdido no céu. Sabe como é, se você quer algo diferente, dizem que você tem que fazer algo diferente. Então o tal do astrônomo girou seu telescópio apenas 55º sul e 82º leste. E tomou aquele susto de que falei no começo.

O que ele viu era um planetinha um pouco escondido atrás de uma estrela vermelha. Não há muitas estrelas vermelhas no céu. É difícil ver porque além de raras, elas são pequenas. E bem atrás de uma delas havia um planeta também pequeno. Quer dizer, na verdade ele era só distante. Coisas que estão longe parecem pequenas, você sabe. Como quando tentamos ver o que está no fim da estrada.

No tal planeta, que vamos chamar de Caeculus, fazia um céu azul como o nosso, encoberto por nuvens com formas de carros, baleias e bolas como as nossas. O astrônomo ajustou mais o foco do telescópio. E foi aí que ele caiu pra trás. No planetinha só tinha crianças e moças e moços. E filhotes! Gatinhos, cachorrinhos, elefantinhos e de borboletas. Borboletas são sempre crianças.

O astrônomo, que tinha caído com a banqueta e tudo, achou melhor pegar uma cadeira com encosto dessa vez. E decidiu limpar a lente do telescópio antes de olhar de novo com um pano úmido. Depois foi até a cozinha e fez um sanduíche de presunto: vai ver que era a fome que estava embaçando as coisas na visão dele.

Mas agora, devidamente instalado e de barriga cheia, as coisas não tinham mudado nada no planetinha. As crianças continuavam correndo de um lado para o outro, os meninos jogavam futebol e outros peteca. Uma morena lia um livro sob a árvore, dois rapazes tocavam violão para os amigos e outros estavam, estavam mesmo, começando a assar carne para um churrasco.

Para provar pra si mesmo que não estava maluco, o nosso cientista foi chamar um amigo para ver também aquela loucura. O amigo estava dormindo num canto do sofá porque só de manhã seria a vez de ele usar o telescópio, daí que ele reclamou de ter sido acordado, mas foi.

– João! Que lugar é esse?

– Eu não sei, não sei mesmo! Descobri agora há pouco. É igual aTerra. Quer dizer, não é igual. Parece uma chácara, né? Uma colônia de férias, sei lá. E por mais que eu olhe, não tem acho nenhum adulto.

– Também não estou vendo nenhum adulto e nenhum velho. Mas estou vendo dois bebês ali na beira do laguinho.

Miguel sugeriu que João mostrasse Caeculus para outros cientistas. Só que João não quis.

– Deixa disso, Miguel. Depois a gente mostra. Vamos lá primeiro.

Nos fundos do observatório, havia um foguete abandonado. Eles podiam dar uma limpada, consertar o motor, pegar alguns alimentos em miniatura na dispensa do laboratório de comida de astronauta, do outro lado da rua, e irem lá ver como era.  Não era assim tão longe: se eles não passassem pela lua, chegariam lá até que rápido. Qualquer coisa, podiam deixar um bilhete na mesa do Dubes, o astrônomo chefe.

João não anunciaria já a descoberta porque queria ir lá de verdade. Se contasse para todo mundo, iam escolher outra pessoa para ir. Um astronauta profissional. Desses que já cansaram de andar de ônibus espacial. Cientista nunca vai. É uma grande injustiça, só que acontece direto.

Tudo isso o João explicou pro Miguel, que acabou concordando e pedindo para ir junto.  Todo dia depois do trabalho, a dupla ficava no galpão reformando o foguete velho. Ninguém percebeu o que eles faziam porque todo mundo no observatório vivia muito preocupado em trabalhar.

Na madrugada em que eles entraram no foguete, João deixou um bilhete para a irmã, Bruna. Disse que ia viajar para longe, mas que daria notícias. E que a amava muito. Depois, achou melhor pedir também que ela avisasse a mãe. A mensagem para o Dubes foi o Miguel quem fez.

Chefe, desculpe, mas pegamos o foguete velho emprestado. Fomos para Caeculus. Foi ideia do João, que descobriu um planeta lá. Se você ajustar direito o telescópio para 55º sul e 82º leste vai ver ele lá atrás da estrela vermelha. Voltamos logo.

Um abraço,

Miguel

O Dubes achou que era trote. Pegadinha dos dois amigos. Mas no outro dia, eles não apareceram. Nem no resto da semana. Também não vieram no plantão de sábado e domingo. Nem apareceram para pegar o salário no final do mês. A namorada do Miguel disse que ele tinha ido viajar, mas não sabia dizer pra onde. Estranho, pensou o chefe.

Ele ainda demorou mais uma ou duas semanas para ligar pra irmã do João. Ela disse que ele tinha deixado um bilhete contando da viagem, mas não disse pra onde. Mas contou que o João mandou um e-mail dizendo que estava tudo bem anteontem mesmo.

Até que o Dubes desistiu de achá-los nesta terra e foi procurar onde tinha enfiado o bilhete do Miguel. A mesa estava cheia de mil papeizinhos, livros, pastas e envelopes. Arrumou tudo pra achar. Encontrou até uma bala de canela escondida no potinho de caneta e chupou. Teve que procurar nas gavetas. Cheias como estavam, ele as arrumou também. E achou, meio amassado, num cantinho, o bilhete do Miguel com as coordenadas do planetinha.

Mirou o telescópio lá nos 55º sul e 82º leste e viu um pontinho vermelho brilhante. Era uma estrela anã vermelha, como o nosso sol, que é amarelo. Tinha tantas estrelas assim no céu que nunca alguém acabaria de contar. Vasculharia aquele pedaço do universo igual fez com a mesa e as gavetas até achar esse lugar pra onde o Miguel e o João tinham viajado sem sua autorização.

E claro que o planeta estava lá: pequenino e meio escondido. Dubes chamou a Diana para confirmar o que estava vendo e essa chamou o Daniel e esse chamou a Natasha e logo todo mundo do observatório estava muvucado sobre o telescópio admirando aquele planeta novo. Perdido no cosmos.

Um bipe começou a tocar na sala. Baixo e depois cada vez mais alto. As pessoas perceberam, mas não sabiam de onde vinha. Na tela do Dubes piscava um alerta da nave de Miguel e João.

– Eles estão tentando se comunicar com a gente! Silêncio todo mundo – pediu o chefe.

Dubes colocou os fones nos ouvidos e a sala toda ficou quieta. Era uma mensagem gravada.

– Gente, estamos bem! Aqui é uma delícia. O povo é pacífico. Vocês conseguem nos ver daí? É muito legal mesmo. Eu e o Miguel vamos ficar. Aqui não tem nenhum combustível pra usar na nave…

A mensagem cortou. Ficou todo mundo apavorado. Como assim não iam voltar? O Dubes tocou de novo para todo mundo ouvir.

– Vão voltar sim! Ninguém da minha equipe fica preso no espaço. Vamos reformar o outro foguete. Quem topa ajudar no conserto da nave? E quem vai ser o astronauta? Natasha e Diana, vocês topam ir buscar os rapazes?

Todo mundo queria ajudar. Até a dona Malu, da faxina topou participar: prometeu levar lanchinho para quem fosse ficar à noite consertando o foguete pro resgate.

O bipe voltou a tocar. O som foi aumentando, aumentando até chamar a atenção de todo mundo de novo. Outra mensagem.

Dois meninos, muito parecidos com o João e o Miguel adultos apareceram na tela.

– Eu e o Miguel estamos bem. Já conhecemos um monte de astronauta por aqui. Cada um veio de um canto do universo. Tem um cara que veio dos lados de Andrômedra, uma menina de Ceres, sabe o planeta anão? E tem um grupo que veio num ônibus espacial da constelação de Telescópio!

– Vocês viram que todo mundo aqui fica mais novo, né? É bem esquisito. O planeta gira ao contrário. Dizem que é por isso que ninguém consegue decolar daqui. Quem entra não sai.

– E todo mundo fica mais novo porque o ar daqui é diferente. Em pouco tempo respirando, a pele vai mudando, dá umas tremedeiras, umas cócegas e uma sede danada. Daí quando se toma a água, puft! Já ficou mais novo! E daí depende: os velhinhos ficam moços e os mais ou menos ficam crianças.

– Olha, a gente até queria ficar conversando mais, só que a bateria da nave já está acabando! Vamos jogar um pouco de bola primeiro, comer umas coxinhas depois e daí a gente tenta consertar a nave e se der, mais tarde, faz uns experimentos científicos. Tchau!

E o João e o Miguel saíram correndo para junto dos outros meninos no campinho. A imagem foi sumindo devagar da tela. Não tinha jeito de ir buscar, quem fosse não poderia sair de lá. Ainda assim, os amigos prometeram pensar num jeito de resolver o problema aqui na Terra e avisar para eles lá.

A última vez que o Dubes jogou bola foi na escola. Ele era meia no time do Rodrigo, irmão do Juliano. Agora não jogava mais pião, nem andava de bicicleta. Comer coxinha, então! Impossível lembrar a última vez. Não era comida de adulto e a mulher não deixava. Ficou pensando muito tempo no escritório depois que todo mundo voltou pra casa. Tomou coragem e mandou uma mensagem para o Miguel e o João:

“Amigos, 

Vou consertar o foguete e já estou indo praí. Guardem um lugar pra mim no time! 

Um abraço do

Dubes

Anúncios

Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Belo texto!!!

    Vou jogar peteca e volto muito depois ….

  2. Parabéns! Linda história.

  3. Tom Fernandes

    Só minha amiga Aline pra escrever com tanta profundidade e simplicidade: “Coisas que estão longe parecem pequenas”. quando eu crescer, quero ser igual a você. Beijos do TOM FERNANDES!!!!!!!

  4. Muito boa sua história Aline! Viajei junto com eles! Acho que vou pra lá também. Cabe mais um?

  5. Aline Macário

    Adorei! Me lembrou os livrinhos que eu lia qdo era criança… Imaginei até as ilustrações… O planetinha não é a Pasárgada, mas bem que eu queria ir me embora pra lá! Bjs, obrigada por nos proporciona essa viagem!!

    • Aline Viana

      Oi, moça!

      Fico super feliz que você tenha gostado do conto e que e lhe tenha trazido tão boas lembras.

      Muuuuito obrigada 😉

  6. Ola…
    Isso é o que eu costumo chamar de Uma Grande História!
    Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: