Telefonema no Divã

Imagem: Dreamstime

Ontem o meu humor estava como a Bolsa de Xangai, uma sucessão de quedas. Reuni algumas coisas que queria fazer, mais um montante de obrigações e decidi reduzir o meu índice de risco. Ainda um pouco alterada, mas com os valores se estabilizando, fiz a primeira ligação.

– Olá, Bom Dia, meu nome é Maria. Como vai?

– Bem – respondeu. Com essa voz deve estar tudo ótimo mesmo, pensei maldosamente sobre a freqüente falta de educação das pessoas do outro lado da linha.

– Por favor, eu gostaria de falar com o Dr. Dias.

– Quem quer falar com ele?

– Eu , Maria.

– Maria da onde, meu bem? – neste momento, afundei a mão no rosto e me auto-esmaguei. Chamar-me de meu bem, pisou o meu calo.

– Maria, meu amor. Maria, jornalista – respondi. Foi quando ela replicou:

– Maria da onde? – falou com falta de paciência.
– Maria de São Paulo, Brasil – entrei na briga.

– Esta não é a resposta certa.

– Olha, eu não sou de nenhuma empresa, se é isso que você quer saber. É o meu primeiro contato. Eu sou Maria sem importância, sem garantias de lucro.

Ela queria saber um saber que nem eu sabia. Eu teria que provar a minha importância para conseguir falar com o tal Dr. Alguém?  

–  Sra. Maria eu tenho que preencher o que me pedem. Caso contrário não posso passar a ligação.

– Sou Maria, filha de Rita e Alfredo, neta de Francisca e Hélio, Eulália e Jaime. Família oriunda do continente europeu.

– Não é bem isso. Apenas me diga: Quem é você?

– Mas, garota, estou fazendo análise há dois anos para saber quem sou eu e você quer que eu responda o enigma da minha vida nesta ligação?

– Bom, se você não sabe quem você é acho que você não existe.

– Acha mesmo?

– Receio que sim.

– É, sempre achei que o problema era com vocês. Sim, vocês do outro lado da linha. Trabalham para facilitar o contato, mas vem com tantas perguntas que quase impedem a ligação. Ás vezes com voz de mal-humor e sempre com perguntas que intimidam. Quem é você? Maria da onde? Oras, ninguém sabe, nem eu sei.

– Veja bem, Sra, Maria…

– Não vejo nada e diga ao Dr. Dias que sou Maria da P#$CQ%¨P&.

– Ligação transferida.

Maria Esther é formada em pedagogia pela Universidade de São Paulo (USP) onde pesquisou temas relacionados à mídia infantil e relações de gênero. Trabalhou como jornalista em jornal impresso, televisão e escreveu contos infantis para o site de apoio ao professor da Editora Moderna. Participou dos livros “MundoMundano e os quatro cantos do mundo”, “MundoMundano e seu novo Mundo” (ed. Selo Prólogo), Abigail (ed. Terracota) e publicou A Cidade do Senhor Tempo (ed. Pingo de Letra).

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  1. Querida Maria Esther
    Muito benvinda!!!

    Texto pitoresco!!!

  2. Texto divertido e verdadeiro retratando o quanto é chato tais conversas ao telefone.

  3. José Carlos

    Esther, texto divertidíssimo. Gostei muito.

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