A morte espreita (um recorte)

O caçador

Juvêncio. Esse era seu nome. Rapaz de 29 anos, tez negra, estatura mediana. Vestia-se de forma um tanto recatada para um jovem de sua idade. Resquício da educação rígida que seus avós lhe deram. Natural de Santana dos Garotes, esse paraibano desde muito cedo aprendeu a obedecer a tudo e a todos sem jamais esboçar sua opinião sobre nada. Fala pouco e baixo. Olhar sempre mirando o solo, frequentador assíduo da igreja evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo, Juvêncio é a própria imagem da ovelha seguidora do Senhor. Segundo se comenta na empresa onde trabalha, ele nunca conheceu uma mulher. Nem mesmo um simples beijo deu. Trabalhando como cobrador há três meses, é motivo de chacota entre os demais cobradores e motoristas.

Seu cotidiano espartano não permite que tenha uma vida social como de tantos jovens de sua idade. Nunca foi a um baile, jamais entrou num cinema ou teatro. Show musical então, nem pensar. Ficar ao lado daquelas pessoas suadas, movendo seus corpos de forma provocativa…Deus do Céu! Isso é coisa do Satanás! Que, aliás, nem sequer pronuncia para não cair em pecado. Morando agora num cômodo minúsculo nos fundos da casa de seus tios, Juvêncio é a imagem viva de um ser purificado pela labuta e religiosidade.

…Mas não é bem assim…

Noite de quinta-feira. Av. Dr. Vieira de Carvalho. Point GLS, três e quarenta da manhã. Como sempre, muita coisa já rolou por aqui e agora, somente algumas figuras batidas circulam. Saindo do Caneca de Prata, uma bela e exótica mulher segue distraída. Ou quem sabe bêbada. Dá alguns passos incertos, atravessa uma rua, e entra noutra mais deserta e escura. Não percebe os passos silenciosos que a acompanham de longe. Muito menos a respiração contida e o suor que já brota na testa de seu seguidor. O olhar frio e calculista de um verdadeiro predador já presume a hora da caça virar comida. É só ter paciência e aguardar o momento certo para o bote. Feito um ser retilíneo, esgueira-se pelos cantos das ruas já antevendo o prazer. A adrenalina aumenta sua fome e seu tesão já vai se fazendo presente.

Mas, como bom animal de caça, faz-se invisível.

Feito cão farejador, sente o odor que exala da presa à frente. Delicia-se!

Cheiro de suor misturado com sexo, bebida e perfume barato! O prazer é tanto que chega a salivar. Baba. Limpa na manga de sua camisa xadrez.

Enquanto o caçador furtivamente persegue a presa, ela, à frente caminha sem nem imaginar o que se passa ao seu redor. Gazela distraída, prazer do lobo garantido.

A gazela da vez

Trôpega pelo cansaço, bebida e maconha fumada ao término de cada serviço prestado, retorna à sua moradia. Um pequeno apartamento que divide com mais três colegas de profissão.

Pensa na vida.

Avalia o quanto é humilhada diariamente. Durante o dia, pela vizinhança que sempre olha torto para ela e suas amigas. À noite, pelos inúmeros clientes que exigem que façam de tudo com eles. Não se importando se machucam, se a violentam, se a magoam. Com os machucados físicos já está acostumada. Anestesia a mente com a maconha ou uma pedra de crack para suportar qualquer tipo de dor causada pelas esquisitices e taras de cada um.

Já as dores da alma…Ah!!! Essa é impossível anestesiar. Não há pedra que sufoque tais dores! Por conta disso, tem pensado exaustivamente em parar com essa vida. Deseja sossegar e retornar para sua cidade natal no interior de Paraíso de Tocantins.

Hoje, vivendo aqui em São Paulo, tendo de matar vários leões por dia para sobreviver, sente-se o próprio anjo despencado do paraíso.

Deseja voltar.

Já há alguns meses tem planejado silenciosamente seu regresso. Não vê a hora de chegar à cidade deixando essa vida tresloucada pra trás. Tem guardado dinheiro, comprado alguns presentes para seus familiares. Ficou sabendo pela Berê, sua irmã mais nova com quem tem contato, que a cidade mudou muito desde que saiu de lá. Está desenvolvida, virou ponto turístico. Lembra-se com carinho e certa melancolia dos passeios feitos quando criança pelas águas cristalinas dos córregos Pernada e Buriti. Recorda-se das belezas naturais da Serra do Estrondo. Quantas vezes foram passear por essas paisagens tão belas! Sua família, seus amigos, fazendo piqueniques aos finais de semana. Uma dor insuportável acomete seu coração já tão cheio de dissabores.

Saudade! 

A espera 

Então é aqui que ela mora. – Pensa o predador escondendo-se atrás de uma banca de jornal que dá de frente para o prédio onde a gazela entra. Tem certeza de que mora aqui porque viu ela conversando com o porteiro que cumprimentou dizendo: Já em casa? Tá na hora sagrada do descanso não?

E percebeu que conversaram mais algumas amenidades e depois ela subiu.

Viu uma janela do terceiro andar se acender. Depois viu a silhueta tirando a roupa e dali a pouco, escuridão total.

Ela foi dormir o sono dos justo…Justo?! Que heresia dos inferno! Oh Deus! Desculpe esse meu pensamento torto! Mas essas coisa me tiram do sério mesmo! A safada faz o que faz, se atola em pecado, fere todos os mandamentos de Deus e ainda quer ter o direito de dormir o sono dos justo?!

Por outro lado…e EU? Eu que sigo corretamente os mandamentos divinos me privo dos prazeres mundanos, jejuo uma vez por semana para me purificar, oro diversas vezes ao dia para me proteger das tentações e não consigo dormir direito. Trabalho feito um condenado durante o dia e a noite tenho de fazer essa tarefa ingrata, mas necessária, de limpar o mundo dessas imundices!

Tá certo Senhor! É minha missão! Mas pôxa! Merecia um pouco de paz de espírito! Tô me cansano dessa vida de justiceiro de Deus! Dai clemência pai!

Quero paz!

E pensando assim, lembrou-se de sua infância lá na Paraíba onde só existia pureza entre as pessoas simples dali. Um dia ele foi feliz!

Desde que viera pra São Paulo e que conheceu esse antro de perdição que não teve mais sossego. Era tentação por todos os lados! Sua alma imaculada sofria constantemente. Que vontade de regressar para sua terra natal e voltar a viver da terra e do que plantava. Mesmo que fosse pouco, mas o suficiente já estava bom. Não precisava de muito mesmo!

Deseja voltar.

Já há alguns meses tem pensado nisso direto. Está se tornando uma ideia fixa voltar para suas origens e sair dessa loucura toda. Anseia apenas acordar cedo, olhar o céu azul, sem nuvens, ouvir o galo cantar, alimentar uns dois porquinhos, umas duas ou três galinhas, se der pra ter uma vaca pra tirar o leite de todo dia está bom demais. Se não der também não faz falta. Já viveu com bem menos e foi mais feliz. Uma dor atravessa seu peito.

Saudade!

 

 

 

Vem aí o 1º Sarau do Coletivo Claraboia. Participe!
20 de outubro de 2012
16h
Espaço Cultural Mo Li Hua | Rua Coriolano, 529 – Lapa
 
Mostre seu talento em poesia, prosa, música, artes cênicas. 
Inscreva-se pelo e-mail contato@coletivoclaraboia.com.br até o dia 19/10.
Venha!
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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Marilda

    Parabéns, muito bom!!! Aguardo continuação.

  2. Já estou na espera do próximo capítulo.

  3. Márcia Muller

    Uau!!! Estarei aguardando anciosa à leitura dos próximos capítulos. Um grande abraço!

  4. Lu Guedes

    Confesso que eu delirei aqui Roseli com as possibilidades da continuidade. Uma trama branda, que vai num crescente interessante. Seduz e nos leva a trazer os personagens para perto. A cidade de São Paulo é cheia de logarítimos. São muitas as possibilidades…

    Me avise quando postar a continuação…
    bacio

    • Lu receber um comentário seu aqui é muito prazeroso. Saber que minha trama está conseguindo prender a atenção de todos me dá vigor para dar prosseguimento a história. Estou encantada com os personagens que criei e tenho convivido com eles. Assim que aprontar mais um capítulo, aviso. Bacio

  5. Edilene Venancio Pedroso

    Á cada novo texto cresce a vontade de aguardar o próximo texto,pois tenho certeza que será um grato prazer.Parabéns ,cara escritora,sua escrita revela muito de sua alma delicada e sútil.

  6. Adorei a dupla personalidade do personagem, um santo assassino. A história tem bom ritmo, e suspense. Espero a continuação.

  7. Maysa Barbosa de Aguiar

    Vibrante! Com certeza pede continuação. Parabéns! grande beijo!

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