Genoveva

Gravura (1854) por Hugo Bürkner após um desenho por Júlio Hübner

Ninguém tira a Genoveva para dançar.

Ninguém.

Talvez por causa da sua altura.

Faz muito frio ai em cima?”

Ou do seu jeito.  Ou do seu sutiã número 30 com enchimento. Ovos estrelados.

Ou das suas pernas longas.

Ninguém. Aflição. Ânsia. Desassossego.

Acho que aquele bolo de caneca não me fez bem!”

Toca “Dancin’ Days

No “Grease” ensaia mentalmente os passos

Ouvindo “You’re in my heart” balança a cabeça e ninguém tira para dançar.

Receio. Desejo. Sofreguidão

Até que um grandão convida.

Todos os observam

Que bonito casal!!!”.

Ele tem um olhar que a deixa ardida.

Uma voz para declamar muitos contos de fada.

Acho que aquela torta de frango não caiu bem!”

Ele a leva extasiada para centro do salão.

Samba Rock

A excitação a desarranja

16 toneladas”.

Ela desencarcera um peido.

Estrondoso.

Longo.

Quase pedante.

Ele dá um passo para trás. Ofendido

Todos dão um passo para trás. Agredidos

Toca “Zodiacs”.

Genoveva vai para o seu canto. Pega uma cerveja.

Senta, estica as pernas, arregaça o vestido até o meio das coxas e arranca os sapatos.

Não existe pecado ao sul do Equador”. Toma tudo em um gole só.

A bufa ainda ecoa nos olhares.

Toca “Perigosas”.

Um baixinho para e a encara.

— Você peidou na minha cara, sabia?

Genoveva inicia uma fieira de desculpas

— Dança comigo?

Genoveva ri. Ele parece estar falando sério.

Genoveva duvida. Ele a puxa pela mão.

Toca “Amanhã”

— Você pode me levar — grita o liliputiano

Dançam.

No final da noite, Genoveva procura um degrau para poder beijar novamente.

Vem aí o 1º Sarau do Coletivo Claraboia. Participe!
20 de outubro de 2012
16h
Espaço Cultural Mo Li Hua | Rua Coriolano, 529 – Lapa
 
Mostre seu talento em poesia, prosa, música, artes cênicas. 
Inscreva-se pelo e-mail contato@coletivoclaraboia.com.br até o dia 19/10.
Venha!
Anúncios

Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. É isso aí, Genovevão!, nem tudo está perdido. Muito bom.

  2. Aline Viana

    Grande Genoveva! O jeito é não perder o rebolado, rsrsrs

  3. Está vendo só como toda panela tem sua tampa? Até ela encontrou! Grande texto Plinio!

  4. Lena

    Entrou para o rol dos meus favoritos! Simplesmente ótimo!

  5. Grande Plínio. Sempre divertido, sempre musical!

  6. Amei essa Genoveva, autêntica! rsrs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: