Periastro

Te ver depois de tanto tempo devia ser proibido pela lei-natural-das-coisas, S., aquela entidade que prega “filhos não deveriam morrer antes dos pais” ou  “mulheres devem engravidar até os trinta”, era impossível esconder o MMA que virou meu estômago, e quando teu rabo de olho encontrou o meu rabo de olho, S., o desejo frustrado que a gente nem admite, nem pode irrompeu, bolha de lava vulcânica, vinte e três segundos de expectativa, estoura-não-estoura, crescendo cada vez mais, mais, mais, e mais, até explodir, floco de erupção corroendo suave a certeza de que tudo que existia entre nós havia definhado seis anos antes.

Sabe aqueles locais que a gente frequenta com a possibilidade calculada de vislumbrar o passado, o perigo de rever o sorriso que se conhece tão bem sempre à espreita, tropeçar e ser amparada não pela mão gentil de um desconhecido, mas risco de emplacar cena de cinema, encontrar a mão que já percorreu seu corpo com sede e bebeu você inteira, sem gota no fundo da lata, Coca-cola consumida  às pressas na manhã de ressaca?

Pois é, foi assim, com o crime em mente que aceitei o convite para encontrar a turma na praça do bairro, centro nervoso do fim de semana, fazia verão inclemente a Deus e qualquer santo, a cidade fervilhava ali, logo anunciariam a escola campeã do Carnaval de rua do ano, e topar com você, S., fazia parte da fantasia alá-lá-Ô-ô-ô-Ô-ô-ô-Ô que eu havia costurado ao longo do trajeto ônibus-São-Paulo-Curitiba, os últimos arremates executados nos três dias percorrendo locais comuns à nossa história, o botequinho em que empanturrávamos a fome com caipirinha, pastel e confidências, o café onde o projeto comum de salvar o mundo por meio da arte era elaborado a quatro mãos, as ruas e mais ruas onde meu amor por ti havia crescido sem limites, ignorando sarjeta, pedras e bitucas de cigarro, erva-daninha invadindo qualquer vão de pedra.

Já era a quarta rodada de uma cerveja com temperatura Saara comprada de um ambulante, e a conversa brincava de bola de cristal de vidente charlatã, não, a escola Y não seria a campeã, sim, a escola x seria desclassificada, não, fulana não tinha peito nem bunda pra ser madrinha de bateria, sim, ainda faltavam uns 200 anos para as calotas polares finalmente derreterem, não, o futuro da indústria cinematográfica não seria negro, apenas cinza-claro, não, não estou a fim de conhecer seu apartamento novo e abrir uma champanhe esta noite, sim, é exatamente isso que você ouviu.

Quando eu dava o quinto despiste na mão boba que conheci através dos meus amigos, a cerveja descendo preguiçosa pela situação bêbada de irrealidade, meu olho pescou tua presença serpenteando entre foliões eufóricos, “Mocidade/Agora eu sou feliz/Mocidade/Você fez por mim/Agora é por você”, Mocidade bicampeã, eu não tinha acompanhado o resultado, a praça mar azul de uma só voz, tua camiseta vermelha um holofote gritando olha pra mim, e foi impossível fingir cegueira, ou focar a atenção no idiota que me cercava a noite inteira, ou procurar um fiapo de cutícula imaginário nas unhas, ou qualquer outra das numerosas possibilidades que nos impedem de enxergar aquilo que a razão já havia enterrado com pompa e circunstância, mas que a emoção teimva em ressuscitar com reza brava.

Também impossível não perceber a presença morena com você, fazer as indevidas comparações, mais baixa que eu, cabelo menos curto, sem bunda-com-peito, o que ele-viu-nela, o que-ela-viu-nele, viu o que eu vi, mais do que eu vi, ou nem viu, vontade de trocar figurinha, ele também fala em correr o mundo com você, já curou a crença de acreditar que pepino e chocolate combinam, continua dormindo de conchinha, a noite inteira agarrado como se o mundo fosse acabar sem dar tempo dos corpos se despedirem, descobrir se alguma mania mudou, ainda guarda o chinelo debaixo da cama, continua sem deixar louça na pia, saber se os sonhos e projetos em comum eram exclusividade de vocês, ou simplesmente foram transmitidos, via contágio, ou forma hereditária, à paixão da ocasião.

Então nesses vinte e três segundos em que o crime de rever você se materializa, S., em que cada movimento teu recuperava alguma lembrança da época das cavernas, sim, milhares de anos separavam nosso fim deste momento-agora, eu percebia tarde, demasiadamente atrasada, o quanto havia sido enganada, a paixão por ti sendo preservada à minha revelia, arte rupestre protegida sem pistas por esta ciência tosca que é o amor, e o que parecia feito da brevidade do confete pingado no chão, o que eu sentia por ti, S., havia se metamorfoseado em cometa, Halley, sim, novamente riscando o céu, imergindo, emergindo, órbita intermediária, de tempos em tempos, seis em seis anos, dez em dez, fosse lá o tempo que eu levaria para te rever, o fato é que havia impregnado ad eternum minha existência.

Imagem: Aicrom

 

 

Vem aí o 1º Sarau do Coletivo Claraboia. Participe!
20 de outubro de 2012
16h
Espaço Cultural Mo Li Hua | Rua Coriolano, 529 – Lapa
 
Mostre seu talento em poesia, prosa, música, artes cênicas. 
Inscreva-se pelo e-mail contato@coletivoclaraboia.com.br até o dia 19/10.
Venha!
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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Gostei, Setúbal. Do desenrolar sem fôlego do personagem que mais uma vez vai ter que esperar. Sina? De todos nós.

    • lsetubal

      E esperar é sempre tão penoso para quem vive a vida pra ontem, não é? Obrigada pela leitura e pelo comentário. Beijocas! 🙂

  2. Setúbal. Cada linha mais madura!
    Belo texto.

    • lsetubal

      Espero que eu não apodreça e caia do pé, né Plínio? Hehehehehe Mas talvez cair do pé traga algo positivo, não é? 🙂 Beijocas!

  3. Uau Lu! Que texto bárbaro menina! Parabéns!

  4. uau!
    (depois desse texto dá até vergonha de escrever qualquer comentário)

    • lsetubal

      Vergonha é algo que não deve existir no nosso vocabulário de escrivinhadores.
      Beijocas, Dê, sodades de ti! 🙂

  5. Maria Esther

    Dá vergonha mesmo…
    Nossa, gostei muito Lu!
    Maria Esther

  6. Lu, querida! Texto avassalador, essa é a palavra que ao término surgiu em meu pensamento. Quantas e Tantas situações nos envolvem desta maneira. Parabéns pelo texto, mocinha! bjs e inté

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