Sábado no Shopping

Sapato gigante por Peter Griffin

Sapatos gigante por Peter Griffin

Só mesmo um louco arriscaria ir ao shopping na véspera do Dia das Mães. Ou alguém muito desorganizado a ponto de deixar para comprar o presente na última hora, mesmo sabendo que as conseqüências seriam trágicas. Pode me incluir na categoria que achar melhor.

O estacionamento do shopping, é óbvio, estava lotado. Encontrar vaga era uma luta. Mas o que tornava a situação mais desesperadora era que eu estava louco para ir ao banheiro. Se procurar vaga em estacionamento já é irritante, imaginem como eu me sentia. Em vão minha mulher tentava me acalmar:

—Calma, logo a gente acha uma vaga.

Depois de muita luta, trocas de olhar feio, caretas e xingamentos, finalmente consegui estacionar. Não venci, entretanto, a guerra, apenas a primeira batalha.

A segunda foi a fila do elevador. Meu Deus, como demorou! E quando chegavam, estavam sempre lotados. No desespero, nos enfiamos num deles. Estava tão apertado quanto o metrô às seis da tarde, linha leste-oeste. Apesar de tudo, consegui não explodir.

Descemos no primeiro andar com lojas, minha mulher ficou olhando vitrines enquanto eu corri para o banheiro. Quando estava mais aliviado, percebi um barulho de salto alto se aproximando. Toc, toc, toc. Uma louca entrou no banheiro dos homens! Coitada, devia estar desesperada, sei como é. Mas, ao contrário do que eu esperava, ela andava tranquila. Vi seus pés quando passou em frente à minha cabine: sapato preto, alto, dedos para fora, unhas pintadas com esmalte escuro e avermelhado. Uma questão: por que, nas cabines de banheiro, as portas não vão até o chão, deixam aquela abertura embaixo?

Este momento de reflexão foi interrompido pelo barulho da porta se abrindo: chegava alguém. Que dó — pensei— a mulher de salto vai pagar o maior mico. Pois ela não ligou, nem se mexeu, continuou parada em frente à pia. O cara de tênis passou por ela sem dar atenção. Que estranho! O pé dele era muito pequeno, só se fosse um garoto. Contudo, prestando mais atenção, concluí que o modelo de tênis era feminino. Logo, era mais provável que eu estivesse no banheiro feminino do que duas mulheres no banheiro dos homens. Havia, porém, outro detalhe: este sanitário não tinha mictório, o que é raríssimo em banheiros masculinos.

Se eu quisesse evitar confusão, devia esperar que elas saíssem. Primeiro saiu a garota de tênis, depois foi a mulher de sapato alto. Toc, toc, tchau, tchau, toc, toc. Preparado, não perdi um segundo, mas só consegui dar três passos antes de ver a porta se abrindo e correr para outra cabine. Eram agora duas mulheres, uma com tamanco de madeira, outra de sandália de couro. Conversavam animadas sobre uma tal Marina, que estava gorda, acabada e tal, que o marido dela, apesar de enxuto, estava ficando careca, e ela estava ridícula com aquela roupa. Tudo isto intercalado com perguntas sobre o cabelo uma da outra, maquiagem, e respostas enfaticamente positivas. Então é isso que elas falam no banheiro?! Eu me senti decepcionado, pois embora elas também falem dos homens, o assunto principal são elas mesmas, mulheres, roupas, acessórios, ou melhor, como as outras se vestem mal.

Neste meio tempo entrou uma terceira mulher, mas, distraído com a conversa das duas, não percebi se ela havia saído ou ainda estava no banheiro.

De uma hora para outra, as mulheres começaram a falar baixinho e os quatro pés apontaram para minha cabine. Então, o silêncio. Meus sapatos masculinos haviam me denunciado. Tão logo elas saíram do banheiro, decidi fugir, pois as duas com certeza foram chamar a segurança. E se a terceira mulher ainda estivesse lá dentro? Precisei arriscar… e tive sorte.

Nos corredores do shopping, percebi que eu era um alvo fácil: meus sapatos, de alguns anos atrás, estavam fora de moda e não havia par algum igual ao meu circulando por ali. Maldito consumismo. Após elas terem demonstrado o poder de observação feminino, eu sabia que seria facilmente localizado. Mas quem me encontrou primeiro foi minha mulher:

—    Você demorou… Está passando mal?

—    Já estou bem — respondi — e preciso comprar um sapato novo.

Ela, bastante surpresa, me acompanhou. Dentro da loja, enquanto experimentava sapatos, expliquei à minha mulher o que havia acontecido. Ela se divertiu:

—    Eu falei tanto, mas não adiantou, só assim para você comprar outro sapato.

Saímos da loja abraçados, eu calçando sapatos novos. A aventura, entretanto, não havia terminado, pois faltava ainda comprar os presentes para o Dia das Mães.

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Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. Rogério que aventura não? Vou confessar: já entrei várias vezes em baheiro masculino por pura distração e desespero, rsrs. Muto bom seu texto!

  2. Bom que gostaram. Um grande abraço!

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