Escolhas

Foto: Fernanda Frias

E então Rúbia mandou tudo à merda. Com exceção do chefe, que achou mais pertinente mandar à puta-que-o-pariu.

Enfim desistiu. E desistiu não só porque já não aguentava, foi mais é por amor próprio, depois que se olhou no espelho e assustou com a imagem: fios brancos, boca esbranquiçada e ombros caídos. Pior: alma amarelada, olhar fosco. Não precisou pensar duas vezes e na primeira mesmo avisou os pais que iria embora, não tinha endereço e que talvez não ligasse nunca. Por mamãe, talvez… Nem deu tempo para assimilarem a nova condição, pegou uma blusa qualquer, dez reais de sobre a mesa e largou a chave na porta. No caminho, passou pelo mercado Tudibom em que trabalhava e seu berro ficou famoso por duas semanas consecutivas, virou até um tipo de cumprimento – tchau, seu Arcides, até amanhã e vai pra puta-que te pariu!. Só mesmo o seu Arcides pra não gostar da saudação. Pro namorado, Rúbia sequer mandou recado, e ainda que lembrasse o número do celular dele de cabeça, fez questão de fingir que havia esquecido, porque esqueceria também dos momentos bons, das transas gostosas e das risadas. Fingido, tudo fingido, e seria fingida também a amnésia no caso de um dia esbarrar com ele ou com qualquer outro ou outra. Deixou pra trás tudo o que pudesse trazer lembranças, boas ou ruins, de qualquer momento anterior àquele, e no pacote jogou amigos, familiares, vizinhos, conhecidos, todos. Vida nova será daqui pra frente, e decidiu também que esqueceria como escreve e, aos poucos, como fala. Em sequência, passaria a se maravilhar novamente com tudo ao seu redor, como se fosse seus primeiros momentos com esse novo mundo, perderia a firmeza das pernas, engatinharia e por último, apenas choraria e cagaria nas calças. Viu-se sendo cuidada por pessoas estranhas, banhos duas vezes ao dia, leite puro e quentinho, papinha, carinho, tetas gordas e cheias à sua disposição. Adorou. Mas tropeçou no cobertor do mendigo que morava na esquina e se previu foi é encaixada num manicômio, medicada de tarja preta e tachada de doente mental. Regressão compulsiva irreversível seria seu diagnóstico. Adorou. E foi adiante para apresentar seu mais novo roteiro de monólogo.

Anúncios

Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. É isso aí! As vezes precisamos radicalizar para sermos nós mesmos! E dá-lhe puta que o pariu! OH gosto bom que fica na boa e na alma quando expressamos isso. Adorei Bia!

  2. De repente vemo-nos em tamanha cilada que o jeito é mesmo escapar… de tudo e de todos… até de nos mesmos.
    Bjuss

  3. Rosaly Maria Stefani Ozorio

    Virada de página, tudo branco, reescrever a vida! Gostei muito, saudades d’ocê, Rosaly

  4. Maria da conceição stehling melo

    As vezes temos esses momentos de desespero e vontade de passar uma borracha nos anos vividos e recomeçar tudo! ainda berm que essa vontade logo passa….

  5. Forte e bem humorado ao mesmo tempo. Boa mistura.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: