Noemi sabe contar

Boneca de pano por Yana Ray

Boneca de pano por Yana Ray

Noemi sabia contar até sete. Uma pedrinha no saquinho: o dia passou rápido porque tio Fortunato contou uma história bonita ou tia Olívia fez doce de figo. Uma pedra maior: o dia foi comprido demais, muita saudade da mãe, do pai, das irmãs, dos irmãos, do pasto para correr, da boneca Rita, da bergamoteira para brincar de esconde-esconde.

Tomé é quem lhe ensinou a contar. O irmão mais velho trabalhava nos pastos do tio Fortunato e vinha para casa só de vez em quando. Numa das visitas, ele e os pais ficaram conversando depois da janta. Noemi estava na cama e custou a dormir, parecia que o assunto era muito importante.

No outro dia, antes do sol aparecer, a mãe lhe acordou primeiro que aos outros.

– Tu vais viajar com Tomé.

– Mas por que, mamãe?

– Já estás grandinha, podes ir passear.

Quando passaram da porteira, percebeu que Rita ficou esquecida entre as cobertas. Tudo havia sido tão rápido, achou que as irmãs nem acordaram quando lhes deu um beijo de até logo. O pai e os irmãos já tinham ido para lida, não viu nenhum deles. Só a mãe ficou na porta, acenando de vez em quando.

Ficava lembrando disso tudo e procurando uma pedra maior, porque nessas horas, se soubesse o caminho, largava o saco de pedras, a nova boneca e saía correndo para voltar para a casa. Os tios não eram ruins com ela, mas ela queria a mãe, os irmãos e as irmãs, o pai, o pasto, a bergamoteira, a Rita.

É verdade que o irmão mais velho vivia ali também, mas ele dormia com os outros peões, e não como ela, na casa dos tios. Quando enxergava Tomé, perguntava:

– Quando vai terminar esse passeio? Quero ver a mamãe.

Ele respondia com outra pergunta:

– Tu ainda sabes contar?

E pedia:

– Me traga um pedaço de pão com chimia.

Quando ela voltava com o pão e mais um pedaço de linguiça, ele já tinha sumido.

Então tio Fortunato lhe ensinou a contar para frente de sete. Já fazia tempo que ela não mexia mais no saquinho. Ele tinha ficado pesado demais, mesmo ela esvaziando nos dias em que estava contente porque Tomé havia dito que ela iria junto da próxima vez que ele fosse para casa, ou porque havia sonhado com a mãe, com Rita, a bergamoteira e as irmãs, os irmãos e o pai no pasto.

Um dia, Noemi estava sentada embaixo do pé de butiá e tio Fortunato estava passando.

– O que está fazendo, criança?

– Contando até sete.

– Por quê?

– Porque o Tomé me ensinou.

– Tu sabes que existem mais números?

E, ao invés de um saquinho e pedras, grandes e pequenas, ele usou apenas duas. Uma pedra pequena para riscar uma grande.

– Cada risco é um número. O que você conta, Noemi?

– Os dias que faltam para ver minha mãe, abraçar meus irmãos, brincar com a Rita e minhas irmãs, comer bergamota, correr pelo pasto, acenar para meu pai.

– Minha filha, então você faz assim: todo dia, depois de ajudar a tia Olívia com o almoço e a louça, tu vens aqui e risca a pedra grande. Mas só pode fazer um risco por vez. Cada risco vai representar que mais um dia passou. Depois do sete vem o oito, depois do oito vem o nove, aí vem o dez, depois o onze, em seguida o doze. Mais um dia é treze, outro risco é catorze, então é quinze, dezesseis, dezessete.

– E em dezessete eu vou para casa?

– Noemi, existem mais números, mas agora tenho que ir para a lida. Outro dia te ensino adiante de dezessete.

Só que eu não faço como tio Fortunato me mostrou. Quando lembro do meu pai montado no baio ou da Rita esquecida no meio das cobertas, venho, antes do almoço até, e faço logo uns dez riscos. No dia que tenho saudades de correr com meus irmãos pelo pasto ou de brincar de esconde-esconde com minhas irmãs embaixo da bergamoteira, faço todos os riscos que sei. Quando sinto muita falta de minha mãe, seguro a vontade de chorar e risco a pedra até cansar. Precisava umas três meninas do meu tamanho para abraçar a pedra, mas não acho mais lugar pra riscá-la. Da próxima vez em que eu encontrar o Tomé, não vou buscar pão nem querer aprender mais números. O que quero é ir pra casa.

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Sobre Sheila Boesel

SHEILA BOESEL nasceu em 1976, em Santa Cruz do Sul (RS). Formada em jornalismo, trabalha com escritos, sejam próprios ou encomendados. Mudou-se para São Paulo em 2008, mas ainda estranha quase tudo. Gosta de histórias desde a encarnação em que foi traça e, se lembrasse as aventuras que vive enquanto dorme, possivelmente iria tentar a sorte em Bollywood.

  1. Marcus

    lindo texto, os olhos enchem de lágrimas!!!

  2. Marcelo

    Muito bom Sheila, adorável o conto, pude viajar nas suas palavras. O texto nos faz sentir estar no lugar da menina e sentir todo seu desespero e solidão, sua carência!
    Sucesso!!!

  3. Marisane

    Adoramos o conto Sheila… Vai juntando todos para mamãe ler para a gente. Hehehe

  4. Claudia

    Lindo! Lindo! Que saudade de ti!! Mil beijos!! Parabéns, teus textos estão cada vez melhores!!

  5. Sabrina

    Faço minhas as palavras do Marcus! Meus olho encheu d’água!

  6. Aline Viana

    Lembro de ouvir a Sheila lendo esse texto na aula do Marcelo Maluf e ter pensado “cara, eu ainda tenho que comer muito arroz com feijão nesses negócios de escrever. Que texto BOM!!!”. Opinião que só se reforçou agora lendo e “ouvindo” a Sheila narrar.

  7. Fiquei de boca aberta que nem burro que comeu urtiga

  8. Maysa

    Querida amiga, que saudades. Num piscar de olhos fui lá no fundo do meu coração buscar a minha infância. Bjo no coração.

  9. Situação angustiante, personagem encantadora. Belíssima história.

  10. Delicadeza. Única palavra capaz de exprimir esse talento para falar de sentimentos e de saudade com tanta habilidade. Emocionante.

  11. Débora

    As crianças tão bem personificam as angústias verdadeiras.

  12. Belamente triste. É uma boa forma de ensinar o conceito de saudade às crianças, mesmo em aulas de matemática. ^^

  13. Michelli Putinato Borges

    Ai fiquei imaginando eu mandar minha pequena em uma via gem achar do que é legal e Ela ficar contando pedrinhas pra me ver. Ai que dó!!! lLinda

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