O Mal-Amado

Os vizinhos estavam acostumados. Nos últimos doze anos, ao menos duas vezes por ano, boa parte do quarteirão ouvia, primeiro os gritos, depois o barulho de louças quebrando, de microondas se espatifando. O som do tubo da televisão explodindo já não assustava. “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.” Dessa vez, no entanto, a intensidade deixou a vizinhança alerta.

O marido começou lançando o prato que jantava na parede. A esposa tinha o dom de, com poucas palavras, o inflamar. “Eu não tenho nada pra falar.” Os vizinhos não entendiam como um homem gentil e calmo se transformava num… “monstro!” Os olhos, a boca, sua feição, ele parecia mesmo outra pessoa. “Você nunca me amou.” Com um soco rasgou a tela de LCD – a terceira parcela da tevê vencia no dia seguinte. O cristal líquido se misturou ao sangue de sua mão. Tudo que havia sobre o rack voou pela sala. O rack também voou pela sala.

Apesar da violência contra os móveis e eletrodomésticos ele não tocava na esposa. Por isso ficou mais irado quando ela correu para o quarto e trancou a porta. “Abra. Vamos conversar!”

O silêncio doía. Sempre doeu. Mas não deveria culpá-la de nada. Não havia novidade. Ele sabia, desde o início do namoro, que teria de amar pelos dois. Inflacionado pela juventude, calculou o percurso errado e agora, em pleno voo, faltava combustível.

O homem não arrebentou a fechadura, mas destruiu a porta. A mulher, deitada de bruços na cama, apenas chorava. Com a boca encostada no ouvido dela, ele berrou que não era um monstro, “nunca bati em você”, então, que parasse de chorar. “Vamos conversar?” Ela continuava chorando. Ele implorava. Esmurrou a parede. “Eu não tenho nada pra falar.” A cômoda virou um monte de madeira. O álbum de casamento foi rasgado como páginas de um velho jornal. O notebook aterrissou na calçada – uma vizinha guardou para depois entregar.

Descalço, cabelos desgrenhados, com as roupas rasgadas e ensanguentado o “pobre coitado” foi visto correndo pelas ruas do bairro. Gritava para o mundo que não era um monstro, que só queria ser respeitado, amado. Desde aquela noite ninguém soube mais dele.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Muito bom!!!
    Temo que tenha vivido isto!!!

  2. Caracoles… que verdade você achou nisso Glauber!
    Muito real, escutei tudo se quebrando, juro!

  3. Como um moço tão pacato escreve coisas tão violentas?
    adorei primo, isso sim é viajar…

  4. Gláuber que texto! Entrei no cenário e me vi desviando de tudo quanto era objeto estilhaçado. Parabéns!

  5. Texto muito bom! Pra escrever não se pode ter pena dos objetos; nem das pessoas, infelizmente!

  6. É isso mesmo, Laís, pra escrever não podemos ter dó dos personagens! (mas que dá pena, dá)

  7. Aline Viana

    Muito bom mesmo! E que casal mais curioso…
    Parabéns, Gláuber!

  8. Obrigado, Aline! Realmente, esse casal…

  9. Rosaly Maria Stefani Ozorio

    Glauber, cinematográfico! Legal mesmo!

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