Minha Nossa!

Ô, minha Nossa Senhora! O dinheiro anda tão curto e o mês cada vez mais longo. O patrão até que é bom. Coxinha e quibe frito que sobra do bar lá em casa é que não falta. Ô minha Nossa Senhora, mas tem um monte de coisa ainda. Este mês tem o uniforme da escovinha de futebol do Klebeylson Alexandre, o vestido da primeira comunhão da Janyelle Crystine e a festinha de um ano da Gracyelle Mabelly. Sem falar no banheiro lá de casa que tá entupido e a luz cortada. O mês ainda nem tá na metade e já tirei dois vales. Ô minha Nossa Senhora, me dá uma luz de como  conseguir um dinheirinho extra. Pode ser um emprego bom, um bico, um parente rico, uma amante veia, uma mala cheia de dinheiro.

Nossa! Será que aquilo que tô vendo ali no meio da rua é o que eu tô pensando? Ô minha Nossa Senhora, mas nem tô acreditando. Não pode ser. Já ouvi falar em milagre, mas nunca imaginei. Será que é uma alucinação? Ai, vou chegar mais perto. Vixi. Agora sim, eu tenho fé. Mas não posso nem acreditar. Muito obrigado por esse sinal.

Ué, mas não tem ninguém na rua. E uma mala assim, grande, jogada sozinha no meio? Ah, não. Não e não. Só pode ser uma pegadinha. Aí, a gente bota a mão e aparece depois na televisão falando que pegou o que não era nosso. Imagina só. Vai ver que tem uma câmera escondida por aí. É, mas também né… Pode não ser… É muita coincidência. Bem na hora que fiz o pedido a mala apareceu na esquina!? Mas se eu fiz o pedido pra Nossa Senhora e, na hora, a mala apareceu bem na minha frente. Só pode ser um milagre mesmo, gente. Bom, pra saber se é um milagre vou dar uma olhadinha. Dependendo … Ah, mas sei lá… Já dizia a minha avó: quando a esmola é tanta…

Ai, vou abrir de uma vez. Ué, que coisa mais esquisita: um, dois, três… Gente, mais quanto radinho de pilha! E aqui tem oito espelhinho, mais oito chinelo vermelho, no. 38?! Nossa, tem ainda oito caneta e uma caixa de fósforo. Ô minha Nossa Senhora, que coisa mais estranha. Bom, lá em casa, contando com a sogra, a cunhada e o cunhado desempregado, a gente é em oito. Então, dá um chinelo, um espelhinho, um radinho pra cada um. Mas também podia vender tudo isso na vizinhança. Mas por que será que tudo é oito?

Olha, aqui nesse saquinho tem um dinheiro. Vixxi, Maria! Dá trezentos e trinta e quatro reais. Virgem do Céu… ganhei o dia, o mês, o ano. Tô salvo… Trezentos e trinta e quatro, mais oito radinho, mais oito espelhinho, mais oito chinelo vermelho, mais oito caneta… Nossa Senhora! Deus me livre disso tudo. Ave! Somando tudo dá o número da besta. Besta sou eu se pegar esse dinheiro. Ah, mas assim, numa esquina, que na verdade é uma encruzilhada, essa mala só pode ser macumba mesmo. É isso! Era muito bom pra ser verdade. Tudo aqui tá emacumbado. Credo em cruz. Ô minha Nossa Senhora, por isso, que a gente não pode falar nada em voz alta. O “coisa ruim” escuta e faz armadilha pra gente. Alegria de pobre dura pouco mesmo. Nossa! Ainda bem que sou esperto e fiz a conta. Isso podia dar mais sete anos de azar. Só vou levar o fósforo que ficou de for da minha conta pra ajudar a acender a lamparina lá de casa. O jeito é ir embora de mão abanando. Bom, como eu ia dizendo, minha Nossa Senhora, pra não ter mais problema com macumba, em vez de uma mala de dinheiro não podia fazer um depósito direto na minha conta lá no banco? Assim eu ia ter certeza de quem mandou o dinheiro.

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Sobre sandrareginasantos

Nasceu em Londrina

  1. Ai Sandra! Que delícia de texto! E esse matuto é demais mesmo!

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